
Cinzas no Atlântico: A Promessa Final
Capítulo 3
O carro de luxo de Diogo deslizava pelas ruas de Lisboa, mas eu sentia-me como se estivesse num carro funerário a caminho do meu próprio enterro.
Ele e a Sofia sentavam-se no banco de trás, as suas vozes e risos a ecoarem no espaço confinado.
Eu estava no banco da frente, ao lado do motorista, uma sombra silenciosa.
"Amor, a festa no iate vai ser incrível," dizia Sofia. "Toda a gente importante vai estar lá."
"Só o melhor para ti," respondeu Diogo.
Eu olhava pela janela, para as luzes da cidade a passarem, mas não sentia nada. Era como se o meu corpo estivesse presente, mas a minha alma já tivesse partido. Um cadáver ambulante, como ele queria.
Não chorei. As minhas lágrimas secaram na prisão.
Chegámos ao seu apartamento, uma penthouse com vista sobre o rio Tejo.
Ele ordenou-me que preparasse o quarto deles.
"E depois, limpa tudo. Não quero vestígios."
Sofia tentou intervir, uma falsa bondade no seu olhar. "Diogo, não sejas tão duro com ela. Afinal, éramos amigas."
"Isto não é sobre dureza, Sofia. É uma transação justa. Ela quer o meu dinheiro, eu quero a minha vingança."
A sua crueldade era fria e calculada.
Os dias seguintes foram um borrão de humilhação.
Ele levava-me para todo o lado. Jantares de negócios, festas exclusivas, eventos de caridade.
Forçava-me a beber até quase cair, a servir a Sofia como uma criada, a ficar de pé durante horas enquanto eles dançavam.
Depois de cada evento, ele atirava-me dinheiro. Notas amarrotadas, sujas, como se eu fosse lixo.
Eu apanhava cada uma delas.
Em silêncio.
O meu objetivo era claro. Juntar dinheiro suficiente para pagar a "Última Viagem" e desaparecer para sempre. Sem deixar vestígios.
A festa de aniversário da Sofia foi o auge da sua ostentação.
Um iate luxuoso navegava pelo Tejo, a música alta, o champanhe a jorrar.
Sofia usava uma pulseira de diamantes deslumbrante.
"Foi um presente da mãe do Diogo," disse ela a uma amiga, alto o suficiente para eu ouvir. "Ele disse que ela gostava muito de mim."
Uma mentira. A mãe dele mal a suportava. A pulseira... tinha sido um presente para mim, no meu décimo oitavo aniversário.
Eu observava a cena, uma dor surda no peito. Lembrei-me do nosso próprio noivado, planeado para ser grandioso, uma celebração do nosso amor.
Ouvi os comentários à minha volta.
"Como é que ele a consegue manter por perto?"
"Ela merece cada segundo disto. Matou a mãe dele a sangue frio."
Eu era a vilã da história deles. E tinha de continuar a ser.
Mais tarde, Sofia encontrou-me sozinha no convés.
"Sabes, Lara, eu sempre o amei," confessou ela, sem qualquer vestígio da sua doçura fingida. "Tu tinhas tudo. E arruinaste-lhe a vida."
"Eu vou desaparecer em breve," disse eu, a voz cansada.
Ela riu. "Não acredito em ti. Vais sempre tentar voltar para ele."
Num movimento rápido, ela tirou a pulseira de diamantes do pulso.
"Vês isto? Agora é meu. Tudo o que era teu é meu."
E com um sorriso malicioso, atirou a pulseira para as águas escuras do Tejo.
"Ups. Acho que a deixei cair. És a assistente dele, não és? Vai buscá-la."
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