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Capa do romance CIDADE CINZA

CIDADE CINZA

Enrico Giordano desfrutava de sucesso e esperava seu primeiro filho em São Paulo, até que uma tragédia em uma noite chuvosa o tornou um homem frio e amargo. Enquanto ele vive isolado em sua dor, Madalena Ferrão chega à capital fugindo de um passado difícil, carregando apenas um violão e poucos pertences. O destino une essas duas almas feridas quando ela aceita um emprego desafiador. Juntos, eles descobrem que a dor compartilhada pode ser o início de uma cura mútua.
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Capítulo 2

Eu nunca tinha pensado muito em como a solidão podia doer, digo, doer dentro de si ao ponto de parecer ser físico.

Sentada na escada da varanda do velho casebre naquele meio do nada enquanto levava uma xícara de café amargo e fumegante a boca, observando o fim da madrugada ainda escura por sob a imensidão de floresta que me rodeava começava a perder minha fé indo infelizmente para a turma das que acreditava ser só mais uma das milhões de pessoas esquecidas por Deus.

Estava sozinha no mundo. Literalmente falando. Não tinha conhecimento de mais nenhum parente vivo, meus avós pais de minha mãe que era filha única haviam morrido ainda na minha infância, os pais do meu pai que também não possuía irmãos tinham falecido enquanto ele ainda era adolescente. Há quatro anos tinha perdido minha mãe após ela adquirir febre amarela, e hoje completava o sétimo dia de falecimento de meu pai que morrera de um infarto fulminante.

Eu não tinha mais nenhuma expectativa, poderia morrer ali naquele segundo, não me importava. Uma pena era ter sido criada religiosa demais. O medo de ser condenada ao inferno me acovardava e me impedia de cometer besteira de tirar a minha própria vida.

Pensar que tudo poderia ser diferente se o lugar onde nasci fosse ao menos registrado no mapa como uma cidade de verdade me fazia sentir angustia e ódio. Mas o pequeno povoado de Alvora da das Almas era uma pacata vila rural ainda comandada pelo coronelismo.

A história do lugar dizia que um pequeno grupo de famílias construíram suas casas quando se descobriu que ali a terra era sadia e fértil para qualquer que fosse o plantio. Nisso, o pequeno vilarejo se formou e ganhou fama aos arredores, ousando dizer que muitas pessoas vinham até da capital Campo Grande para cá aproveitando não somente a terra, o lugar lindíssimo e encantador meio ao coração do Pantanal chamava também curiosos turistas.

Quando construída a primeira igreja o povoado foi batizado pelo nome de Alvorada. Mas um tempo depois o primeiro diabo em forma humana botou os pés por ali.

O primeiro dos Rodrigues chamava Sênior, e ele ainda era lembrado pelos mais antigos ainda vivos.

O desgraçado tinha comprado uma fazenda e mudado com a mulher e os filhos, era incrivelmente mal e temido, tomou para si todas e quaisquer terras (que não eram poucas) de toda a região, e fez tudo a base da violência e ameaça, tocou o terror e o medo nas pessoas as obrigando a seguir o que ele mandasse e tivesse desejo.

Devido a toda matança da época incluindo o primeiro padre que chegara ali, mudou-se assim o nome para Alvorada das Almas, nome este que os Rodrigues encararam como um troféu.

O império dos Rodrigues ainda se mantinha mesmo depois de todos aqueles anos, todas as pessoas na cidade ainda dependiam deles para sobreviverem, já que eram proprietários de tudo por ali.

O agora matriarca já se tratava do tataraneto de Sênior, mas Joaquim Rodrigues era conhecido por ser tão cruel como o tataravô.

Com o passar dos anos trocaram as plantações por agropecuária e não demorou muito para ficarem conhecidos nacionalmente como realeza do gado, milhares de pessoas viajavam até ali para os leilões dos quais Joaquim se aproveitando por ser também prefeito promovia com o dinheiro alheio.

E era para este homem que agora eu devia uma fortuna.

Antes de morrer meu pai havia teimado e insistido que devíamos mudar, com o seu espirito sonhador sempre me incentivou a terminar os estudos, e como em Alvorada só oferecia até médio completo para fazer uma faculdade teria que sair dali coisa que poucos conseguiam, meu pai tinha enfiado na cabeça mesmo depois de três anos que eu já havia terminado a escola de que deveríamos tentar.

Então cerca de seis meses atrás ele tinha pego uma quantia não muito alta, mas que sem dúvidas não poderíamos pagar com Joaquim, tínhamos nos mudado para a cidade vizinha chamada Vila do Sol onde ele investiu comprando uma pensão velha que ele insistia em chamar por pousada.

Eu tinha desde o início um pressentimento de que tudo era uma péssima ideia. Vila do Sol era um pouco maior que Alvorada das Almas e recebia uma quantidade maior de turistas que se aventuravam pelo Pantanal, mas o número não era tão grande quanto papai pensava. A pensão não tinha gerado tanto lucro e cerca de um mês atrás depois de deixar de pagar dois meses para Joaquim, havíamos voltado a morar no casebre em que cresci.

Com toda a pressão e se vendo encurralado, meu pai começou a viver triste pelos cantos, ressabiado cheio de medo pelo o que o futuro nos guardava, tinha o pego chorando uma porção de vezes e em todas ele me pedia perdão por ter nos colocado naquela situação sem saída. E foi depois de um dos seus choros que ele saiu sozinho e eu o encontrei caído já morto.

Chorando sozinha pela perca eu fui obrigada a andar alguns quilômetros a pé embaixo de um temporal pela estrada de terra até chegar à casa do vizinho mais próximo precisava da ajuda de alguém, já que éramos tão pobres que não poderíamos pagar sequer um velório, teria de ser enterrado no quintal de casa, como acontecia com quase todos condenados que moravam ali.

Seu Francisco, o dono da mercearia e o mais próximo que meu pai pôde chamar de amigo foi quem furou a cova no fundo do casebre para que enterrássemos, pertinho do riacho, onde ele gostava de terminar suas tardes sentado sobre um pedaço de tronco de arvore, dedilhando seu velho violão.

Os barulhos de pisadas nas folhas despertaram-me dos pensamentos, crescido meio a selva eu tinha aprendido a distinguir barulhos de animais para humanos. Levantei rápido e entrei na casa iluminada apenas por uma lamparina em cima da mesa perto do fogão a lenha, abri a pequena gaveta do armário velho pegando o revólver antigo do meu pai. Eu tinha sido ensinada a atirar desde criança, e me agarrando nessa ideia eu sabia que fosse quem fosse chegando ali eu me defenderia, poderia até morrer mas levaria alguém comigo.

— Lena? A voz de Vicente soou na entrada e logo eu coração se acalmou.

— Vicente! Corri para seu encontro o abraçando com medo. Ele subiu meu rosto segurando-o entre as mãos e colou nossas bocas.

— Desculpe não vir antes, estava tentando acalmar as coisas, me perdoe por não vir te ajudar com o corpo do seu pai.

— Vicente, ele vai me matar, não vai?

Os olhos dele escureceram ainda mais quando ele travou a mandíbula e sussurrou. — Parece que ele pretende algo ainda pior, Leninha.

— O que seria pior que ele me matar?

— Ao que consegui ouvir e entender, Joaquim quer que você se torne mulher dele.

— O que? — Arregalei os olhos sentindo minhas pernas fraquejarem e meu estômago se embrulhar. — Me mate! Por favor, Vicente, faça isso por mim, me mate. Implorei sentindo minhas lágrimas caírem.

— Está louca, Madalena? — Vicente me segurou pelos ombros enquanto me encarava. — Você sabe muito bem o motivo pelo qual eu trabalho aqui e porque consegui conquistar a segurança de Joaquim.

— Por vingança, eu sei. — Choro baixinho.

— Exatamente. — Seus dedos longos subiram para meu pescoço. — Estou aqui há anos para conseguir a confiança daquele verme para conseguir matá-lo e ficar com tudo que é dele, Lena, vou vingar todos que os malditos Rodrigues fizeram sofrer, seu pai, meus pais...

— Eu sei disso, mas eu não sou como você Vicente. Não suportaria ter que me deitar com ele, eu prefiro a morte.

— Eu nunca a mataria, Leninha. Mas também nunca faria você se sujeitar a isso. Fui o seu primeiro e único homem, nem sequer quero imaginar você sendo tocada por aquele maldito, nunca deixaria que nada de mal a acontecesse a você. É por isso que estou aqui, para te ajudar a ir embora.

— Embora? Engulo seco sentindo o arrepio de medo subir minha espinha.

— Não existe outra saída, meu bem. Se você fica, todo o meu plano cai por terra, eu não suportaria vê-lo te obrigar a nada, e o mataria antes da hora.

— E eu vou para onde? Não tenho onde ir, não tenho dinheiro nenhum, Vicente.

— Eu cuidei do dinheiro. — Diz remexendo no bolso do jeans e retirando um envelope pardo. — Tem cinco mil reais aqui, é o suficiente para que você consiga ir para longe, e se instale por um tempo, você é inteligente Leninha, consiga um trabalho e se mantenha, e então quando tudo acabar eu vou encontrar você.

— Aonde devo ir? Como você vai me achar?

— Pense em algum lugar que queira ir, Madalena. Longe o bastante daqui, Joaquim mandará te procurar nas cidades próximas, por isso nem desça do ônibus nas paradas, ok? Alguém pode te ver e dar a informação.

— Ok.

— E não se preocupe sobre te achar, vou fazer Alvorada de as Almas ser conhecida, e quando o fizer você vai saber que pode voltar para casa, e eu vou estar te esperando.

— Estou com medo.

— Vai ficar tudo bem. Eu sei que você é forte. Vamos, você precisa correr, vou te levar até Vila do Sol para o primeiro ônibus que sai às seis para Campo Grande, de lá você decide onde ir. É o tempo certo que Joaquim demorará para vir até aqui e colocar homens para te procurar.

— Será que ele não via desconfiar de você?

— Não, ele acha que estou no prostíbulo em Vila do Sol, que só voltarei hoje no início da manhã, armei isso para o caso de alguém ver minha caminhonete voltando de lá.

— Porque não ouvi o barulho dela?

— Parei longe, não podia deixar rastros na terra, por isso devemos nos apressar, Joaquim precisa pensar que você está por perto, assim ganha tempo.

Apavorada, mas sem perder mais nenhum segundo, corri pelo pequeno chalé agarrando a mochila velha e colocando meus três melhores pares de roupas, algumas blusas de frio e a única foto da minha família. Peguei o violão, calcei minhas botas e voltei para cozinha encontrando Vicente ainda de pé inquieto.

— Pronta? Perguntou e eu acenei com a cabeça. Ele agarrou minhas coisas com uma mão e com a outra entrelaçou com a minha enquanto saíamos juntos para nos embrenhar na mata afim de não deixar rastros.

Olhei uma última vez para a casa que eu tinha nascido, crescido e vivido por todos os vinte e um anos de vida. Não tinha sequer tido tempo de o fechar, ficara lá, com a porta de madeira escancarada, a lamparina acesa sobre a mesa, a lenha ainda aquecendo o fogão com o bule e minha caneca de café inacabada. Sem segurar todo o choque que atravessava meu corpo, guardei essa lembrança comigo e corri entre as árvores com Vicente até encontrarmos sua picape.

Vicente dirigiu o mais rápido que pôde pelo atalho de estrada de terra que ele conhecia e que nos levaria até Vila do Sol. Por ser um dos capangas de confiança de Joaquim, era autorizado a andar em uma 4x4 de última geração, o que nos permitiu uma fuga rápida. Assim que chegamos a cidade vizinha o céu estava clareando, e o ônibus que iria para Campo Grande já estava na plataforma, saíam exatos dois ônibus para a capital, um a seis da manhã e outro a seis da tarde, Vicente tinha calculado o tempo certo.

Pegou no banco de trás a mochila e o violão, me entregando, tirou mais uma vez o envelope do bolso e dessa vez me deu orientando a tomar cuidado. Depois que tirei uma nota de cinquenta colocando no bolso, guardei o envelope enrolado na minha roupa do fundo da mochila.

Olhei Vicente suspirando alto tentando mais uma vez não cair no choro quando ele acariciou minha bochecha e deu um pequeno sorriso antes de sussurrar:

— Vá menina.

— Obrigada por isso. — Agradeci o abraçando. — Amo você, Vicente.

— Seja feliz, Leninha. — Ele respondeu e se curvou abrindo a porta da caminhonete. — Não se esqueça de ir para o mais longe que puder.

Concordei com a cabeça enquanto saltava do carro ajeitando a mochila e o violão nas mãos. — Espero que consiga se vingar. — Mordi os lábios. — Adeus, Vicente. Me despedi fechando a porta e sai correndo para minha liberdade.

A viagem até Campo Grande era cansativa, o ônibus já havia parado umas quatro vezes, mas apesar de estar com fome eu me recusei a descer me lembrando das palavras de Vicente sobre o fato de que Joaquim mandaria me procurar pela região.

Olhei pela janela vendo o movimento de pessoas entrando e saindo da lanchonete, fechei os olhos e meus pensamentos voltaram para o dia que conheci o homem que tinha salvado minha vida. Vicente Albuquerque.

Tinha o visto pela primeira vez no meu aniversário de dezenove anos, estava sozinha nadando e ele apareceu.

Naquela tarde nós conversamos muito, eu sentia todo o mistério que o rondava, sua aura pesada e suas palavras sempre calculadas quando contou que tinha vindo de um lugar distante.

Vicente era um homem lindo, alto, forte, com a pele negra e com um sorriso encantador, mas esse quase nunca aparecia, sua feição fechada era assustadora e ele quase sempre estava com ela.

Quando eu o avisei sobre os Rodrigues estranhei ouvindo ele contar que tinha vindo para Alvorada para justamente trabalhar para Joaquim. Só entendi o motivo depois, em uma das muitas tardes que me encontrara para nadar, ele confessou que tinha vindo a Alvorada para buscar vingança.

Contou que tinha nascido ali, e ainda na infância tinha tido a casa invadida, a mãe o colocara no armário de madeira da cozinha e ordenado que não chorasse, segurasse a respiração para evitar barulho e só saísse dali quando os homens maus fossem embora. Obediente ele tinha visto a mãe ser estuprada por Joaquim e depois ser morta enquanto o pai era torturado também até a morte.

Ele lembrava de que o pai devia dinheiro aos Rodrigues, e naquela maldita noite eles tinham ido cobrar, como faziam com todos que não podiam lhes pagar, cobraram levando a vida. Após ver o assassinato dos pais tão de perto, jurou a si mesmo que se vingaria. Iria se vingar pelos pais e por todos aqueles que já tivera o sague derramado por aqueles malditos.

Tinha vagado pela estrada, passou fome e pegou caronas para se afastar cada vez mais de Alvorada, até que foi acolhido na cidade Miranda, onde tinha passado toda a vida arquitetando a hora certa para voltar, e agora com seus vinte e cinco anos tinha retornado, usando de uma falsa fama de pistoleiro para ganhar a confiança e se tornar o braço direito de Joaquim.

Meu romance com Vicente começou sem a menor das intenções, éramos amigos, passávamos algumas tardes juntos, nadando e sendo confidentes um do outro, eu contando sonhos que provavelmente nunca se realizariam enquanto ele sorria e sempre afirmava: “se você quer mesmo, Leninha, vai sim acontecer. ”

Eu sempre envergonhada pelo meu corpo gordinho sempre tinha me sentido feia sobre os olhos masculinos, me vi transformar e ganhar liberdade com ele que me olhava com admiração e não se fazia de rogado em me elogiar aumentando cada vez mais minha autoestima. Numa das nossas tardes, depois que elogiou em como eu era bonita sobre o sol se aproximou perguntando se eu já tinha sido beijada.

Naquela tarde eu ganhei o meu primeiro beijo, e foi maravilhoso. E todos os outros também. Duas semanas depois eu tinha entregue a ele minha virgindade. E também tinha sido incrível.

Vivíamos um romance escondido de todos e ardente entre nós, devido seu cargo de confiança aumentar a cada dia, tínhamos acabando por diminuir nossos encontros a tarde no rio e transferindo-os para uma ou duas vezes durante a semana quando ele pulava a baixa janela do meu quarto no meio da noite, encontros esses que se mantiveram mesmo quando tive a mudança rápida e frustrada para Vila do Sol.

Tínhamos vivido três anos assim e agora nos separávamos bruscamente, talvez nunca mais nos víssemos, e apesar de em todo o tempo em que estivemos juntos eu não ter escutado dele que me amava em palavras, mesmo ele gostando quando eu o dizia, o que ele tinha feito por mim nessa manhã provava que independente de palavras ele me amava. Estava arriscando sua vingança e sua vida para me salvar, e eu seria eternamente grata. Vicente me dera a liberdade e pedira que eu fosse feliz, e eu lutaria com unhas e dentes para ser.

Quando o ônibus chegou a Campo Grande no início da tarde, desci e esperei pacientemente para que meu violão aparecesse dentre as tantas malas dos outros passageiros.

Fui ao banheiro e dentro da cabine arranquei o envelope de dinheiro, retirei três notas de cem reais do bolo e resolvi esconder o envelope dentro da calça, não podia correr o risco de ser roubada. Fora do banheiro andei pela rodoviária e me sentei numa lanchonete antes de me decidir para onde finalmente seria meu destino. Comi um pão na chapa e alimentei meu vício em café forte sem açúcar, comprei uma garrafinha de água e andei para os guichês de venda de passagens.

Estava parada frente ao mapa do Brasil pregado na parede analisando possíveis lugares quando uma voz feminina atrás de mim comentou com alguém.

— São Paulo é um outro mundo, Nando. Você vai descobrir quando chegar lá.

Não precisei olhar para trás para observar a mulher que falava, lembrei-me das incontáveis vezes que minha mãe repetia o desejo de um dia conhecer. Sem mais dúvidas, sabendo que era longe e grande o bastante, indo realizar o sonho que minha mãe já não poderia mais, andei para o guichê e olhei o senhor simpático pelo vidro.

— E então, o que vai ser menina? Ele perguntou ajeitando os óculos de grau.

— Uma passagem para São Paulo. Falei firme e com fé. Assim como o tal Nando, eu rezei em silêncio para também conhecer outro mundo.

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