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Capa do romance CIDADE CINZA

CIDADE CINZA

Enrico Giordano desfrutava de sucesso e esperava seu primeiro filho em São Paulo, até que uma tragédia em uma noite chuvosa o tornou um homem frio e amargo. Enquanto ele vive isolado em sua dor, Madalena Ferrão chega à capital fugindo de um passado difícil, carregando apenas um violão e poucos pertences. O destino une essas duas almas feridas quando ela aceita um emprego desafiador. Juntos, eles descobrem que a dor compartilhada pode ser o início de uma cura mútua.
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Capítulo 3

A viagem para São Paulo tinha sido mais tranquila, talvez por eu finalmente poder relaxar um pouco do medo de ser encontrada que me assombrara em toda viagem até Campo Grande. Tudo que agora eu temia era estar em lugar desconhecido e com um dinheiro que alguma hora acabaria. Teria que conseguir um emprego o mais rápido possível, e levando em conta que meus estudos se baseavam apenas no fim do ensino médio, me faziam temer arrumar algo com muita facilidade.

Mas não deixaria que isso me abalasse, teria que correr atrás e medo de serviço eu nunca tive, iria procurar algo honesto que me sustentasse, após me estabilizar poderia pensar em voltar a estudar talvez.

Olhei pela janela, a rodovia escura passava depressa, mais uma vez meu coração vagou pensando em Vicente. Ele tinha conseguido dobrar o maldito Rodrigues? Algum dia ele conseguiria a tão esperada vingança?

Fechei meus olhos desejando que o melhor destino para minha vida e para a dele fosse traçado naquele momento. O sono me invadiu logo assim que terminei minha prece, me permiti descansar como não vinha fazendo desde o falecimento do meu pai. Só voltei a acordar novamente quando o ônibus fez uma curva e parou. Acordei atônita descobrindo que tínhamos encostado em um ponto de parada. Me espreguicei limpando os olhos e bebi um pouco de água.

— Será que ainda vai demorar muito? Indaguei para a senhora que estava viajando na fileira do meu lado, por sorte o ônibus não estava lotado, nos dando a possibilidade de ocupar duas poltronas.

— Parece que mais duas, chegaremos logo depois do almoço. — Levou as mãos aos cabelos pintados de castanho. — Você vai comer agora?

— Estou bem, obrigada. Agradeci lhe oferecendo um sorriso.

— Não quer que eu te traga algo?

— Não senhora, estou mesmo bem.

— Certo, pode vigiar está sacola então? Apontou para o seu banco.

— Olho sim. Concordei e ela saiu pelo corredor até a porta.

Voltei a me distrair pensando na primeira coisa que eu faria quando chegasse, teria de encontrar um lugar para ficar e veria com as pessoas sobre empregos, amanhã de manhã procuraria alguns? Teria de comprar também algumas roupas. Puxei os punhos do meu agasalho já desgastado e velho.

Passados alguns minutos a senhora retornou trazendo nas mãos um pacote de biscoito e uma garrafa de água e me ofereceu carinhosa enquanto se sentava na poltrona ao meu lado e o restante dos passageiros que haviam descido terminavam de se acomodar para que seguíssemos viagem.

— Para você. Me entregou.

— Não precisava.

— Você não desceu em nenhuma parada, eu fiquei preocupada. — Ela sorriu gentil. — Como se chama?

— Madalena, e a senhora? Respondi aceitando seu agrado.

— É um prazer, Madalena, eu me chamo Rosa. E então, o que está indo fazer em São Paulo?

— Estou indo morar.

— É mesmo? Minha filha mora lá, estou indo visitar ela e meus netos, ela está meio tristinha, o casamento não vai muito bem.

— Que pena.

— Pois é. — Concordou como se falasse em convencimento para si mesma. — Você é corajosa, está indo sozinha... está deixando seus pais? Parece tão jovem, você mora em Campo Grande?

— Tenho vinte e um, meus pais já são falecidos.

— Oh. — Balança a cabeça como se agora entendesse. — Eu sinto muito por você, menina... São Paulo parece assustador para você?

— Um pouco, mas acho que aguento. Dou-lhe um sorriso sincero.

— Já tem emprego?

— Não, mas pretendo procurar por um assim que chegar.

— E que tipo de emprego você quer? Especulou.

— Não precisa ser muito, só preciso de algo honesto que me sustente, não tenho faculdade para algo muito bom. Confessei e ela me olhou admirada quando tocou minha mão com a sua e apertou sorrindo cravando seus olhos nos meus.

— Deus vai te abençoar! Você acredita, Madalena?

Um arrepio subiu por minha espinha no mesmo momento que meus olhos se encheram de lágrimas. — Acredito.

— Então tudo já está feito, pequeno anjo. — Sorriu de novo dando algumas batidinhas em minha mão. — Tudo vai se encaixar.

— Obrigada por isso, Dona Rosa.

— Não agradeça. Suponho que também não tem onde ficar?

— Não, vou procurar uma pensão, um hotel, eu sei lá.

— Deve ter alguma perto da casa de Aline... Aline é a minha filha. Ela vai saber nos informar.

Nas próximas horas que passaram, Dona Rosa me contou inúmeras histórias de sua vida, na última parada ela sequer fez menção de descer, ficamos as duas lá como boas e velhas conhecidas conversando. Perto das uma da tarde adentramos a cidade que seria meu novo lar. Minha primeira impressão de São Paulo foi: barulhenta, eu que estava acostumada com tanto silêncio e verde ao meu redor fiquei até perplexa quando só vi grandes arranha-céus e milhares de pessoas nas ruas indo e vindo. Minha vista pela janela não era o bastante, mas observei o céu cinza e automaticamente meu coração se apertou.

— Fique tranquila, Madalena. Dona Rosa tentou me tranquilizar percebendo meu desconforto.

— Estou pronta para uma nova vida. Falei corajosa. Era impossível aquela cidade conseguir ser pior do que eu enfrentaria se tivesse ficado em Alvorada Das Almas.

Quando descemos na rodoviária, Dona Rosa ficou ao meu lado enquanto eu esperava mais uma vez o violão que era do meu pai aparecer no bagageiro.

— Você toca?

— Não muito... era do meu pai.

Ela apenas concordou com a cabeça enquanto seguimos rumo a uma banca de jornais, ela agarrou um deles e pagou por ele. Depois remexeu nas folhas e me entregou:

— Dê uma olhada nos classificados, pode ser que ache algum emprego que te interesse, vou ligar para Aline vir nos buscar. Avisou enquanto sacava seu telefone da bolsa e eu começava a vaguear os olhos pelas folhas cheias de anúncios.

Como um imã meus olhos pousaram no lado esquerdo do final da página.

Precisa-se de Cuidadora

Exigências: Disponibilidade de morar no trabalho.

Salário a combinar.

Tel. (11) xxx-xx-xxx

— E então? A voz de Dona Rosa me chamou a atenção quando voltou com um sorriso acolhedor no rosto.

— Olha só esse. — Apontei a folha. — Parece que não exige escolaridade, seria uma boa, não?

— Claro, e provável que seja uma pessoa idosa.

— Eu iria adorar. Respondi esperançosa.

— Ligue já para o número.

— Não tenho como, não tenho um celular, onde tem um telefone público?

— Largue de besteira. — Ela estendeu o celular. — Use o meu, vamos.

— Sério? A senhora pode ligar? Eu não sei mexer em um celular.

Dona Rosa franziu a testa um pouco surpresa. — Não sabe? Nunca teve um aparelho celular?

— Não.

— Menina, algo me diz que a sua vida foi mais amarga do que você deixa transparecer. Sussurrou enquanto discava ela mesma os dígitos.

Coloquei o aparelho na orelha e ouvi a chamada por três vezes antes de uma voz doce atender:

— Olá.

— Oi, boa tarde. — Me antecipei sendo educada. — Tudo bem?

— Boa tarde, quem fala?

— Madalena... bem, eu estou ligando porque acabei de ver um anúncio sobre uma vaga...

— De cuidadora! Sim! — Ouvi seu suspiro. — Quantos anos tem Madalena?

— Vinte e um. Falei já um pouco desanimada.

— Vinte e um? — Seu tom de voz mudou aumentando a altura. — E me diga, Madalena, por que quer ser cuidadora? Você poderá morar no emprego?

Encarei Dona Rosa que me olhava em expectativas e respondi apreensiva: — Bem, sim, a verdade é que ainda estou na rodoviária, senhora. — Decido por contar a verdade. — Acabo de chegar em São Paulo para morar, e seria uma grande oportunidade.

— Madalena... — A voz do outro lado pareceu sorrir. — Você pode vir até mim, agora? Quero conhecê-la.

— Agora?

— Sim, para fazermos a entrevista.

— Ah, claro. — Me passe o endereço que estarei a caminho agora mesmo. Pedi e a mulher que sequer tinha me dito seu nome me passou um endereço de um condomínio fechado no Alphaville. Quando desliguei dona Rosa me olhou animada.

— E aí, conseguiu?

— Ela quer que eu vá agora fazer a entrevista!

— Eu sabia! — Ela me abraçou. — Pode ficar tranquila que vai dar certo, eu estou sentindo, minha Santa Rita não falha!

— Tomara, dona Rosa! Fecho os olhos fazendo mais uma de minhas preces silenciosas.

— Aline e eu podemos te levar, vamos, ela já deve estar chegando.

— Não é muito incômodo? Posso pegar um taxi.

— Imagina! Você aproveita e conhece a minha filha, tenho certeza que vão se tornar amigas. Entrelaçou seu braço no meu enquanto começávamos a andar para fora da rodoviária movimentadíssima.

Meia hora mais tarde estávamos dentro do carro a caminho para minha entrevista. Dona Rosa não havia mentido quando descarregava elogios a filha. Aline era uma mulher adorável, aparentemente tinha quase trinta anos, e também era uma mulher de curvas, assim como eu, sua pele era maravilhosamente perfeita, morena cor de canela, os olhos enormes como os de dona Rosa chamavam atenção e os cabelos encaracolados eram curtos e estiloso, ela tinha me tratado como se também me conhecesse há anos, me convidou para apresentar a cidade, e que me levaria para comprar roupas, mas que antes de me acompanhar fazia questão de me dar algumas roupas de sua confecção. Quando tivemos a entrada autorizada no condomínio eu me assustei com o tamanho das casas dali, pareciam sedes de fazenda de tão grandes, elegantes e graciosas.

Aline assoviou assim estacionou na porta da mansão que era a do endereço que eu tinha recebido por telefone. — Mandou bem, garota, seja quem for quem você vai cuidar o quarto de empregadas daqui não pode ser dos piores.

— Estou nervosa, gente, tomara que eu consiga. Remexi minhas mãos nervosa.

— É claro que consegue! Já tem o meu número e o da minha anotados, não é? Não se faça de rogada em nos ligar, se conseguir para que comemoremos, se não der certo, eu posso dar um jeito de te encaixar na confecção. Além do quê, temos que ir as compras, e você tem que conhecer os meus filhos.

— Pode deixar. Não sei o que faria se não tivesse conhecido a senhora dona Rosa. A abracei desajeitada ainda dentro do carro e sorri para Aline que retribuiu com um encorajamento.

— Você vai ser feliz, Madalena. Ela segurou minhas mãos pela janela. Me olhando como se enxergasse mesmo minha alma.

Assim espero. Penso enquanto aceno para elas antes de me virar e começar a andar até a entrada.

O jardim de entrada era magnífico e a porta da entrada era tão grande que eu cheguei a ficar assustada, daria para passar umas três pessoas de uma vez, e alguém em pernas de pau não precisaria descer para adentrar a casa. Com todos aqueles botões que eu presumi ser a campainha eu optei por bater na porta. Era melhor evitar chegar estragando alguma coisa.

Uma mulher já de meia idade abriu a porta e me encarou de cima a baixo antes de questionar:

— Pois não?

— Boa tarde, me chamo Madalena, vim para...

— Madalena, que bom que chegou! Escuto a mesma voz doce que falara comigo ao telefone. A senhora a porta se afasta e oferece passagem para que eu passe, me sentindo ainda impactada. Eu nunca tinha entrado em um local tão branco e limpo. A casa era maravilhosa.

— Senhora Giordano. A funcionaria fez uma pequena menção ficando de lado como um soldado. Encarei a mulher a minha frente, ela usava um vestido elegante rosa clarinho, os cabelos castanhos bem penteados e o rosto apesar de não ser muito jovem era muito bonito. Seus olhos eram tão verdes que chegava a me assustar. Ela era muito rica?

— Eu estava ansiosa para ver você. — Ela sorriu abertamente. — Pelo telefone eu senti que sua voz era de uma bela menina... e eu tinha razão. Falou me abraçando e em surpresa eu me senti corar ficando um pouco desconfortável.

— Obrigada. Respondi sem saber muito o que dizer.

— É um prazer. — Sorriu de novo me parecendo muito sincera. — Sou Luísa, venha sente-se aqui. — Me arrastou para um sofá branquíssimo. — Aceita água, um café?

— Aceito água, por favor.

— Vera, traga água para a moça por favor. — Ela pediu educadamente e eu percebi que talvez ela não exigia que a empregada parecesse um militar. — Segurou minhas mãos que estavam geladas nas suas que eram quentes. — Você é tão jovem... só tem essa mochila?

— Eu não tenho muitas roupas. Falo envergonhada e ela apenas concorda com a cabeça.

— Sabe tocar violão? Olhou para o instrumento que eu carregava.

— Um pouco, mas não toco muito... na verdade ele era do meu pai, ele faleceu há pouco tempo.

— Sinto muito. — Ela franziu um pouco a testa. — Foi por isso que se mudou para cá?

— Sim.

— De onde você vem?

Eu contava a verdade? Não era uma boa opção, por isso não hesitei quando respondi: — De uma cidade chamada Vila do Sol, Mato Grosso do Sul.

— Parece bem longe.

— É um pouco. Dou um pequeno sorriso.

— Então é sozinha?

— Sim, senhora.

— Não precisa me tratar de senhora, Madalena. — Ela fez uma menção com a mão enquanto sorria e recebíamos os copos cheios de água. — Sabe Madalena, devo dizer que receber sua ligação foi um verdadeiro milagre, entrevistei inúmeras pessoas, mas nenhuma tinha me agradado, eu preciso de alguém jovem e disponível.

— Fico feliz, dona Luísa, eu preciso mesmo deste emprego.

— Que ótimo, querida. — Ela bateu umas palmas como se não se aguentasse de alegria. — De imediato eu devo dizer que a pessoa com quem você irá trabalhar é com meu filho.

— Seu filho? E quantos aninhos ele tem? Falei animada imaginando um menininho fofo.

Luísa soltou uma pequena gargalhada quando respondeu: — Ah, ele é um menininho barbudo de vinte seis anos.

— O quê? Meu sorriso sumiu na hora e ela riu ainda mais alto.

— Desculpe, Madalena... Enrico já é adulto, o fato é que ele sofreu um acidente de moto há pouco mais de um mês atrás, e estará de repouso absoluto pelos próximos cinco.

— Então se trata de um emprego temporário?

— Não se tudo der certo. — Ela falou alegre demais e eu a encarei sem entender nada. — Digo, Enrico não tem uma empregada fixa, você pode começar como cuidadora e depois ficar como secretária? Mas agora de início a sua função será apenas cuidar dele.

— Cuidar do tipo, lhe dar remédios e fazer a sua comida?

— Exatamente. — Dona Luísa confirmou. — Não permitir que ele faça extravagancias como vem teimando e fazendo. — Ela suspira. — Enrico perdeu a esposa há cerca de um ano atrás em um acidente aéreo, ele ainda não superou, se nega a procurar uma terapia e se enterrou no trabalho, acabou afastando de mim e do pai, não tive muito acesso a ele até ele sofrer o acidente de moto e precisar que eu o levasse comida e o ajudasse a se sentar na cadeira de rodas.

— Filhos são complicados quando se tem pais vivos, só descobrimos o quanto era fácil quando os perdemos. Falo me sentindo melancólica.

— Como seus pais faleceram?

— Minha mãe há quatro anos de febre amarela, meu pai sofreu um infarto fulminante recentemente.

Luísa mantem os olhos verdes em mim por uns segundos até dizer: — Sinto muito mesmo.

— Obrigada. A agradeço.

— E então? Está disposta?

Inquieta eu coço a cabeça pensando que ela não falou nada sobre o quanto eu receberia.

— O salário...

— Ah, onde eu estou com a cabeça. — Ela leva a mão a testa. — Eu mesmo a pagaria, será dois mil e quinhentos reais, você não terá que pagar moradia e nem a sua comida.

Dois mil e quinhentos? Caramba! Em dois meses eu teria a quantia que Vicente tinha me dado. Mesmo que eu não conseguisse o emprego fixo, dona Luísa disse que ele precisaria de alguém pelos próximos cinco meses, e eu não tendo nenhum gasto conseguiria economizar muito e conseguiria me manter até achar outro.

— Eu aceito.

— Você tem carteira de trabalho?

— Hum... não, mas posso correr atrás de tirar.

— Claro, vamos providenciar isso também. E você se importa de começar agora?

— Não senhora. Falo animada.

— Perfeito! — Ela se colocou de pé. — Então vamos, talvez peguemos um transito terrível.

Mais uma vez meu sorriso morre. — Ele não mora aqui? Arregalei os olhos.

— Ah, não... ele tem seu próprio apartamento, mas pode ficar tranquilo você terá seu próprio quarto. Piscou sorrindo e eu continuei estática.

Eu estava indo morar com um homem!

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