Seguir
Capítulos
Compartilhar
Capa do romance Conduta de Favela (Morro)

Conduta de Favela (Morro)

A renomada capitã Juliana Moreira assume uma missão arriscada: infiltrar-se na favela do Mandela. Motivada pelo desejo de vingar a perda de um ente querido, ela busca provas contra o líder do tráfico local. No entanto, ao conhecer Erick, o perigoso e magnético PICAsso, Juliana percebe que a realidade do morro é complexa. Entre o dever e a atração, ela enfrentará o maior desafio de sua carreira, onde a linha entre justiça e paixão se torna perigosamente tênue.
Capítulos
Compartilhar

Capítulo 2

Eu pensei que a tarefa mais complicada e que exigiria mais da minha paciência e boa vontade seria ter passado aqueles anos de treinamento militar num ambiente totalmente dominado por homens. Eu nunca me imaginei sendo paparica com manicures que alongavam minhas unhas com fibra de vidro.

Nunca imaginei que meus cabelos seriam repuxados e alongados por mechas de megahair em tons levemente dourados, para que as minhas mechas castanhas se misturassem de modo quase californiano.

Eu nunca sonhei, nem nos meus piores pesadelos, que teria de mudar as minhas peças de roupas para shorts curtos e tops que não cobriam mais do que a minha barriga, só que fiquei espantada ao notar que meu corpo realmente caía muito bem naquele tipo de roupa.

E, mesmo contra todas as minhas divagações mais férteis, eu jamais me imaginei olhando no espelho e não reconhecendo a minha própria imagem. Qualquer um que não estivesse na mesma sala onde os preparos foram feitos, jamais poderia dizer que Juliana Moreira — a policial que não gostava nem mesmo de um olhar torto — estava agora se vestindo com roupas cujo tamanho não servia nem mesmo para enxugar o chão.

O meu short era ridículo, e me deu vergonha de usá-lo, mesmo que os policiais do meu batalhão já não estivessem mais por perto. E mesmo que o Major tenha me dado a liberdade de escolher ser transformada para o trabalho em um local que me trouxesse privacidade.

Eu me senti exposta. Mesmo numa sala só com uma equipe de mulheres do ramo estético. Eu me senti como um dos piores adjetivos que se podoa dar para uma mulher que se vestia daquela forma.

 — Não está tão ruim assim — comentou Mariana Amaral, nossa já infiltrada no complexo do Mandela. Ela me observou conforme se recostava na moldura do espelho de corpo diante de mim. Os cabelos pretos dela estavam suavemente brilhantes pela luz forte ao redor do espelho. E foi aquela mesma luz que deixou bem nítida a minha expressão desencorajadora. Mariana suspirou. — Você precisa se vestir de acordo com o local, Ju. Você acha que eu gostei de usar isso por um ano inteiro?

Eu a observei. De fato, ela também usava uma roupa muito curta para uma policial de respeito. Mariana era um pouco mais corpulenta, e isso tornava as roupas muito mais chamativas do que normalmente seria, e se não fosse aquela postura altiva e firme que todos policiais ganham com os anos de serviço, ela apenas pareceria uma mulher fútil e sem graça.

Embora eu não pudesse dizer que minhas coxas expostas não demonstravam os anos de exercício e treinamento militar. Eu me sentia como uma garota de academia que gostava de expor as curvas para todo o mundo.

Eu me encolhi levemente, cruzando os braços diante do peito. Estava frio, e o maldito top até o umbigo não era de um tecido resistente o bastante para não revelar os meus mamilos através do sutiã. Eu me sentia ridícula.

— O que não fazemos pelo nosso emprego, hein? — indaguei, em tom irônico.

Eu já sabia muito bem que Mariana não estava se hospedando no complexo apenas por ordens investigativas. Apesar de vir de uma família formada na academia de polícia, ela tinha parentes distantes que ainda moravam no morro.

Aquela parte da família era uma que seu pai jamais quis nos deixar saber da existência, mas quando houve a necessidade de nos infiltrarmos na favela, ele sugeriu que a filha fosse morar com a avó, para que ela ficasse de olho em tudo.

Ninguém conseguia disfarçar o fato de que Mariana tinha gostado muito mais de estar naquele complexo do que nos anos vividos dentro do batalhão. Ela ainda não tinha perdido o sotaque sofisticado, mas as roupas já eram totalmente adaptadas para aquele ambiente, e ela parecia muito segura de que não havia vida melhor do que na favela.

— Admita que você só aceitou tudo isso para se vingar — disse ela, arqueando uma sobrancelha. Eu fiz a minha melhor expressão de confusão, virando-me para calçar um par de tênis. Mariana ressurgiu diante de mim. — Ninguém em sã consciência, nem mesmo o Major, obrigaria Juliana Moreira a fazer qualquer coisa que não fosse da vontade dela. Todo mundo sabe que você é doida para entrar naquela favela e fuzilar todos os moradores.

— É claro, minhas intenções nunca foram segredo — disparei, dando de ombros.

Era desumano admitir aquilo. Honestamente, uma grande parte de mim nem mesmo considerava aquela hipótese. Eu odiava uma pessoa em específico, e não o morro inteiro.

Eu sabia que muitas pessoas não tinham condições financeiras o suficiente para deixar aquele lugar. Eu não era burra de pensar que alguém merecia morrer só por nascer no lado errado da cidade. Só que eu não gostei do tom de Mariana.

Nós nunca nos demos bem, para dizer a verdade. Ela era uma das três mulheres que também trabalhavam comigo naquele batalhão. Uma das melhores. E uma das mais arrogantes. Ou será que a arrogância era minha?

— Só que eu ainda sou subordinada de alguém, e se este alguém me dá uma ordem, eu só devo acatar. Mas é bom que não espere que nos tornemos amigas, Mariana. Eu estarei indo morar em sua casa só para saber o que você já descobriu e como posso contribuir para o nosso general. Fora isso, se considere apenas uma pessoa da qual ainda tenho de suportar.

Mariana deu uma risada. Ela era uma mulher muito bonita, e ficava adorável quando gargalhava, porque suas bochechas ficavam vermelhas e os olhos azuis cintilantes. Só que o problema é que ela só gargalhava quando queria soar irônica, e apesar de sua aparência fofa, eu queria socar o seu rosto até que ela ficasse irreconhecível.

A única coisa que sempre me impediu de bater nela até sua pele descolar do corpo, era meu respeito pelo seu pai. Porém, ela não demonstrava o mesmo senso de consideração, porque fazia de tudo para me irritar.

— Ah, Juliana, pare de drama — disse ela, revirando os olhos, mas mantendo o maldito sorriso. — Anime-se. Não é todo dia que você tem a incrível oportunidade de fazer um retiro espiritual num lugar tão maravilhoso quanto a favela. Você vai acabar se habituando. O problema vai ser só nos três primeiros meses, com seis meses você já vai estar até falando as gírias mais usadas como todo mundo.

Eu dei uma risadinha baixa, querendo encerrar o assunto porque a equipe de maquiagem havia retornado para perto afim de retocar meu batom vermelho e o delineado. Os meus cabelos enroscaram desconfortavelmente ao redor dos meus braços, e eu praguejei que o motivo para que meus fios originais fossem curtos era justamente por odiar ser presa sem perceber.

Mariana ficou rindo o tempo todo, dando palpites sobre o que e onde a equipe deveria se concentrar mais para me tornar uma garota da laje.

Enquanto Mariana fazia o favor de me deixar ainda mais irreconhecível, não pude evitar o terrível pensamento de que, três meses na favela já me parecia um tempo longo demais, seis era uma impossibilidade, e, com um ano, eu provavelmente já teria matado alguém ou enlouquecido de vez.

A percepção disso me deixou calada pelo resto do tempo em que fui transformada numa Juliana que jamais pensei me tornar.

Você pode gostar

Capa do romance A arqueira
8.5
Após prestar auxílio ao rei, Makva se depara inesperadamente com os homens responsáveis pela aniquilação total de seu vilarejo. Esse encontro brutal faz com que sua antiga sede por vingança retorne com força total, consumindo seus pensamentos. Agora, em meio a uma jornada repleta de perigos e ação, a arqueira precisa confrontar o passado doloroso enquanto busca justiça contra aqueles que destruíram sua vida e seu povo no passado.
Capa do romance A Noiva Que Roubou Meu Rim
9.3
Após doar um rim para salvar o sogro, fui descartado pela noiva no hospital. Ela me chamou de doador conveniente e voltou para o ex rico. A traição piorou quando ele atropelou minha irmã; para protegê-lo, minha ex espalhou mentiras online que levaram ao assassinato da minha irmã por um estranho. A mulher a quem dei parte do meu corpo destruiu minha vida e me tirou tudo. Agora, busco justiça e farei com que eles percam tudo o que possuem.
Capa do romance A Vingança de Miguel
9.1
Miguel abdica de uma bolsa no exterior para cuidar da irmã em coma, vítima do influente Ricardo Vargas. Traído pela noiva Isabela e preterido pela adotada Larissa, ele enfrenta o desprezo da própria família. Após ser agredido e expulso de casa, o jovem médico abandona seu passado doloroso. Anos depois, endurecido pelas cicatrizes e com o apoio de Lívia, Miguel ressurge para confrontar aqueles que o destruíram, provando que o homem gentil que amava Isabela morreu.
Capa do romance Além do Destino.
9.2
Isabella de Montclair cresceu aceitando o casamento arranjado com o príncipe Edmond para unir suas linhagens. Porém, sua submissão acaba ao se apaixonar por Alejandro, capitão da guarda. Esse amor proibido gera graves consequências: ele é rotulado como traidor e ela vira prisioneira do próprio dever. Entre a pressão da nobreza e a iminência de uma guerra, o casal deve decidir se desafia as leis mortais ou se sucumbe ao destino cruel imposto pela coroa.
Capa do romance Do Hospital à Redenção: A Jornada de Ana
8.2
Ao despertar no hospital, Ana descobre que seu filho Tiago precisa de uma cirurgia cerebral vital. Contudo, seu marido Leo e a família dele negam o consentimento para a operação, temendo culpa legal pelo acidente. Sofia ainda a acusa falsamente à polícia para incriminá-la. Abandonada e bloqueada por Leo, Ana transforma seu desespero em fúria. Decidida a salvar a criança, ela jura que todos pagarão por essa traição cruel. Sua nova vida começa agora.
Capa do romance Marcel -  Rendida pelo Traficante
9.1
Lorena tem sua rotina destruída ao encontrar um invasor em seu lar. O incidente termina no sequestro de sua melhor amiga, forçando Josie a aceitar um acordo perigoso. Para resgatá-la de um inimigo misterioso, ela deve servir ao criminoso que invadiu sua vida. No entanto, ao investigar as motivações do crime, Josie se envolve profundamente com o sedutor traficante Santiago, mergulhando em um submundo sombrio e sem retorno, onde o perigo e o desejo se misturam.