
Babá do meu filho
Capítulo 3
A gargalhada de Henrique desapareceu rápido, quase como se ele próprio tivesse estranhado o som, mas Helena percebeu.
Percebeu o instante exato em que a criança relaxou os ombros pela primeira vez desde que ela chegara naquela casa. Foi breve, pequeno, delicado mas foi real.
Ela sorriu discretamente.
- Então acho melhor me comportar bem na frente do Tobias.
Henrique abraçou o urso azul contra o peito antes de sentar-se na cama devagar.
Os cabelos bagunçados caíam sobre os olhos sonolentos enquanto ele observava Helena com uma atenção curiosa.
- Você gosta de panquecas?
A pergunta surgiu do nada.
Helena piscou.
- Isso foi aleatório.
- O que é aleatório?
Ela conteve uma risada.
- Significa que você mudou de assunto muito rápido.
Henrique pareceu pensar sobre aquilo.
- Ah.
Depois apontou para ela.
- Mas você não respondeu.
Helena apoiou o cotovelo no braço da poltrona.
- Gosto muito.
O menino assentiu com seriedade.
- Então talvez você possa ficar.
Ela arqueou levemente a sobrancelha.
- Porque eu gosto de panquecas?
- Sim.
- Critério rigoroso.
Henrique quase sorriu outra vez.
Marta observava os dois da porta, claramente surpresa com a facilidade daquela interação. Nas últimas semanas, Henrique recusara aproximação de praticamente todos os adultos ao redor.
Mas com Helena parecia diferente, talvez porque ela não o tratasse como alguém quebrado.
Helena levantou-se da poltrona lentamente.
- Vamos negociar uma coisa.
Henrique inclinou a cabeça.
- O quê?
- Você escova os dentes sem reclamar e eu faço panquecas.
Os olhos dele arregalaram-se ligeiramente.
- Você sabe cozinhar?
- Isso pareceu ofensivo.
- A última babá queimou arroz.
Helena colocou a mão no peito dramaticamente.
- Queimar arroz devia ser crime.
Henrique riu baixo, dessa vez, sem se controlar.
E Marta sentiu os próprios olhos marejarem discretamente.
Porque fazia tempo que aquela casa não escutava uma criança rir.
---
Na cozinha, cerca de meia hora depois, Helena tentava encontrar os utensílios certos enquanto Henrique permanecia sentado sobre a bancada observando tudo com extrema atenção.
- Você está me fiscalizando?
- Sim.
- Tobias mandou?
O menino assentiu imediatamente.
Helena balançou a cabeça em falsa indignação.
- Esse urso claramente não confia em mim.
Henrique abraçou Tobias.
- Ele confia um pouquinho.
A cozinha começou a ganhar vida aos poucos, o cheiro doce da massa na frigideira espalhou-se pelo ambiente enquanto a luz da manhã atravessava as enormes janelas de vidro.
Pela primeira vez desde a morte de Bianca, funcionários começaram a circular pela casa sem aquele silêncio pesado e quase fúnebre.
Helena percebia.
As pessoas ali andavam como quem tinha medo de fazer barulho, como se alegria fosse proibida naquela casa agora.
Ela virou a panqueca habilmente.
Henrique arregalou os olhos.
- Uau.
- Impressionado?
- Um pouco.
Helena aproximou-se dele com o prato.
- Experimente.
O menino pegou um pedaço pequeno ainda desconfiado, mastigou lentamente e depois olhou para ela.
- Você pode ficar.
Ela sorriu.
- Que honra.
Henrique estava prestes a responder quando passos firmes ecoaram pela entrada da cozinha.
O ambiente mudou imediatamente, Helena ergueu os olhos, Dário acabara de chegar.
O terno escuro perfeitamente alinhado contrastava completamente com o semblante cansado. Ele segurava o celular numa mão enquanto retirava lentamente o relógio do pulso com a outra. Mas então percebeu a cena diante dele, Henrique sentado na bancada, conversando, comendo e sorrindo.
O movimento dele desacelerou, muito discretamente.
Helena observou a mudança no olhar dele, surpresa e confusão.
E algo perigosamente próximo de alívio, Henrique virou-se imediatamente.
- Papá! Ela sabe fazer panquecas!
Dário manteve os olhos em Helena por alguns segundos antes de responder.
- Estou vendo.
A voz grave saiu mais baixa do que o habitual.
Helena sentiu um leve desconforto crescer sob aquele olhar atento, porque agora ele não parecia apenas avaliando uma funcionária, parecia tentando entendê-la.
Henrique pegou outra panqueca.
- E ela não queimou nada.
Dário tirou lentamente o casaco.
- Isso realmente eleva o nível da casa.
Helena arqueou uma sobrancelha.
- Espero que esteja me elogiando.
Ele aproximou-se da bancada.
- Ainda estou decidindo.
Os olhos dos dois se encontraram por um segundo longo demais e Henrique percebeu, crianças sempre percebiam.
O menino olhou discretamente entre os dois antes de voltar a comer em silêncio.
Helena desviou primeiro, melhor assim.
Porque havia alguma coisa desconfortavelmente intensa naquele homem quando ele a observava sem frieza e isso era perigoso.
Dário pegou uma xícara de café já preparada por uma funcionária e recostou-se parcialmente contra a bancada.
- Ele dormiu bem?
- Melhor que o esperado.
Henrique respondeu antes dela.
- Porque ela ficou no meu quarto até eu dormir.
Dário voltou os olhos para Helena.
Ela manteve a calma.
- Crianças lidam melhor com mudanças quando se sentem seguras.
Ele permaneceu olhando para ela por alguns segundos.
- E acha que já fez ele se sentir seguro?
Helena apoiou a espátula sobre o balcão.
- Acho que ele está cansado de se sentir sozinho.
Silêncio, outra vez.
Ela tinha um talento irritante para tocar em pontos delicados.
Dário tomou um gole lento do café.
- Você sempre responde perguntas com críticas?
- Só quando necessário.
Henrique observava os dois como quem assistia a uma partida de tênis.
- Vocês brigam estranho.
Os dois olharam imediatamente para ele.
Helena quase riu.
Dário fechou os olhos rapidamente, soltando uma respiração cansada.
- Estamos conversando.
Henrique mastigou mais um pedaço de panqueca.
- Parece briga.
Helena apoiou os braços na bancada.
- Talvez seja uma conversa competitiva.
- O que é competitiva?
- Quando duas pessoas querem ganhar.
Henrique pensou por um instante, depois apontou para Helena.
- Acho que você está ganhando.
Dário soltou uma pequena risada nasal inesperada, muito breve e aquilo surpreendeu até ele próprio.
Helena percebeu imediatamente.
Aquela foi provavelmente a primeira reação espontânea daquele homem em dias, talvez semanas.
Dário endireitou-se quase no mesmo instante, como se tivesse consciência do deslize.
- Tenho uma reunião daqui a uma hora - disse secamente. - O motorista vai levar Henrique à terapia às três.
Henrique imediatamente perdeu parte da animação.
Helena percebeu.
- Você não gosta da terapia?
O menino deu de ombros.
- A doutora fica perguntando se eu estou triste.
O olhar de Helena suavizou.
- E você está?
Henrique ficou quieto, muito to quieto, depois abaixou os olhos para o prato.
- Quando eu digo que sim, ela faz cara de pena.
Aquilo apertou o peito dela instantaneamente, Dário também percebeu.
E pela primeira vez em dias, sentiu culpa de verdade atravessá-lo sem defesa.
Porque talvez estivesse tão focado em manter tudo funcionando que não percebeu como o próprio filho se sentia observado, analisado, tratado como um problema a ser resolvido.
Helena aproximou-se lentamente de Henrique.
- Você não precisa gostar de pessoas com cara de pena.
O menino levantou os olhos.
- Não?
- Não, mas precisa conversar com alguém quando estiver triste.
Henrique refletiu por alguns segundos.
- Tobias escuta.
Helena sorriu suavemente.
- Aposto que ele é muito sábio.
Dário observava tudo em silêncio agora.
E algo dentro dele começava a ficar perigosamente atento à presença daquela mulher.
Porque Helena não parecia tentar impressionar ninguém.
Ela simplesmente entrava nos espaços emocionais das pessoas sem forçar, sem fazer barulho e isso tinha impacto, muito impacto.
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Mais tarde, Helena ajudava Henrique a montar um quebra-cabeça enorme na sala de brinquedos quando ouviu vozes alteradas vindas do escritório principal.
Ela ergueu discretamente o olhar, a porta estava parcialmente aberta.
Henrique continuou concentrado nas peças.
- Esse aqui vai no canto.
Mas Helena já havia reconhecido o tom da discussão.
Dário e outro homem.
A voz desconhecida parecia irritada.
- Você não pode continuar adiando isso!
Helena desviou os olhos imediatamente, não era da sua conta, mas então ouviu Dário responder num tom perigosamente controlado.
- Minha esposa morreu há menos de um mês. Não vou discutir fusões agora.
O silêncio seguinte foi pesado até mesmo dali.
Henrique continuava distraído.
- Achei!
Helena forçou a atenção de volta ao menino.
- Boa.
Mas a discussão continuou.
- O conselho está pressionando.
- Então diga ao conselho para esperar.
- Você está emocional demais para tomar decisões importantes.
A expressão de Helena endureceu involuntariamente.
Que tipo de idiota dizia aquilo para um homem recém-viúvo?
Ela ouviu o som seco de algo sendo colocado violentamente sobre a mesa.
Depois a voz de Dário saiu fria o suficiente para congelar o ambiente inteiro.
- Saia da minha casa.
Silêncio.
Passos fortes atravessaram o corredor logo depois.
Segundos mais tarde, um homem alto de cabelos grisalhos passou pela sala sem sequer notar Helena e Henrique.
A porta principal bateu com força, o ambiente ficou silencioso outra vez.
Henrique continuou encaixando peças, mas então perguntou baixinho.
- O papá está bravo outra vez?
Helena olhou para o corredor.
- Acho que ele está cansado.
O menino ficou quieto por um instante.
- Antes da mamã morrer, ele ria mais.
Aquilo atingiu Helena de forma inesperada, ela desviou o olhar discretamente, porque às vezes esquecia que crianças observavam tudo, até aquilo que os adultos tentavam esconder.
Henrique encaixou outra peça.
- Você acha que ele sente saudades dela?
Helena respirou fundo lentamente.
- Acho que sim.
- Então por que ele age como robô agora?
Ela quase sorriu da sinceridade brutal.
Quase.
- Talvez algumas pessoas fiquem frias quando estão muito machucadas.
Henrique pareceu pensar seriamente naquilo, depois voltou a olhar para o quebra-cabeça.
- Igual gelo?
- Mais ou menos.
- Então você tem que colocar ele no sol.
Helena piscou.
- O quê?
Henrique deu de ombros.
- Gelo derrete no calor.
Ela ficou olhando para ele por alguns segundos.
Meu Deus, crianças realmente enxergavam o mundo de maneira assustadoramente simples às vezes.
Antes que pudesse responder, passos aproximaram-se da sala.
Dário apareceu na porta.
A tensão ainda estava estampada no rosto dele, mas suavizou ligeiramente ao ver Henrique no chão cercado pelas peças coloridas e então os olhos dele encontraram Helena.
Ela percebeu imediatamente, que ele ouvira parte da conversa, talvez tudo.
O clima mudou.
Dário aproximou-se lentamente.
- Henrique, vai tomar banho.
O menino fez careta.
- Mas eu quero terminar.
- Depois termina.
Henrique bufou dramaticamente antes de levantar-se devagar com Tobias debaixo do braço.
Ao passar pelo pai, parou subitamente.
- Papá?
- Hum?
- Você devia ficar mais no sol.
Dário franziu levemente a testa.
- O quê?
Mas Henrique já saía correndo corredor afora antes de explicar.
O silêncio instalou-se entre os dois adultos.
Helena continuou sentada no chão entre as peças do quebra-cabeça e Dário afrouxou lentamente a gravata.
- O que disse a ele?
- Nada demais.
Ele aproximou-se mais alguns passos.
- Helena.
Ela suspirou discretamente.
- Ele perguntou por que você parece frio.
Os olhos dele escureceram levemente.
- E você respondeu?
- Que algumas pessoas ficam assim quando estão machucadas.
Dário permaneceu em silêncio, depois soltou uma respiração lenta, cansada.
- Ótimo, agora meu filho acha que sou um cubo de gelo emocional.
Helena finalmente sorriu de verdade, um sorriso pequeno e curto.
Dário sentiu algo estranho acontecer no peito naquele instante, porque aquela foi a primeira vez que viu o sorriso dela sem defesas, sem profissionalismo, sem distância, foi rápido, mas um pouco perigoso.
Ela começou a recolher algumas peças espalhadas pelo tapete.
- Ele sente sua falta, sabia?
Dário apoiou as mãos nos bolsos.
- Eu estou aqui.
Helena ergueu lentamente os olhos para ele.
- Fisicamente, sim.
A frase caiu suavemente, sem acusação, mas acertou em cheio, fazendo Dário desviar o olhar por um instante.
Porque talvez estivesse começando a perceber uma coisa desconfortável, Helena Duarte não apenas enxergava as rachaduras daquela casa, ela enxergava as dele também e isso começava a abalá-lo mais do que deveria.
Então o celular dela vibrou sobre a mesa lateral.
Helena pegou-o rapidamente, mas a expressão dela mudou no instante em que leu a mensagem, toda cor pareceu desaparecer do rosto dela.
Dário percebeu imediatamente.
- O que aconteceu?
Ela levantou-se rápido demais, tensa, nervosa e assustada.
E aquilo foi a primeira vez que Dário viu Helena perder completamente a compostura.
- Eu preciso ir. Agora.
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