
Cinco Anos, Um Voto Forjado
Capítulo 3
Ponto de Vista de Alice:
"Você ouviu que o Bruno Almeida foi preso uma vez? Por causa da Cristal Ribeiro." As palavras, ditas por uma mulher que havia ficado para trás, agora ecoavam no clube deserto. Ela olhou para mim, uma estranha mistura de pena e fofoca em seus olhos.
"Anos atrás", ela continuou, sua voz baixa e conspiratória, "ele se meteu em uma briga de bar. Um cara estava assediando a Cristal, e o Bruno simplesmente perdeu a cabeça. Acabou passando uma noite na cadeia. Ele sempre foi tão protetor com ela." Ela balançou a cabeça, como se maravilhada com sua devoção, e então finalmente se virou e foi embora, me deixando completamente sozinha na chuva torrencial.
Minha mente girou. Preso? Pela Cristal? Bruno me disse que tinha sido preso uma vez, anos atrás, mas disse que foi por um mal-entendido menor, um caso de identidade trocada em um evento de caridade que deu errado. Ele riu da situação, disse que não foi nada. Outra mentira.
Pensei no meu próprio passado, no terror daquela tentativa de sequestro. O medo que ainda me assombrava, mesmo anos depois. Eu implorei para que ele fizesse aulas de defesa pessoal comigo, para me ajudar a me sentir mais segura. Ele disse que estava "ocupado demais", ou "não é uma ameaça real, Alice". Ele me deu um pequeno spray de pimenta uma vez, um pensamento casual, dizendo: "Toma, para sua tranquilidade." Mas suas ações consistentemente me diziam que minha tranquilidade era secundária, se é que importava.
Eu sempre vi Bruno como um pilar de força, estável e confiável. Minha rocha. Mas agora, essa imagem estava rachando, desmoronando sob o peso de suas traições casuais. Cada nova revelação, cada memória sussurrada dele e de Cristal, arrancava outra camada do homem que eu pensei que conhecia. Ele era realmente um homem que havia amadurecido, ou eu simplesmente não valia a mesma devoção que ele oferecia a ela?
O céu escureceu, a chuva passando de uma garoa para um aguaceiro implacável. Parecia que os céus estavam chorando comigo. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com a água fria da chuva, embaçando minha visão. Meu coração doía, uma dor profunda e oca.
Eu tinha que me recompor. O pensamento daquela caixa de veludo vazia, o colar destinado a Cristal, ainda doía. Eu tinha que voltar para dentro, aceitar oficialmente o prêmio, representá-lo. Mesmo agora, ele esperava que eu limpasse sua bagunça.
Voltei para o salão quase vazio, minhas roupas grudadas em mim, meu cabelo pingando. Alguns oficiais do torneio me olharam com olhos simpáticos. Forcei um sorriso, meu rosto rígido. Aceitei o troféu, uma peça de metal pesada e fria, como a que estava em meu peito.
Enquanto voltava para o estacionamento agora completamente deserto, eu o vi. O carro de Bruno. Ele estava saindo. Cristal estava no banco do passageiro, encolhida, parecendo pequena e frágil. A mão de Bruno repousava protetoramente em seu braço, seu rosto marcado pela preocupação. Ele não me viu. Ele nem sequer olhou na minha direção. Ele já tinha partido.
Ele se foi.
E ele me deixou. De novo.
Lembrei-me do spray de pimenta que ele me dera. De repente, pareceu irônico, uma piada cruel. O homem que deveria me proteger acabara de me abandonar, deixando-me vulnerável não apenas à tempestade, mas às sombras persistentes do meu trauma passado.
Ele se importava tanto com o tornozelo torcido de Cristal que nem considerou o perigo muito real em que me deixou. A tempestade estava piorando. O pensamento do carro de aplicativo, as janelas escuras, o estranho ao volante, fez meu estômago revirar. Minhas mãos começaram a tremer.
Ele me perguntou por que aqueles sapatos eram tão importantes. Ele não entendia. Ele nunca entendeu.
"Alice, qual o problema com os sapatos?", ele perguntou, sua voz tingida de impaciência.
Estávamos em seu escritório algumas semanas atrás. Ele estava em uma ligação, e eu estava experimentando os delicados saltos perolados que encontrei online. Eram perfeitos. O couro mais macio, uma pequena safira embutida na sola, um sutil "algo azul" para nossa recepção. Não eram chamativos, não como o colar de diamantes. Foram escolhidos com cuidado, com amor, com a esperança de um futuro que agora parecia desmoronar a cada minuto que passava.
"São meus sapatos de casamento, Bruno", eu disse, minha voz suave, mas cheia de significado.
Ele mal ergueu os olhos da tela. "Essas coisas velhas? Parecem... usadas. Tem certeza de que não quer um par novo? Algo realmente chamativo?"
Ele os descartou. Descartou meu sonho, minha alegria silenciosa em planejar nossa recepção formal, aquela que finalmente solidificaria nossos cinco anos juntos.
Agora, Cristal, com sua impotência fingida, seu tornozelo torcido, estava usando meus tênis brancos impecáveis. Eu a vi com eles, assim que Bruno a levou embora. Era um par novo de tênis brancos, que eu acabara de comprar e deixar perto da porta. Aqueles que eu ia usar esta noite, para me sentir confortável enquanto dançava com ele. Mas não, ela precisava mais deles. Bruno provavelmente disse a ela para pegá-los sem pensar duas vezes.
"Por que esses sapatos são tão importantes, Alice?", ele perguntou, a testa franzida em confusão, como se meu sentimentalismo fosse uma língua estrangeira. "São só sapatos."
Só sapatos. Só uma recepção de casamento. Só uma esposa. Era tudo "só" para ele.
Cristal, por outro lado, nunca foi "só" nada.
Pensei em seus olhos inocentes, sua postura frágil. "Oh, me desculpe, Alice", ela disse, sua voz pingando de desculpas insinceras. "Eu não queria pegar seus sapatos. Sou tão desastrada." Ela até se ofereceu para me comprar um par novo. Como se um par novo de sapatos pudesse apagar a dor de sua indiferença, sua manipulação calculada.
Passei semanas procurando por aqueles tênis. Vasculhando lojas, comparando marcas, procurando por algo que combinasse perfeitamente conforto e elegância sutil. Eu me imaginei dançando com eles em nossa tão esperada recepção, com Bruno, meu marido, o homem que eu amava. Meu coração doía com a imagem daquele sonho esquecido.
Ele parecia possuir uma capacidade ilimitada de ignorar meus sentimentos, de menosprezar minhas escolhas. Mas para Cristal, ele era um poço sem fundo de compreensão e simpatia. A balança estava tão claramente desequilibrada. Seu coração, sua lealdade, sua própria essência, pendiam tão pesadamente na direção dela.
Um suspiro profundo escapou dos meus lábios. Não havia sentido em se apegar a essa esperança fantasma. Este homem, com quem eu me casei, a quem eu amei, não era o homem que eu pensei que ele era. Ele era uma miragem, um truque cruel da luz.
Minha mente estava decidida. Ele havia escolhido. E agora, eu também escolheria. Eu estava prestes a abrir a boca, a articular a finalidade da minha decisão, para ele, para o universo.
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