
As Cinzas da Verdade
Capítulo 2
Quando acordei, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas. O meu braço esquerdo estava enfaixado, uma dor surda latejava debaixo da gaze.
Ao meu lado, o meu marido, Leo, roncava baixinho num sofá improvisado, com o telemóvel a escorregar-lhe da mão.
Na televisão do quarto do hospital, a repórter falava com uma expressão séria. "O incêndio no Edifício Comercial Atlântico foi controlado. O fogo começou no restaurante do último piso e, infelizmente, causou uma vítima mortal e vários feridos."
A vítima era eu. A que sobreviveu.
Tentei sentar-me, mas a dor no meu braço fez-me gemer.
Leo acordou sobressaltado.
"Ana? Estás acordada? Como te sentes?"
Ele apressou-se a vir para o meu lado, a sua cara cheia de uma preocupação que me pareceu estranha.
Olhei para ele, a minha voz rouca e fraca. "Leo, vamos divorciar-nos."
A preocupação no seu rosto congelou, substituída por uma fúria contida.
"Divorciar-te? Ana, acabaste de sair de uma cirurgia. Estás a delirar por causa da anestesia?"
"Não estou a delirar," disse eu, a minha voz a ganhar um pouco de força. "Eu vi, Leo. Eu vi a Clara a empurrar-me."
O incêndio. O caos. O fumo a encher os meus pulmões. Eu estava a tentar escapar, mas a minha "melhor amiga", Clara, empurrou-me de volta para as chamas para poder passar primeiro.
Leo desviou o olhar.
"Isso é impossível. A Clara nunca faria uma coisa dessas. Ela ficou traumatizada com o incêndio, está em casa, nem consegue dormir. Ela sentiu-se tão culpada por não te conseguir salvar."
"Culpada?" Ri-me, um som seco e doloroso. "Ela não se sentiu culpada quando me empurrou."
O telemóvel de Leo vibrou na mesa de cabeceira. O nome "Clara" brilhava no ecrã.
Ele atendeu rapidamente, a sua voz a suavizar instantaneamente.
"Clara? Sim, ela acordou... Não, não, claro que não. Ela está só um pouco confusa por causa dos medicamentos... Não te preocupes, vou cuidar de tudo. Descansa, sim?"
Ele desligou e olhou para mim, a sua expressão endurecida.
"Vês? Ela está preocupada contigo. Ana, porque é que tens de ser sempre tão desconfiada? A Clara é a tua melhor amiga desde a infância."
"Ela não é minha amiga," insisti eu. "E tu és meu marido. Mas quando eu estava a arder, para quem é que ligaste primeiro? Para ela."
Lembro-me perfeitamente. Presa debaixo de destroços em chamas, com o meu braço a queimar, usei a minha última réstia de força para te ligar.
Não atendeste.
Mais tarde, os bombeiros disseram-me que o teu registo de chamadas mostrava que estavas ao telefone com a Clara durante todo o tempo em que o incêndio deflagrava.
A cara de Leo ficou vermelha.
"Eu estava a tentar localizar-vos às duas! O prédio estava em chamas, eu entrei em pânico! A Clara atendeu primeiro, eu só queria ter a certeza de que ela estava bem antes de te procurar!"
"Antes de me procurar?" A minha voz era gelada. "Eu era a tua mulher, Leo. Estava lá dentro, a arder."
"E agora estás aqui, viva, não estás?" ele retorquiu, a sua voz a subir. "Deves estar grata por estares viva, em vez de fazeres estas acusações ridículas! Queres o divórcio por causa disto? Depois de tudo o que passámos? Pára de ser egoísta!"
Ele não entendia. Ou não queria entender.
O meu casamento, a minha amizade... tudo se tinha transformado em cinzas naquele incêndio.
Ficar com ele seria como viver com um fantasma, o fantasma da sua traição.
"Sai," disse eu, a minha voz baixa mas firme. "Eu quero o divórcio, Leo. É a minha decisão final."
Ele olhou para mim, incrédulo, depois abanou a cabeça com nojo e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si.
Fiquei sozinha com o som monótono dos monitores do hospital. Olhei para o meu braço enfaixado. A dor física não era nada comparada com a dor que sentia por dentro.
Ele nem sequer perguntou pelos detalhes. Nem sequer considerou por um segundo que eu poderia estar a dizer a verdade.
A sua lealdade não era para mim. Nunca foi.
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