
As Cinzas da Verdade
Capítulo 3
Dois dias depois, a minha mãe chegou ao hospital.
Ela entrou no quarto a correr, com os olhos vermelhos de tanto chorar.
"Ana, minha filha! O que aconteceu? O Leo só me disse agora!"
Ela abraçou-me com força, e pela primeira vez desde o incêndio, senti as lágrimas a brotarem nos meus olhos.
"Mãe, a Clara empurrou-me."
A minha mãe afastou-se, a sua expressão a mudar de preocupação para descrença.
"O quê? Ana, não digas essas coisas. A Clara é como uma filha para mim. Ela nunca faria mal a uma mosca, muito menos a ti."
As minhas lágrimas pararam. Senti um frio a instalar-se no meu peito.
"Mãe, eu vi. Com os meus próprios olhos."
"Talvez tenhas visto mal," disse ela, a sua voz a tentar ser apaziguadora. "Estava tudo um caos, fumo por todo o lado. Deves ter-te enganado."
Antes que eu pudesse responder, a porta abriu-se e a Clara entrou.
Ela parecia pálida e frágil, com olheiras escuras debaixo dos olhos. Trazia um grande cesto de fruta.
"Tia Sofia! Ana!" A sua voz tremeu. "Oh, Ana, graças a Deus que estás bem. Eu tenho estado tão preocupada, não consigo dormir a pensar em ti."
Ela correu para a minha cama, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara abaixo.
A minha mãe abraçou-a imediatamente. "Oh, minha querida Clara. Não te culpes. Foi um acidente terrível. A Ana sabe que não foi culpa tua."
A Clara olhou para mim, os seus olhos a implorarem por simpatia. "Ana, perdoa-me. Eu tentei ajudar-te, juro que tentei. Mas o fogo... era tão forte. Eu entrei em pânico."
Olhei para ela, para a sua atuação perfeita. A vítima inocente.
"Tu não entraste em pânico, Clara," disse eu, a minha voz sem emoção. "Tu empurraste-me."
A Clara engasgou-se, um soluço a escapar-lhe dos lábios. Ela agarrou-se ao braço da minha mãe como se eu a tivesse agredido.
"Ana, como podes dizer isso?" a minha mãe repreendeu-me. "Olha para ela! Ela está destroçada! Pede desculpa à Clara agora mesmo."
Olhei da minha mãe para a Clara, que se escondia atrás dela, a espreitar-me com um brilho fugaz de triunfo nos olhos.
Naquele momento, percebi que estava sozinha. Completamente sozinha.
"Não," disse eu calmamente. "Não vou pedir desculpa por dizer a verdade."
"Ana!" A voz da minha mãe era cortante. "O que se passa contigo? Este incêndio mudou-te. O Leo tem razão, estás a ser irracional. Ele está a tentar tanto, a cuidar de ti, e tu só o afastas com esta conversa de divórcio."
O Leo. Claro que ele já tinha falado com elas. Já tinha pintado o seu quadro de mim como a esposa louca e ingrata.
"Ele contou-vos que eu quero o divórcio?" perguntei, a minha voz monótona.
"Claro que contou!" disse a minha mãe. "E estamos do lado dele! Não podes deitar fora o teu casamento por causa de um mal-entendido num incêndio!"
Senti uma gargalhada amarga a subir-me pela garganta. A minha própria mãe. A mulher que me devia proteger, a escolher o lado dos meus atormentadores.
"Saiam," disse eu, virando a cara para a janela. "As duas. Saiam do meu quarto."
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