
Cinzas e Recomeço
Capítulo 2
O desfile tinha sido um sucesso absoluto. A ovação, os flashes, os compradores disputando pelas peças da nova coleção... tudo confirmava que a marca "Sofia Dantas" estava no auge. Esgotada, mas com o coração transbordando de alegria, eu só queria comemorar com Pedro, meu noivo e o empresário que me ajudou a chegar até aqui.
Subi para o escritório dele, no mezanino com vista para a passarela agora vazia, esperando encontrá-lo para brindarmos. A porta estava entreaberta e ouvi vozes.
Era Pedro, mas ele não estava sozinho. A outra voz, inconfundível e carregada de um veneno que eu conhecia bem, era de Laura, minha eterna rival no mundo da moda e, ironicamente, ex-noiva dele.
Parei, com a mão no trinco, o coração começando a acelerar por um motivo que não era a euforia do sucesso.
"O nome dela já está consolidado, Pedro. O nome da família dela abriu todas as portas" , dizia Laura, a voz impaciente. "Agora é a hora. Com o talento dela, a minha nova linha vai se tornar a maior do país. Ninguém vai resistir."
Talento dela? Minha linha?
A respiração ficou presa na minha garganta.
"Eu sei, Laura, eu sei" , a voz de Pedro era calma, controladora, como sempre. "O plano está em andamento. Precisamos apenas que ela assine o novo contrato de gestão de marca. Com a assinatura dela, teremos controle total sobre todos os designs, passados e futuros."
Senti um frio percorrer minha espinha. Um novo contrato? Ele me disse que era apenas uma formalidade para expandir os negócios internacionalmente.
"E quanto àquela doença dela?" , perguntou Laura. "É a nossa melhor arma. Ninguém vai acreditar numa mulher instável e doente. Se ela tentar dizer alguma coisa, vamos usar a condição dela para desacreditá-la completamente. Diremos que a doença afetou sua mente, que ela está delirando."
A minha doença crônica. A condição que me impedia de ter filhos, a minha dor mais secreta, que eu só tinha compartilhado com ele. Pedro estava planejando usá-la contra mim.
O mundo girou. O barulho da festa no andar de baixo pareceu distante, um eco de uma vida que não era mais minha.
"É cruel, eu admito" , continuou Pedro, e na sua voz não havia um pingo de remorso, apenas cálculo. "Mas é necessário. Sofia é talentosa, mas é frágil. Ela não tem a garra para levar um império adiante. Nós temos. Ela vai assinar, vai nos dar tudo o que precisamos, e depois... cuidaremos para que ela tenha uma vida 'confortável' , longe de tudo. Ela nem vai entender o que aconteceu."
A bile subiu pela minha garganta. O homem que eu amava, o homem com quem eu ia me casar, estava me descrevendo como um animal a ser abatido depois de ter servido ao seu propósito.
O choque era tão grande que meu corpo inteiro tremia. Agarrei-me à parede para não cair.
E foi nesse momento, em meio ao turbilhão de traição e desespero, que uma estranha sensação tomou conta de mim. Um enjoo súbito, uma tontura diferente da que o choque me causava.
Levei a mão à barriga, instintivamente.
Impossível.
Os médicos foram claros. Minha doença, as medicações... eu não podia ter filhos. Era um fato, uma cicatriz na minha alma.
Mas aquela sensação... eu conhecia. Era a mesma que minha irmã descreveu tantas vezes.
O sangue fugiu do meu rosto. Eu estava grávida. Contra todas as probabilidades, contra toda a ciência, eu carregava um filho de Pedro. Um filho que ele nunca saberia que existia, um filho que nasceria no meio da maior traição da minha vida.
A dor no meu peito era física, aguda. Pior que a traição, pior que o roubo dos meus sonhos, era a constatação de que eu tinha dado tudo a ele, até mesmo um milagre que eu nem sabia que era possível, e ele estava planejando me destruir.
Lembrei-me de suas promessas, sussurradas em noites como esta. "Nós vamos construir um império juntos, meu amor. Você e eu, contra o mundo." "Não se preocupe com filhos, Sofia. Você é tudo o que eu preciso."
Mentiras. Cada palavra, uma mentira cuidadosamente construída para me manter dócil, para me fazer entregar meu talento, meu nome, minha vida.
"Só tenha certeza de que ela não suspeite de nada" , alertou Laura. "Se ela descobrir antes de assinar o contrato, perdemos tudo. E não se esqueça de queimar o ateliê antigo dela depois. Nenhuma prova, nenhum rascunho pode sobrar."
Queimar meu ateliê. O lugar onde tudo começou, onde cada sonho meu tomou forma. Eles queriam apagar a minha existência.
O desespero era uma onda escura me engolindo. Eu não tinha ninguém. Meus pais já haviam falecido, e Pedro tinha se encarregado de me afastar de todos os meus amigos, dizendo que eles tinham inveja do nosso sucesso. Eu estava sozinha.
Não.
Não completamente.
Uma imagem surgiu na minha mente, uma tábua de salvação no meio do naufrágio. Meu padrinho. Um estilista renomado, hoje recluso, que me ensinou tudo o que eu sei. Ele sempre me protegeu, sempre viu a verdade por trás das aparências. Ele era minha única esperança.
Sem pensar duas vezes, dei as costas àquela porta, ao meu futuro destruído. Desci as escadas de serviço, ignorando os olhares curiosos. Ignorei meu motorista, meu carro, minha vida.
Corri para a rua, o ar frio da noite batendo no meu rosto coberto de lágrimas. Eu não sabia para onde ir, apenas que precisava fugir. Eu tinha que chegar até meu padrinho.
Mas eu sentia os olhos deles nas minhas costas. Pedro e Laura não me deixariam escapar tão fácil. Eles me seguiriam, e fariam de tudo para me destruir.
O frio cortava minha pele, mas não era nada comparado ao gelo que se formava no meu coração. Passei a noite andando sem rumo pelas ruas, a mente em branco, o corpo entorpecido. O choque inicial deu lugar a um vazio profundo. A cada passo, as vozes deles ecoavam na minha cabeça. As mentiras, o plano, a crueldade.
O sol começou a nascer, pintando o céu com cores suaves que pareciam uma zombaria para a escuridão dentro de mim. Eu estava exausta, física e emocionalmente. Encostei em um muro em uma rua qualquer, a mão protetoramente sobre minha barriga.
Uma nova vida estava começando dentro de mim, no exato momento em que a minha estava sendo incinerada.
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