
Babá do meu filho
Capítulo 2
O silêncio que se instalou na sala depois da pergunta de Henrique pareceu comprimir o ar ao redor deles.
"Você vai embora também?"
Helena sentiu o peito apertar de forma inesperada. Havia dor naquela voz pequena, não era apenas curiosidade infantil, era medo. Medo verdadeiro, o tipo de medo que nasce quando alguém começa a perceber que as pessoas podem desaparecer sem aviso.
Ela abaixou lentamente o olhar para o menino.
De perto, Henrique parecia ainda mais frágil do que imaginara. Os olhos castanhos estavam cansados, como se ele não dormisse direito há dias, e havia uma insegurança silenciosa no jeito como segurava o urso azul contra o peito.
Helena conhecia aquele olhar, já o tinha visto antes.
Em crianças abandonadas emocionalmente pela vida e por um segundo, viu a si própria ali também.
Ela se agachou devagar até ficar na altura dele.
- Eu acabei de chegar - respondeu suavemente. - Então ainda não tenho como ir embora.
Henrique pareceu refletir sobre aquilo.
Atrás dela, Dário observava em silêncio, atento a cada movimento. Ele esperava o afastamento imediato do menino, alguma birra ou rejeição como acontecera com as últimas duas babás, mas Henrique permaneceu parado.
Olhando para Helena como se tentasse decidir alguma coisa importante.
- Qual é o nome dele? - ela perguntou, apontando discretamente para o urso.
O menino olhou para o brinquedo.
- Tobias.
- Tobias parece bravo comigo.
Henrique apertou os lábios, quase escondendo um sorriso.
Quase.
Dário percebeu.
E aquilo o atingiu de maneira estranha, fazia dias que o filho não reagia daquele jeito.
Helena inclinou levemente a cabeça.
- Acho que preciso convencer ele de que sou legal.
Henrique finalmente levantou os olhos outra vez.
- Ele não gosta de estranhos.
A frase foi dita com tanta seriedade que Helena precisou conter a vontade de sorrir.
- Faz sentido, pessoas estranhas normalmente dão problemas.
Dessa vez, Henrique sorriu de verdade, pequeno, rápido, mas sorriu.
E Dário sentiu algo estranho atravessá-lo naquele instante.
Porque aquele simples sorriso parecia impossível nos últimos dias.
Helena percebeu o olhar dele sobre os dois e levantou-se lentamente.
O ambiente voltou a ficar tenso quase imediatamente.
Dário cruzou os braços.
- Henrique, sobe para o quarto.
O menino hesitou.
- Mas eu quero ficar aqui.
- Agora.
A autoridade na voz dele fez Henrique abaixar a cabeça imediatamente.
Helena percebeu, não o era medo exatamente, era costume.
Henrique já tinha aprendido que o pai raramente repetia ordens.
O menino virou-se lentamente e começou a caminhar de volta para o corredor.
Mas antes de desaparecer escada acima, olhou outra vez para Helena.
- Tobias ainda não decidiu se gosta de você.
Ela colocou a mão no peito dramaticamente.
- Isso é preocupante.
Henrique quase sorriu de novo antes de subir.
O silêncio voltou.
Dário passou a mão lentamente pelo maxilar.
- Ele não costuma falar com desconhecidos.
Helena permaneceu de pé.
- Talvez ele esteja cansado de adultos que entram e saem da vida dele.
A frase saiu antes que ela pudesse medir.
Erro.
Os olhos de Dário escureceram imediatamente, o clima da sala mudou outra vez.
- Está a insinuar alguma coisa?
Helena sustentou o olhar dele.
- Não, estou falando sobre o que uma criança sente depois de uma perda.
Dário aproximou-se devagar, a tensão entre os dois cresceu de forma quase palpável.
- Você acha que entende meu filho depois de cinco minutos?
Ela não recuou.
- Acho que ninguém o está ouvindo de verdade.
Aquilo bateu diretamente numa ferida aberta e Dário odiou isso porque parte dele sabia que ela tinha razão.
Desde o acidente, tudo se transformara num caos. Médicos, psicólogos, funcionários, advogados, reuniões, telefonemas, condolências vazias...
E no meio disso, Henrique estava ali, perdido, sofrendo em silêncio.
Dário respirou fundo, precisava controlar o temperamento.
- Você fala demais para alguém que ainda nem foi contratada.
Helena descruzou lentamente os braços.
- E o senhor parece cansado demais para perceber que seu filho está pedindo ajuda de maneiras diferentes.
O silêncio tornou-se pesado.
Marta, parada discretamente próxima ao corredor, observava tudo com atenção. Pela primeira vez em semanas, alguém enfrentava Dário sem parecer intimidado.
E estranhamente, aquilo parecia prender a atenção dele.
Dário desviou os olhos primeiro, um detalhe mínimo, mas Helena percebeu.
Ele caminhou até o bar da sala e serviu-se de whisky.
- Crianças não vêm com manual de instruções.
A voz dele saiu mais baixa agora, menos agressiva.
Helena observou-o em silêncio por alguns segundos, havia exaustão ali, muit.
Ela conhecia homens como ele, homens que acreditavam precisar sustentar o mundo inteiro sozinhos até começarem a desmoronar por dentro.
- Não - respondeu calmamente. - Mas elas demonstram quando estão sofrendo.
Dário virou o copo lentamente entre os dedos.
- E o que sugere?
Helena hesitou por um instante, precisava ter cuidado, aquele emprego era importante.
Mas mais importante ainda era não permitir que aquele homem a esmagasse com o mesmo autoritarismo que provavelmente usava com todos ao redor.
- Sugiro estabilidade, rotina, paciência e principalmente presença.
Ele soltou uma risada curta e sem humor.
- Presença.
- Sim.
- Eu trabalho doze horas por dia.
- Então talvez precise trabalhar onze.
Os olhos dele voltaram imediatamente para ela.
Helena sustentou o olhar, ela sabia que estava ultrapassando limites, mas também sabia que Henrique precisava de alguém que dissesse verdades naquela casa, mesmo as desconfortáveis.
- Não sabe nada sobre a minha vida - Dário disse friamente.
- E o senhor não sabe nada sobre a minha.
Aquilo o fez encará-la de forma diferente, mais atento.
Como se percebesse pela primeira vez que havia alguma coisa escondida atrás da calma dela.
Antes que pudesse responder, o celular dele começou a tocar.
Dário fechou os olhos rapidamente ao olhar o visor.
- Preciso atender.
Helena assentiu.
Ele afastou-se alguns passos.
- Fale.
A expressão dele endureceu quase imediatamente.
Helena desviou discretamente o olhar, mas ainda conseguia ouvir partes da conversa.
- Já disse que não vou vender agora.
Silêncio.
- Porque não é o momento.
Outro silêncio.
A mandíbula dele travou.
- Então diga ao conselho que esperem.
Helena percebeu a mudança instantânea no comportamento dele.
O homem cansado e emocionalmente abalado desapareceu, no lugar surgiu o empresário frio, controlado, perigoso.
Ela observou enquanto ele encerrava a chamada com irritação visível.
- Problemas? - perguntou sem pensar.
Dário lançou-lhe um olhar seco.
- Nada com que precise se preocupar.
Claro.
Homens ricos adoravam responder assim.
Helena pegou lentamente a bolsa sobre o sofá.
- Então acho que a entrevista terminou.
Ele pareceu surpreso.
- Está indo embora?
- O senhor ainda não decidiu se quer me contratar.
- E se eu decidir?
Ela aproximou-se calmamente.
- Então espero que me queira aqui pelo motivo certo.
Os olhos dele estreitaram-se levemente.
- E qual seria?
- Porque Henrique precisa de ajuda. Não porque alguém finalmente teve coragem de discordar do senhor.
O silêncio caiu outra vez.
Marta quase prendeu a respiração, mas Helena apenas caminhou em direção à saída.
Dário observou-a atravessar a sala sem pressa, mantendo a postura firme até desaparecer parcialmente pelo corredor principal.
Algo nela o incomodava e ao mesmo tempo chamava sua atenção.
Porque Helena não parecia impressionada com dinheiro, poder ou sobrenome, ela olhava diretamente para ele.
Como se enxergasse além da fachada perfeitamente controlada e aquilo era raro. Muito raro.
- Helena.
Ela parou antes da porta, virou-se lentamente.
Dário aproximou-se alguns passos.
- Começa amanhã.
Helena saiu da mansão sentindo o coração bater rápido demais.
O vento frio da rua atingiu seu rosto imediatamente enquanto ela caminhava até o portão principal.
Ela deveria estar aliviada, conseguiu o emprego.
Precisava desesperadamente dele, mas alguma coisa dentro dela parecia inquieta. Talvez porque voltar para perto daquela família fosse muito mais difícil do que imaginara.
Ela entrou no táxi em silêncio e assim que o carro começou a afastar-se da mansão, Helena virou discretamente o rosto para trás.
As luzes enormes da casa permaneciam acesas contra o céu escuro do fim da tarde, parecia bonita à distância.
Mas ela sabia que havia tristeza demais ali dentro.
Seu celular vibrou.
Ela olhou o visor.
"Laura".
Helena atendeu imediatamente.
- Então? - a voz da amiga surgiu ansiosa. - Conseguiu?
Helena apoiou a cabeça contra o banco.
- Sim.
- Meu Deus, Helena! Isso é ótimo!
Ela fechou os olhos rapidamente.
- Não sei se é.
Laura ficou em silêncio por um instante.
- Você viu ela nas fotos?
Helena demorou alguns segundos para responder.
- Vi.
O aperto no peito voltou imediatamente.
Bianca.
Depois de tantos anos, ainda doía, mesmo que Helena tentasse fingir o contrário.
- Talvez isso seja uma má ideia - murmurou.
- Você precisa desse emprego.
- Eu sei.
- E também precisa parar de fugir do passado.
Helena soltou uma pequena risada amarga.
Fácil falar, difícil era entrar todos os dias numa casa que carregava lembranças demais.
Ela abriu os olhos lentamente.
- O menino se parece muito com ela.
Laura suspirou do outro lado.
- Helena...
- Não, tudo bem. Eu vou conseguir lidar.
Mas nem ela mesma parecia acreditar totalmente nisso.
Naquela noite, Dário permaneceu sozinho no escritório enquanto observava os relatórios espalhados sobre a mesa sem realmente lê-los.
Sua mente continuava voltando para a mesma pessoa.
Helena.
Os olhos atentos, a calma irritante, a coragem absurda.
Ela falava com ele sem medo, como se não se importasse com a reputação que ele tinha, como se não estivesse tentando agradá-lo o tempo inteiro.
Aquilo era incomum.
Muito.
Ele afrouxou novamente a gravata e recostou-se na cadeira.
A porta do escritório abriu-se devagar.
Henrique apareceu segurando Tobias.
- Não consegue dormir outra vez? - Dário perguntou.
O menino aproximou-se lentamente.
- A moça vai voltar amanhã?
Dário observou o filho por alguns segundos.
- Vai.
Henrique pareceu pensar.
- Ela é bonita.
Dário arqueou discretamente a sobrancelha.
- Tem cinco anos e já repara nisso?
O menino deu de ombros.
- A mamã dizia que pessoas bonitas parecem mais gentis.
O peito dele apertou violentamente outra vez.
Bianca, sempre Bianca.
Henrique aproximou-se mais.
- Ela vai embora rápido também?
A pergunta saiu mais baixa dessa vez.
Mais insegura.
Dário puxou o filho para perto.
- Não sei.
E aquela era a verdade.
Porque algo dizia a ele que Helena Duarte não seria uma presença passageira naquela casa, não como as outras.
Ela parecia entrar nos lugares deixando marcas, mesmo sem tentar.
Henrique bocejou encostado nele.
- Papá...
- Hum?
- Você parece menos bravo hoje.
Dário ficou imóvel por um segundo.
Depois soltou uma pequena respiração cansada.
Nem ele sabia explicar por quê.
***
Na manhã seguinte, Helena chegou cedo.
Muito cedo.
Ela preferia observar os ambientes antes que as pessoas acordassem completamente, era um hábito antigo.
Marta abriu a porta com um sorriso discreto.
- Achei que chegaria apenas às oito.
- Não consegui dormir muito.
A governanta pareceu compreensiva.
- O senhor Dário já saiu para uma reunião.
Claro.
Helena entrou lentamente na casa.
O silêncio daquela manhã era diferente do dia anterior, ainda havia tristeza ali, mas também existia uma sensação estranha de expectativa.
Como se a própria casa estivesse aguardando alguma mudança.
- Henrique ainda está dormindo - Marta explicou. - Quer que eu mostre o quarto dele?
Helena assentiu.
Enquanto subiam as escadas, os olhos dela percorriam discretamente os detalhes do lugar.
Fotografias, quadros, objetos decorativos, tudo extremamente sofisticado, mas sem calor humano.
Chegaram ao corredor superior e Marta abriu uma porta devagar.
- Aqui.
O quarto infantil era bonito, grande.
Mas claramente improvisado emocionalmente após a perda.
Havia brinquedos espalhados, desenhos amassados sobre a escrivaninha e um pequeno abajur aceso mesmo durante o dia.
Medo do escuro, Helena reconheceu imediatamente, ela aproximou-se lentamente da cama.
Henrique dormia abraçado ao urso azul, completamente enrolado nos cobertores.
Parecia menor dormind, mais vulnerável.
Helena sentou-se cuidadosamente na poltrona próxima à janela.
- Ele quase não dorme durante a noite - Marta murmurou. - Às vezes acorda chamando pela mãe.
Helena permaneceu olhando o menino em silêncio.
O coração apertando aos poucos.
Porque ela sabia exatamente como era crescer sentindo ausência dentro de casa.
Depois de alguns segundos, Henrique mexeu-se lentamente na cama.
Os olhos dele abriram devagar, confusos primeiro.
Depois encontraram Helena, o menino ficou imóvel. Como se estivesse tentando confirmar que ela era real.
Helena sorriu levemente.
- Bom dia.
Henrique piscou algumas vezes.
- Você voltou.
A simplicidade daquela frase quase destruiu alguma coisa dentro dela.
Ela inclinou levemente a cabeça.
- Tobias finalmente deixou?
O menino olhou imediatamente para o urso.
Depois abraçou-o mais forte antes de responder com toda seriedade do mundo.
- Ele disse que ainda está observando você.
E pela primeira vez em semanas, uma gargalhada infantil ecoou baixinho naquele quarto.
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