
Corações Partidos, Vidas Recomeçadas
Capítulo 3
A memória da dor era tão vívida que parecia estar acontecendo de novo.
Nós nascemos juntas, Clara e eu, unidas por um laço físico que os médicos separaram, mas que a alma nunca esqueceu.
Éramos um espelho uma da outra, mas onde eu tinha talento para o design, uma paixão crua e instintiva, Clara tinha o talento para a manipulação.
Desde cedo, Ricardo Vargas, o todo-poderoso da moda, viu algo em Clara.
Não o talento, mas a ambição implacável, a falta de escrúpulos que ele tanto valorizava.
Ele a elogiava em público, enquanto me tratava com uma indiferença calculada, como se meu talento fosse um diamante bruto que precisava ser polido pela arrogância dele.
Ele me ignorava, mas meus olhos viam a preferência dele por Clara, os sorrisos discretos, os conselhos dados em segredo.
A primeira prova, o primeiro teste de lealdade neste jogo doentio, foi a queda de Leonardo.
Sua empresa de tecnologia, construída sobre promessas vazias e empréstimos obscuros, estava prestes a implodir.
O escândalo seria sua ruína.
E eu, cega de amor, me ofereci como o cordeiro do sacrifício.
"Eu assumo a dívida", eu disse a ele, em seu escritório luxuoso, enquanto ele andava de um lado para o outro, desesperado.
"Sofia, isso vai destruir você", ele disse, com lágrimas de crocodilo nos olhos.
"Não importa, eu faço qualquer coisa por você."
E eu fiz.
Redigi um contrato falso, forjei documentos, transferi a fraude para o meu nome.
Vendi meu pequeno ateliê, minhas economias, minha alma.
Eu me tornei a vilã para que ele pudesse continuar sendo o herói.
O dia da humilhação pública foi no desfile de graduação da academia de moda.
Eu estava nos bastidores, exausta, mas com o coração em paz, acreditando que meu sacrifício valera a pena.
Leonardo me prometeu que, depois da tempestade, nós construiríamos nosso futuro juntos.
O design que eu apresentaria naquela noite era minha obra-prima, uma coleção chamada "Renascimento", inspirada na superação, na força que nasce da dor.
Mal sabia eu que o único renascimento seria o de Clara, sobre as minhas cinzas.
Quando chegou a minha vez, as luzes se acenderam e, para meu horror, foi Clara quem entrou na passarela.
Ela usava o vestido principal da minha coleção.
A multidão ofegou, era uma peça magnífica.
Leonardo subiu ao palco ao lado dela, segurando sua mão.
O microfone foi entregue a ele.
"Esta noite", ele começou, sua voz cheia de uma falsa emoção, "eu quero apresentar a vocês não apenas uma designer, mas uma visionária, a mulher que me inspirou a superar minhas dificuldades e que criou esta coleção incrível, minha amada, Clara."
O mundo ao meu redor ficou em silêncio.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Clara sorriu para a plateia, um sorriso modesto e vitorioso.
"Eu não fiz isso sozinha", disse ela. "Minha irmã, Sofia, me ajudou com alguns esboços. Infelizmente, ela se envolveu em alguns problemas financeiros e não pôde estar aqui para celebrar."
"Problemas financeiros" era o eufemismo que eles usaram para a desgraça que arquitetaram para mim.
Naquele momento, seguranças apareceram nos bastidores, acompanhados por Ricardo Vargas.
Seu rosto era uma máscara de fúria e decepção.
"Sofia", ele disse, sua voz cortante. "Você me desapontou. Fraude, escândalo, você manchou o nome da minha academia."
Ele não me deu chance de falar.
Ele me arrastou para o palco, para a frente de centenas de pessoas, para a frente das câmeras que transmitiam ao vivo.
"Esta mulher não é mais uma designer", ele anunciou, sua voz ressoando como uma sentença de morte. "Seu talento está contaminado pela desonestidade. Ela está banida da indústria da moda. Seu nome será uma lição para todos que ousam misturar negócios com sujeira."
Ele rasgou simbolicamente meu crachá de designer, o som do plástico se partindo ecoou mais alto que a batida do meu coração.
Ele estava me despojando da minha identidade, da minha paixão, da minha vida.
Humilhada, de joelhos no palco, eu vi Clara se aproximar de Ricardo.
"Senhor Vargas", ela disse, com a voz embargada. "Sofia tinha um pequeno portfólio de outros designs, talvez, para compensar os danos, eu possa trabalhar neles, para honrar o nome da nossa família."
Ela não queria apenas minha glória, ela queria meus restos.
Ela queria apagar cada vestígio de mim.
"Foi ela!", eu gritei, a voz rouca de desespero. "Foi Clara! Ela roubou tudo de mim! Leonardo, diga a verdade!"
Ninguém acreditou em mim.
Eu era a pária, a criminosa. Eles eram as vítimas, os heróis.
Meu grito se perdeu na multidão, uma súplica silenciosa que ninguém quis ouvir.
Essa foi a minha primeira morte.
Uma morte lenta e agonizante, sob os aplausos que celebravam minha destruição.
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