Capa do romance Deixando Cinzas, Encontrando Seu Céu

Deixando Cinzas, Encontrando Seu Céu

8.9 / 10.0
Após doar um rim a Caio para salvá-lo, Eva acreditou que o casamento traria amor. Contudo, o bilionário a força a uma cirurgia fatal para ajudar Krystal, sua ex-amante. No leito de morte, Eva descobre a farsa da rival, mas sobrevive graças a Elias, um amigo de infância que forja seu óbito. Agora, despertando de um destino cruel, ela deixa as cinzas do passado para trás e busca justiça contra aqueles que a traíram sob o comando de seu próprio marido.

Deixando Cinzas, Encontrando Seu Céu Capítulo 1

Eu dei um dos meus rins para o meu marido, Caio, para salvar a vida dele. Em troca, ele se casou comigo. Eu era uma garota de um orfanato; ele, um magnata de São Paulo. Eu tolamente acreditei que sua gratidão um dia se transformaria em amor.

Então, seu primeiro amor, Krystal, voltou. Quando ela foi diagnosticada com uma doença sanguínea rara, Caio me arrastou para o hospital e exigiu que eu doasse minha medula óssea para ela.

Meus médicos o avisaram que, com minha saúde em frangalhos, outra grande cirurgia seria uma sentença de morte. Ele me chamou de egoísta e me forçou a ir para a mesa de operação.

Enquanto as portas se fechavam, eu vi Krystal, que deveria estar morrendo, sentar-se em sua cama. Um sorriso perverso e triunfante se espalhou por seu rosto.

Através do vidro, ela articulou as palavras.

"Eu não tenho nenhuma doença no sangue, sua imbecil."

Uma enfermeira cravou uma agulha grossa na minha coluna. Eles estavam drenando minha vida para satisfazer uma mentirosa, tudo sob as ordens do meu marido. Eu morri naquela mesa, meu último pensamento sendo uma prece para que eu nunca mais o visse.

Mas quando abri os olhos, não estava no céu. Estava em uma clínica particular, e meu amigo de infância há muito perdido, Elias, estava de pé ao meu lado.

Ele me olhou, seus olhos queimando com um fogo protetor.

"Eu forjei sua morte, Eva", ele disse, sua voz fria de raiva. "Agora, vamos fazê-los pagar."

Capítulo 1

Hoje é nosso terceiro aniversário de casamento. É também o dia em que Krystal Palmer, o primeiro amor do meu marido, voltou.

Ela parou na minha porta, usando um vestido que custava mais que meu primeiro Celta, e deslizou um cheque em branco sobre a mesa.

"Diga o seu preço, Eva."

Sua voz era suave, confiante.

"Eu quero que você desapareça da vida do Caio."

Eu olhei para o cheque, depois para ela. Não senti nada. O choque e a dor haviam sido queimados de mim há muito tempo.

Ela sorriu, um sorriso afiado e cruel. "Você tem uma semana para assinar os papéis do divórcio e ir embora. Não torne isso mais difícil do que precisa ser."

Eu apenas assenti.

"Boa menina", ela disse, e saiu.

Fiquei sentada ali no silêncio, o cheque um retângulo branco e gritante na madeira barata da minha mesa de jantar. Por que eu pensei que este casamento seria algo mais do que uma transação? Uma dívida paga com meu corpo e minha vida.

Eu já sabia como essa história terminava. Eu sabia há três anos.

A memória estava sempre lá, esperando nos momentos de silêncio. Era a noite da festa de recuperação do Caio. Ele havia sobrevivido, graças ao meu rim. A mansão da família Rothmann estava cheia da elite de São Paulo, o champanhe correndo solto.

Eu não fazia parte da celebração. Estava nas sombras do corredor, meu corpo ainda fraco, ouvindo. Ouvindo meu novo marido e sua avó, Dona Doralice Rothmann, na biblioteca.

"Você não pode estar falando sério, Caio", a voz de Doralice era como gelo. "Krystal te abandonou quando você estava no seu leito de morte. Ela fugiu para a Europa com aquele jogador de polo. Eva foi quem ficou. Eva te deu um pedaço literal de si mesma para te salvar."

"Eu sei o que a Eva fez", a voz de Caio estava tensa. "Sou grato."

"Grato? Você deve sua vida a ela!"

"Mas não é a mesma coisa, vovó. Krystal... quando ela chora, eu não consigo... Eu ainda a amo."

As palavras me atingiram com mais força do que qualquer golpe físico. Apoiei-me na parede, minha mão cobrindo a boca para abafar o som.

"E a Eva?", Doralice pressionou, sua voz afiada de incredulidade. "O que ela é para você? Sua esposa?"

Houve uma longa pausa. Prendi a respiração, rezando por uma resposta que não me quebrasse.

"O que eu sinto pela Eva", disse Caio, sua voz baixa, mas clara, "é gratidão. Não é amor."

Gratidão. Não amor.

A memória se desvaneceu, me deixando de volta no meu pequeno e solitário apartamento, aquele que Caio alugou para mim a poucas quadras da mansão Rothmann. Era mais conveniente assim. Ele não precisava ver a lembrança viva de sua dívida todos os dias.

Meu celular vibrou. Uma mensagem de Krystal. Era uma foto. Ela, enrolada nos lençóis da cama de Caio, um sorriso triunfante no rosto. A data e hora eram da noite passada. Véspera do nosso aniversário.

Uma única lágrima escorreu pela minha bochecha, quente e úmida. Depois outra. Eu não conseguia pará-las. Meu corpo tremia com soluços silenciosos.

Eu era uma garota de um bairro operário da Mooca. Ele era o herdeiro de um império financeiro de São Paulo. Nós nunca deveríamos ter nos conhecido. Mas quando eu era uma criança assustada e solitária em um orfanato, um menino de olhos gentis me deu sua barra de chocolate e me disse para não chorar. Aquele menino era Caio. Eu o amei desde aquele momento.

Anos depois, quando soube que ele estava morrendo de insuficiência renal, não hesitei. Eu era compatível. Dei a ele meu rim e, com ele, minha saúde. Desenvolvi uma grave condição cardíaca devido ao esforço de viver com um único rim, um segredo que guardei para mim.

Ele me pediu em casamento em sua cama de hospital após a cirurgia. Não houve anel, nem romance. Apenas um silencioso: "Case-se comigo, Eva. É a única forma de eu poder te pagar."

Eu me iludi pensando que sua gratidão um dia se transformaria em amor. Acreditei que meu sacrifício significaria algo.

Eu fui uma tola.

A dor no meu peito era aguda agora, uma agonia familiar. Agarrei meu coração, minha respiração saindo em arquejos irregulares.

Meu celular tocou. Era Caio.

"Você viu, Eva?", sua voz era alegre, distante.

"Vi o quê?", sussurrei.

"Olhe pela sua janela."

Arrastei-me até a janela. No céu acima de São Paulo, uma frota de drones estava escrevendo uma mensagem com nuvens de pétalas de rosas vermelhas.

EU TE AMO EVA.

Estava nos noticiários, um espetáculo grandioso e público de um amor que não existia.

"Você gostou?", ele perguntou, esperando elogios.

Meu último pingo de esperança vacilou. "Caio", implorei, minha voz falhando. "Por favor, só venha para casa."

"Não posso agora, meu bem. Estou em uma reunião."

Então ouvi a voz dela ao fundo, uma risada leve e musical. Krystal.

"Falo com você mais tarde", ele disse rapidamente, e a linha ficou muda.

Foi isso. O corte final. O mundo escureceu nas bordas. A dor no meu peito explodiu, e eu caí no chão.

Meu coração. Estava desistindo.

Rastejei até minha bolsa, meus dedos desajeitados procurando o pequeno frasco de pílulas. As palavras do médico ecoaram em minha cabeça da minha última visita.

"Seu coração não aguenta o estresse, Eva. Seu rim restante está falhando. Você tem talvez seis meses. Um ano, se tiver sorte e evitar todo o estresse."

Estresse. Minha vida não era nada além de estresse.

Engoli as pílulas a seco, o gosto amargo um reflexo da minha vida. Tinha acabado. Tudo. A esperança, a dor, o amor.

Meus dedos, tremendo, digitaram uma última mensagem. Não para Caio. Para Krystal.

Pode ficar com ele.

Então, adicionei uma última e desesperada condição. Uma última barganha pela vida que eu havia jogado fora.

Só me deixe morrer em paz.

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