
Casamento Farsa, Coração Partido
Capítulo 3
A festa de Caroline estava marcada para o dia seguinte. Para mim, era o palco da minha rendição final.
Naquela manhã, enquanto Hugo se arrumava, eu o ajudei a escolher a gravata, meus dedos roçando a gola de sua camisa. A cena era tão doméstica, tão normal. A esposa ajudando o marido. Mas eu me sentia como uma atriz em uma peça que já havia perdido o sentido.
"Eu vou com você," eu disse, minha voz suave, sem emoção.
Ele parou, a gravata em suas mãos, e me olhou. Havia uma pontada de surpresa em seus olhos, e talvez, apenas talvez, um vislumbre de apreensão.
"Sério? Eu pensei que você... Não queria ir. E entendo perfeitamente, meu amor. Não precisa se forçar."
Eu sorri, um sorriso frio e sem vida. "Não, eu quero ir. É uma ocasião especial, e ela é... a mãe do seu filho. Não guardo rancor, Hugo. De verdade."
Uma sombra passou por seu rosto. Eu sabia por que. A última vez que eu e Caroline estivemos no mesmo ambiente em um evento público, os sussurros eram inevitáveis. As pessoas diziam que Caroline havia "roubado" meu noivo. Agora, eu era a esposa traída, a tola. Minha presença apenas alimentaria a fofoca.
Ele hesitou, desconfortável. Mas como ele poderia recusar? Eu estava sendo "compreensiva", "a esposa perfeita". A esposa que ele manipulou por anos.
"Bem," ele disse, finalmente, com um suspiro que parecia forçado. "Se você insiste. Mas não acho que será muito divertida. Podemos sair mais cedo, ir para um lugar mais reservado, só nós dois."
Ele estava preocupado com a felicidade dela. Com o que a minha presença, mesmo que "compreensiva", poderia causar a ela. Ele me casou para proteger ela, para dar a ela um lar, um futuro, uma família. Eu era o escudo, a fachada, a ponte.
Minha vontade de lutar havia morrido. Não havia mais nada para defender. Eu estava indo para a festa não para brigar ou confrontar, mas para dizer adeus. Para me despedir das ilusões, dos sonhos que um dia foram meus.
Eu queria abraçar meus pais, meus amigos, meu irmão, antes de desaparecer. Mas sabia que não podia. Não até que tudo estivesse terminado. Não até que as últimas amarras fossem cortadas.
A festa de Caroline era um espetáculo de opulência. O salão estava repleto de rostos conhecidos, luminárias de cristal cintilando acima de nossas cabeças. Risos e brindes ecoavam pelo ambiente. Caroline, radiante em um vestido de seda que realçava sua barriga discretamente arredondada, era o centro das atenções.
As pessoas a parabenizavam, elogiavam sua "jovem e promissora carreira", sua "família perfeita", seu "marido atencioso". Era a história que Hugo havia construído para ela, com o meu dinheiro, com a minha vida.
Meus pais estavam lá, é claro. Meus pais, que sempre a trataram como a filha que eles nunca tiveram. Eles a abraçaram, os olhos brilhando de orgulho.
"Minha querida Caroline! Parabéns pela sua entrada no concurso! Já era hora de você mostrar seu talento ao mundo!" minha mãe exclamou, a voz alta e efusiva.
"E o presente do seu admirador secreto para o bebê é lindo! Um violino Stradivarius! Que generosidade!" uma convidada comentou, seus olhos brilhando de admiração. "Você deveria tocar para nós, Caroline!"
Um murmurinho de aprovação percorreu a multidão. Caroline sorriu, uma modéstia calculada em seu rosto, e abriu a caixa de veludo vermelho que continha o violino.
Enquanto ela pegava o instrumento delicadamente, seus olhos varreram a multidão e encontraram os meus. Por um instante, o sorriso dela vacilou. Um brilho de triunfo e desprezo passou por seus olhos, antes de ela forçar um sorriso ainda mais largo.
"Amanda! Que surpresa agradável! Não esperava te ver aqui," ela disse, a voz cheia de um falso espavor. "Pensei que você... bem, que você não gostasse muito dessas coisas."
Ela olhou para Hugo, um olhar rápido e significativo. Hugo, que estava ao meu lado, tenso.
Eu não respondi. Apenas a encarei, minha expressão impassível. Meus olhos se fixaram no violino em suas mãos. Um violino Stradivarius. Tão raro, tão valioso. Aquele som...
De repente, uma memória. Um leilão de arte há alguns anos. Um violino Stradivarius. Eu o havia comprado. Para Hugo. Ele havia expressado um desejo de aprender a tocar. Eu pensei que seria um investimento, um presente para o nosso futuro, para a nossa família. Um sonho que eu queria compartilhar com ele.
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