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Capa do romance Casa di Giulietta

Casa di Giulietta

Sofrendo com um bloqueio criativo severo, uma romancista viciada em trabalho decide deixar tudo para trás e viajar em busca de inspiração. O destino escolhido é Verona, o cenário histórico de Romeu e Julieta. O que Helena jamais imaginou era que, ao desembarcar na Itália, deixaria de apenas escrever sobre o amor para vivenciá-lo intensamente. Ao conhecer Giovanni de Luca, ela descobre que sua própria vida pode se tornar a história mais apaixonante de todas.
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Capítulo 3

— Oi! — Digo assim que entro no estabelecimento onde julgo que Giovanni trabalha e o encaro a ler um livro.

— Olá! — Fecha o livro e sorri gentilmente mesmo que não esteja parecendo entender muito minha presença inusitada.

— Estou te assustando? — Logo pergunto.

Sim, eu tenho noção do quão estranho agi ontem. Enquanto ele só quis ser educado, eu fui o oposto.

— Assustando não, surpreendendo. — Sorri deixando suas covinhas aparecerem e guarda seu pequeno livro dentro de uma gaveta do balcão antes de caminhar para mais perto de mim. — O que traz a senhorita até meu humilde estabelecimento?

Giovanni é muito bonito. Alto, pele clara, no entanto, possui um bronze natural, seus cabelos curtos e lisos são de um dourado angelical que combina perfeitamente com seus olhos verde-esmeralda e seus dentes perfeitamente alinhados em um sorriso perolado. Agora sei porque não dormi direito. Imagina um homem desse pensando no quão mal educada eu sou.

— Eu acho que te devo desculpas... — Mordo meu lábio inferior nervosa pelo sorriso de lado que Giovanni me lança.

— Por que pensa assim? — Ele pergunta ao se debruçar sobre o balcão do antiquário.

Seus olhos encaram os meus ao ponto de eu não conseguir piscar enquanto raciocino uma resposta para ele. Giovanni é como um personagem milimetricamente projetado para um livro.

— Porque enquanto você tentou ser gentil com uma estranha, eu fui um tanto rude ao me desvencilhar de sua ajuda. — Explico.

— Porque as mulheres de hoje em dia não são acostumadas com caras educados e, quando se deparam com um, logo pensam que estão sendo cortejadas. — Ele dá de ombros ao me retrucar.

— Talvez... — Meio que concordo. — Caras como você não são tão comuns no país que venho.

— Eu só me preocupei. — Giovanni se explica e eu acabo me sentando sobre uma banqueta que tem no balcão do antiquário. — Você ficou boa parte do seu dia por aqui e terminou ele chorando... Foi triste de se ver.

— Parte do meu trabalho. — Explico.

— As pessoas geralmente vêm aqui pelo oposto. Talvez devesse fazer isso... Relaxar pode ser bom.

A porta do estabelecimento é aberta. Sei disso, pois um singelo som de sino se faz ouvir e o olhar de Giovanni se direciona até três senhoras que acabaram de entrar no estabelecimento. Acho que essa é a minha deixa.

— Bom, agora que eu já me desculpei, acho que já posso ir em paz. — Sorrio e desço da banqueta.

— Fica mais um pouco. Quero saber mais sobre o que traz uma mulher à Verona para trabalhar e chorar enquanto tenta. — Giovanni pisca para mim.

Isso é o bastante para eu querer fugir de sua presença novamente. Ele é tão lindo e, suas palavras me permitem me sentir tão à vontade que, por segundos eu me lembro de Ethan e de onde eu fui parar por me permitir relaxar e viver o momento.

Como uma criança, eu o obedeço. Giovanni se vai para atender as três senhoras. Seu sotaque Italiano é impecável, sua voz rouca foi perfeitamente produzida para combinar com sua nacionalidade e o seu carisma... Se eu pudesse ler o pensamento das mulheres, diria que elas só vieram aqui para vê-lo.

— Já te disseram que é feio encarar as pessoas por muito tempo? — A voz de Giovanni se faz ouvir perto de mim mais uma vez e, só então, eu percebo que estamos a sós novamente.

— Seduzir faz parte do seu trabalho aqui? — Pergunto com certo humor na voz. — Sabe, não digo por mim, mas aquelas senhoras... Vi uma delas olhar a sua bunda enquanto você se virava para pegar um broche.

— É o fardo que carrego por ter escolhido dar continuidade ao negócio da família. — O homem leva as mãos ao alto antes de soltar uma risada e voltar a se debruçar à minha frente. — Foi isso que te trouxe aqui?

— Óbvio que não! — Exclamo. — Eu só me senti mal por ter sido mal educada e quando eu cheguei ao ponto do nosso encontro, te vi me olhando novamente e decidi vir me desculpar.

— Está sem computador hoje. Desistiu de trabalhar?

— Meu orientador costumava me falar que se estamos com bloqueio, às vezes é bom se distanciar um pouco da escrita.

— E está sendo bom?

— Agoniante, para dizer a verdade. — Rio sem humor. — Estou começando a pensar que a viagem foi um passo gigante que dei e acabei caindo em um buraco negro.

— Para uma romancista, você é bem pessimista. — Giovanni faz uma careta para mim.

— Como sabe que sou romancista?

— Escritores de terror não procuram Verona. — Me responde como se isso fosse o óbvio. — E eu concordo com o seu orientador. Você está tão focada em escrever que acaba esquecendo de viver e isso está sendo fatal.

— É o meu trabalho, Giovanni.

— O problema é que pra você, neste momento, procurar loucamente por uma inspiração não vai te levar a lugar algum. Poxa, vive um pouco!

— Para um vendedor de Antiquário, você seria um ótimo terapeuta. — Estendo a mão para Giovanni que sorri mais uma vez antes me retribuir o gesto.

— Estou ao seu dispor, Senhorita. — Beija minha mão novamente. — Bom, e digo que posso te ajudar. O que acha de colocar essa ideia em prática?

— Como assim?

— Você tem um guia de turismo por aqui em Verona?

— Não. Porque inicialmente eu queria apenas explorar a casa da bonita da Julieta e escrever sobre alguma coisa do tipo, sabe?

— Prazer... — Giovanni estende novamente sua mão para mim me fazendo encará-lo sem compreender nada.

— Você está doido? — Franzo meu cenho ao encará-lo tomada pela confusão.

— Eu serei seu guia de turismo.

— Giovanni, não sei se deu para você me entender, mas eu quero dizer e deixar bem claro que eu preciso muito escrever.

— Você precisa é parar de dar murros em pontas de facas. Para de buscar inspiração e se permite viver um pouco! Há quanto tempo você se pune ao invés de se compreender e dar o que você precisa?

Diante de tamanha teimosia, me rendo à voz da razão. Mesmo sem me conhecer, Giovanni acerta em cheio boa parte da minha vida. É tanto tempo que eu cumpro com os meus deveres, que acabei me esquecendo das minhas próprias necessidades. Talvez tudo o que eu precise seja viver um pouco e me desligar.

— Pode ser que a inspiração venha como um estalo quando você parar de se preocupar em achá-la.

Bom, assim eu espero.

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