
Cinzas no Atlântico: A Promessa Final
Capítulo 2
Os portões da prisão de Linhó abriram-se com um rangido metálico.
Cinco anos.
O ar frio de Sintra atingiu-me o rosto, um ar que já não me pertencia.
Peguei na minha pequena mala, que continha apenas algumas roupas velhas e as cinzas da minha dignidade.
A primeira coisa que fiz não foi procurar um lugar para ficar, mas sim encontrar um café com internet.
Com as minhas poupanças, que mal chegavam para sobreviver, paguei o depósito de um serviço online chamado "Última Viagem". Eles espalhariam as minhas cinzas no mar dos Açores.
No local exato onde eu e o Diogo prometemos casar.
O médico tinha sido claro. Cancro terminal. Restavam-me poucos meses.
Esta era a única coisa que eu queria.
Para pagar o resto, precisava de dinheiro.
Encontrei um anúncio para empregada de mesa numa famosa casa de fados em Alfama. Era um sítio caro, frequentado por gente rica.
A dona, uma senhora de idade com olhos tristes, olhou para os meus papéis de libertação da prisão.
"Não me importo com o teu passado," disse ela. "Só preciso de alguém que trabalhe."
Fui contratada.
Naquela noite, o som do fado enchia o ar. Melancólico, pesado. Como a minha vida.
Enquanto servia uma mesa, ouvi uma voz que me fez gelar o sangue.
"Querida, este anel é perfeito."
Era ele. Diogo Almeida.
O herdeiro do império do Vinho do Porto. O homem que eu amava mais do que a minha própria vida. O homem que me odiava com a mesma intensidade.
Ele não tinha mudado nada. O mesmo cabelo escuro, os mesmos olhos profundos que antes me olhavam com amor, agora olhavam para a mulher ao seu lado com uma ternura que me rasgava por dentro.
Sofia. A minha melhor amiga.
"Diogo, é lindo," disse ela, a voz doce como veneno. "Quando nos casarmos, quero que toda a Lisboa saiba o quanto me amas."
O meu coração parou.
Casamento.
Uma promessa que ele me fez, num penhasco sobre o mar azul dos Açores.
Tínhamos dezassete anos. Estávamos sentados na relva, a olhar para a Lagoa das Sete Cidades.
"Lara, quando formos mais velhos, vamos casar aqui," disse ele, a voz cheia de sonhos. "Só nós, o mar e o céu."
Eu ri e encostei a cabeça no seu ombro. "Prometes?"
"Prometo."
Esse amor, essa promessa, tudo foi destruído no dia em que a mãe dele morreu.
Eu encontrei-a no seu escritório. Uma carta de suicídio na mesa, revelando um caso com um empregado e dívidas de jogo que arruinariam o nome dos Almeida.
Quando o Diogo chegou, o desespero nos seus olhos era algo que eu nunca poderia esquecer.
Para o proteger, para proteger o legado da sua família, fiz a única coisa que podia.
"Fui eu," disse-lhe, a voz fria, vazia. "Discutimos. Eu empurrei-a."
O amor nos olhos dele transformou-se em puro ódio. Ele próprio me entregou à polícia.
Cinco anos na prisão foram o meu castigo. O cancro foi a sentença final do destino.
Agora, o meu único desejo era cumprir a nossa promessa, mesmo que fosse apenas em cinzas.
De volta à casa de fados, a realidade atingiu-me com força.
Os meus olhos encontraram os dele.
O reconhecimento foi instantâneo. O choque, depois a raiva pura.
Ele levantou-se, caminhou na minha direção. Cada passo era uma ameaça.
"O que fazes aqui?", a sua voz era um sussurro perigoso.
Antes que eu pudesse responder, ele pegou num copo de vinho da minha bandeja e entornou-o deliberadamente no chão.
O vinho tinto espalhou-se pelo chão de pedra como sangue.
"Limpa," ordenou ele, alto o suficiente para que todos ouvissem.
Os murmúrios começaram. "É ela, a assassina." "Que descaramento, aparecer aqui."
A humilhação era um fogo que me consumia por dentro, mas o meu rosto permaneceu uma máscara de gelo.
Ajoelhei-me, os joelhos a protestarem na pedra fria, e comecei a limpar a nódoa com um guardanapo.
Senti o seu olhar sobre mim, um misto de ódio e algo mais, algo que me assustava.
Quando terminei, o gerente aproximou-se, o rosto pálido.
"Senhorita, o prejuízo... o chão de pedra manchado... vai custar-lhe todo o seu salário."
"Não se preocupe," a voz de Diogo cortou o ar. Ele virou-se para mim, um sorriso cruel nos lábios. "Ela pode pagar de outra forma."
Ele agarrou-me pelo braço, arrastando-me para um corredor escuro.
"Queres dinheiro, não é?", sibilou ele. "Precisas de dinheiro para sobreviver neste mundo que te despreza."
Ele atirou um maço de notas para o chão, aos meus pés.
"Torna-te a minha assistente pessoal. Fica ao meu lado, 24 horas por dia. Faz tudo o que eu mandar. Eu pago-te."
Era um pretexto. Uma forma de me manter por perto, de me torturar.
Eu sabia-o. E ele sabia que eu sabia.
"Porque farias isso?", perguntei, a voz um fio.
Ele riu, um som sem alegria. "Porque olhar para a tua cara de sofrimento é o único prazer que me resta. Porque ver a assassina da minha mãe a rastejar aos meus pés é a minha vingança."
Eu olhei para o dinheiro no chão. Depois para os seus olhos.
O dinheiro significava os Açores. Significava paz.
Inclinei-me e apanhei as notas.
"Aceito."
Ele sorriu, um sorriso vitorioso. Puxou-me de volta para a sala principal, a tempo de ver Sofia a beijá-lo apaixonadamente.
"Vês? Esta é a tua vida agora. Vais assistir à minha felicidade, todos os dias."
E assim começou o meu sacrifício final.
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