
Cinzas e Recomeço
Capítulo 3
Voltei para o nosso apartamento antes que Pedro acordasse. O lugar, que antes eu chamava de lar, agora parecia um palco, um cenário montado para a farsa da nossa vida. Cada objeto de decoração, cada porta-retrato com nossos sorrisos, era uma mentira.
Tomei um banho frio, tentando lavar a sujeira da traição, mas ela estava impregnada na minha alma. Vesti um roupão e fiquei sentada na beira da cama, olhando para o nada.
Ouvi a porta do quarto se abrir. Era Pedro. Ele entrou, sorrindo, o mesmo sorriso caloroso que ele usava para me enganar todos os dias.
"Bom dia, meu amor. Você saiu cedo ontem, te procurei por toda parte" , ele disse, a voz cheia de uma falsa preocupação que me revirou o estômago.
Ele se aproximou e tentou me beijar.
Virei o rosto.
O beijo dele acertou minha bochecha. Senti um calafrio de repulsa. Afastei-me um pouco, um movimento sutil, mas que não passou despercebido por ele.
"O que foi, Sofia? Cansada da festa?" , ele perguntou, sentando-se ao meu lado, ainda muito perto. Sua mão pousou no meu ombro. O toque dele queimava.
"Só estou exausta" , respondi, a voz saindo mais fria do que eu pretendia.
Tirei o ombro do seu alcance, levantando-me para ir até a janela. Precisava de distância, de ar.
Pedro me observou, os olhos estreitos por um segundo. Ele era um mestre da manipulação, sentia qualquer mudança no ambiente. Mas logo o sorriso falso voltou ao seu rosto.
"Claro que está. Foi uma noite e tanto" , ele disse, levantando-se e vindo me abraçar por trás. "Mas valeu a pena. Você viu a reação deles? Estamos no topo do mundo, querida. E isso é só o começo."
Ele descansou o queixo no meu ombro, falando perto do meu ouvido.
"Assim que você assinar aquele novo contrato, vamos expandir para a Europa, Ásia... O nome 'Sofia Dantas' será global. E você será a rainha do império que construímos."
Sua voz era sedutora, mas tudo o que eu ouvia era o eco das suas palavras da noite anterior: "Ela vai nos dar tudo o que precisamos" .
Meu corpo estava tenso sob o seu toque. Lutei contra a vontade de gritar, de cuspir na cara dele toda a verdade. Mas eu não podia. Não ainda. Eles me destruiriam, usariam minha condição, minha gravidez... meu filho.
A mão dele desceu pela minha cintura, parando na minha barriga.
"Imagine só, Sofia. Nosso império" , ele sussurrou.
Por um segundo de pânico puro, pensei que ele sabia. Pensei que ele podia sentir a vida que pulsava ali. O ar me faltou.
"Pedro, eu..." , comecei a falar, a voz trêmula. Eu estava prestes a ceder, prestes a dizer tudo, a implorar por uma explicação, por qualquer coisa que fizesse sentido.
Naquele exato momento, o celular dele tocou, estridente, quebrando a tensão no quarto.
O som foi como um balde de água fria, me trazendo de volta à realidade. Cale-se, Sofia. Cale-se ou você perde tudo.
Pedro suspirou, irritado com a interrupção. Ele se afastou para pegar o telefone na mesa de cabeceira.
"O que foi? Estou ocupado" , ele atendeu, ríspido.
Houve uma pausa. A expressão de irritação no rosto dele se transformou em preocupação genuína.
"O quê? Como assim, um acidente? Ela está bem? Onde vocês estão? Estou indo para aí agora."
Ele desligou o telefone, o rosto uma máscara de pânico. Ele nem olhou para mim. Começou a se vestir apressadamente, jogando as roupas pelo quarto.
"O que aconteceu?" , perguntei, a voz um fio. Eu já sabia a resposta.
"É a Laura" , ele disse, sem me encarar, enquanto abotoava a camisa. "Ela sofreu um pequeno acidente no ateliê dela. Parece que uma estrutura de iluminação caiu. Preciso ir até lá."
A mentira era tão descarada, tão mal construída, que era quase um insulto. Um "pequeno acidente" que o deixava em pânico total?
"Laura?" , repeti, sentindo o gelo se espalhar pelas minhas veias. "Sua ex-noiva? Achei que vocês não se falavam mais."
Ele finalmente olhou para mim, e pela primeira vez, vi um lampejo de irritação nos seus olhos, a impaciência de quem não tem tempo para o teatrinho.
"Sofia, agora não é hora para isso. Ela é uma figura importante no mercado, uma parceira de negócios. Seria ruim para a nossa imagem se eu não fosse prestar apoio" , ele disse, a voz dura.
Parceira de negócios. A palavra ficou suspensa no ar, carregada de todo o veneno que eu tinha ouvido na noite anterior.
Ele pegou a carteira e as chaves, pronto para sair. Parou na porta por um instante.
"Nós terminamos nossa conversa depois. E não se esqueça do contrato. O advogado vai trazê-lo hoje à tarde. Apenas assine, querida. É para o nosso futuro."
E com isso, ele se foi.
Fiquei parada no meio do quarto, ouvindo o som dos seus passos apressados no corredor e o bater da porta da frente.
Ele me deixou. No meio de uma conversa, depois de uma noite que deveria ser nossa, ele me abandonou para correr para os braços da mulher com quem planejava me destruir.
A preocupação no rosto dele não era falsa. Era real. Mas não era por uma "parceira de negócios" . Era por ela.
A ficha caiu com a força de um soco. Não era apenas sobre negócios. Nunca foi. Ele ainda a amava. E eu... eu era apenas uma ferramenta. Um degrau.
Senti uma dor aguda no ventre, um espasmo de medo. Abracei minha barriga, as lágrimas que eu segurei a noite toda finalmente rolando quentes pelo meu rosto.
"Ele se foi, meu bebê" , sussurrei para o silêncio do quarto. "Ele nos deixou."
E pela primeira vez, eu entendi a profundidade do abismo em que eu havia caído.
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