
Casa di Giulietta
Capítulo 2
Milão foi minha primeira parada. Diferente de muitos turistas que deixaram o voo comigo, não me prendi à metrópole italiana e apressei-me a procurar a estação de trem mais próxima para prosseguir. Enquanto as pessoas buscam pelos ares fashionistas, eu só quero aspirar o ar romancista que, só de fechar os olhos e pensar, Verona me permite sentir.
De trem e com minhas poucas malas, mais 155 km são percorridos. Já no próprio trem, preocupo-me em avisar a todos sobre minha chegada com apenas uma simples mensagem no meu próprio status do whatsapp.
‘’Estou bem, não se preocupem! Estou me desconectando das distrações para conectar-me comigo mesma. Em breve terão notícias de mim. Amo todos vocês!’’
A objetividade foi bem clara em minha curta mensagem. Para muitos, posso até ter soado grossa demais, contudo, a mensagem foi necessária. Eu precisava disso. Sem celular, sem distrações, uma bolsa, meu notebook e óculos de sol. Além disso, tudo o que eu mais preciso é de alguns dias de passeios pela cidade sem distrações que me façam perder o foco de observar tudo e sentir-me inspirada o suficiente para digitar até que meus dedos caiam sobre o meu teclado.
Minha primeira parada? O meu foco principal aqui de Verona. A tão famosa casa de Julieta.
...
Um sorriso persiste em vestir meu rosto resplandecente de alegria por estar a caminhar pelas ruas de Verona. O céu já está alaranjado com o pôr do sol e minhas pernas não se cansam de caminhar por mais que tenham trabalhado pelo dia inteiro. Conheci todos os pontos turísticos que planejei conhecer. Por fim, agora repouso no pátio da casa de Julieta com meu computador aberto à minha frente esperando que uma onda de inspiração me cubra e eu comece a digitar alguma coisa que preste para o meu livro.
O sorriso presente no meu rosto começa a ser desfeito quando eu me frustro com a falta de palavras. Há tanto em minha mente, no entanto, as palavras não saem dela. Nada parece ser o bom o suficiente. Ao mesmo tempo que ideias borbulham, quando as digito, parecem vãs.
Ao bufar, fecho com força meu notebook e debruço sobre ele. Já sinto meus olhos ficarem úmidos, a ponta do meu nariz arde e minha garganta se comprimi com a pressão do choro que se forma em meu estômago. Por mais que eu tenha tentado, o bloqueio não se foi. É como se todas as horas de viagem, toda a minha renúncia de uma vida normal não fossem o suficiente para o êxito no trabalho.
— Ragazza? — Uma mão toca meu ombro e uma voz se faz ouvir perto de mim.
Para completar, eu não falo italiano. Levanto meu rosto a fim de não ser mal educada com o moço e enxugo minhas lágrimas rapidamente antes de encará-lo para repetir a única frase em italiano que aprendi há poucas horas através do tradutor.
— Mi dispiace, non parlo italiano. Sono brasiliana. — As palavras italianas saem por minha boca antes de eu ficar paralisada ao olhar para um certo par de olhos verdes como esmeraldas ao sol.
— Para sua sorte, sono brasiliano anche. — Os lábios rosados naturais abrem-se em sorriso para mim. — Tudo bem?
— Sim sim. — Respondo-o levemente atordoada pela sua beleza.
— Me chamo Giovanni. Giovanni de Luca. — O alto homem de pele clara e cabelos medianos estende sua grande mão em minha direção.
Para cumprimentá-lo e terminar com o grande contraste de alturas entre nós, me coloco de pé e aperto sua mão.
— Helena Viana. — Cumprimento-o e sou surpreendida quando minha mão é levada aos lábios do homem que permanece a me encarar com suas esmeraldas que brilham sem parar.
Deus, deveria ser crime ter olhos tão belos!
— Você está bem, Helena? Eu juro que, de longe, pensei te ver chorar.
— Estou bem. — Abro um pequeno sorriso e puxo minha mão fugindo do seu toque com o máximo de delicadeza que consigo. — Obrigada por se preocupar, mas eu já estava de saída.
Viro as costas para o homem e guardo meu notebook rapidamente na minha bolsa para fugir dele.
— Desculpe-me. Eu fui rude? Invasivo? Eu só... — Tomado por um nervosismo que faz sua voz estremecer, o homem começa a especular toda minha pressa repentina para fugir da presença dele.
Não o culpo. Eu não fui nada discreta.
— Eu te vi... Você não chorava como as outras. Não parecia ter um coração partido. — Permanece a continuar se explicando. — Eu só me preocupei. Desculpe-me.
Quando me viro novamente para encará-lo e dar-lhe uma boa resposta, ao ver suas costas e não me deparar com seu rosto, calo-me e o deixo partir.
Ele não precisa saber dos meus problemas. Eu não preciso que sintam pena de mim.
Não desisto da ideia de partir. Por hoje já chega de frustrações. Coloco minha bolsa sobre meu ombro e começo minha caminhada até o hotel no qual me hospedei. Com a mente borbulhando em pensamentos, desvio meu corpo dos corpos de outros turistas que passeiam pelo local. Grande parte dos turistas são mulheres e é esse fato que me leva de volta há alguns minutos atrás...
‘’Você não chorava como as outras.’’
Passei boa parte do dia sentada na rua onde várias pessoas ficam para escrever cartas para Julieta. Vi muitas mulheres sentadas escrevendo cartas para as secretárias de Julieta e, infelizmente, as vi chorar. Bom, Giovanni tem razão. Não sou como elas. Sofrer por amor está bem longe da minha realidade. O amor em si está bem longe da minha realidade. Aliás, acredito que existem dois tipos de pessoas, apenas dois. As que nasceram para viver o amor e as que nasceram para escrever sobre ele. No meu caso, escrevo.
Você pode gostar





