
Apartamento 79
Capítulo 3
Meu celular tocou, tomei um susto, uma mensagem do trabalho. Estava atrasada hoje. Trabalhando em casa e atrasada, isso não era um bom exemplo. Corri para tomar outro banho, agora era só para tirar o suor. Coloquei uma roupa mais social, um terninho, uma calça e... pantufas. Acho que ninguém vai olhar meus pés, se da outra vez não viram que eu estava só de calcinha. Aquele foi um dia interessante. Tenho certeza que alguns deles já fizeram uma live só de cuecas.
Computador ligado, live aberta e foi aparecendo um por um. Meu chefe Gustavo, com sua postura austera arrumando alguma papelada. Breno, já trabalhava com ele há bastante tempo. E o novo contratado, Renan, que deu a sorte de arrumar um emprego numa pandemia, era bonitinho, sem dúvida, um pouco perdido, mas logo ia se encaixar. E Nancy, uma grande amiga. Ela sabia que na live anterior eu estava só de calcinha. Achou-me maluca e algumas vezes ela riu no meio da reunião. O chefe achou que ela estava vendo algum vídeo. E disse se não queria dividir alguma coisa com a gente. Nancy se recompôs e a reunião seguiu.
Depois de um breve bom dia a reunião de hoje começou. Manhã de muitas conversas e trocas de ideias, soluções para alguns problemas que vinham surgindo e mais nada. Até darmos uma pequena pausa.
– Bonito terno. É um modelo completo – perguntou Nancy com um sorrisinho.
– Sim – respondi me levantando, ela tomou um susto.
– Alguma novidade? – perguntou Nancy.
– Conheci o vizinho do 79 – respondi.
– E como ele é?
– Mudo.
A live seguiu por horas, um pouco mais longa que o normal. Problemas, problemas e mais problemas. Só fui almoçar uma hora da tarde e continuei a trabalhar por mais três. Espreguicei-me na cadeira e fui comer um pão de queijo com uma xícara de café. Depois me larguei no sofá e cochilei mais do que deveria. Era inicio da noite quando acordei com o céu laranja, algumas mensagens do trabalho e nada mais. Isso mesmo, nada mais. Essa era minha rotina.
Levantei-me do sofá e ouvi alguns barulhos do lado de fora, fui ver o que era pelo olho mágico. Meu novo vizinho do 79 estava carregando algum móvel. Estava de camisa preta e... de cueca preta. Inacreditável, pensei eu, olhando aquela bunda. Se curvando, agachando e levantando. Meus pensamentos bugaram. Tem gente que fica de cueca, calcinha, como eu, em casa, mas não do lado de fora. Se minha vizinha o visse teria um sério problema. Estava carregando um móvel com a ajuda de outro cara vestindo um terno preto. Outro de terno preto. Já estava criando um fetiche particular com isso. E isso me fez lembrar-se da antiga moradora do 79, sim, naquele mesmo apartamento.
O nome dela era Wanda, uma mulher mais velha e elegante. Também sempre vestia preto, terno preto, como o meu até, e camisa branca de botão por baixo, mas eu não o vestia o tempo todo. Quase nunca. Ela também usava vestidos e saias, tudo era preto o tempo todo. Seus amigos quando a visitam também usavam preto. Uma vez peguei o elevador com eles e me senti no meio de um bando de seguranças, e não falavam nada. Mudos, calados. Nem notavam a minha existência.
Ela recebia muitas visitas, dava festas, mas nunca incomodava ninguém, me cumprimentou uma vez, e só. E esse novo morador começava a fazer as mesmas coisas que ela.
Depois que aquele rapaz o ajudou com o móvel, apertaram as mãos e se despediram, logo foi embora pelo elevador. Meu vizinho sem nome entrou, e antes de fechar a porta, de costas para mim, abaixou sua cueca e a tirou, fiquei de boca aberta. Há quanto tempo não via um bumbum na minha frente. Suspirei, levei a mão ao peito e ele olhou para minha porta, estava sem máscara. Senti-me encarada, então, ele fechou a porta.
– Filho da puta – disse eu, baixinho, tirando a mão do seio.
Afastei-me devagar da porta levando as mãos até as coxas. Não, não iria me masturbar duas vezes num dia. Não faço isso nem toda semana. Tomei um gole de água que pingou no meu peito e voltei ao computador. Tinha que me distrair com alguma coisa, comecei a ver uma série na netflix. Qualquer coisa que me fizesse esquecer o que vi. Mas foi inútil.
– Ele fez de propósito – disse para mim mesma, não conseguindo me concentrar no episódio.
E por que seria de propósito? Ele nem sabia que eu estava olhando. Ou sabia? Talvez ele tenha olhado para ter certeza que não tinha ninguém. Bom, que olhasse primeiro antes de tirar a cueca, não é? Ou que fechasse a porta primeiro, seria o mais óbvio e o que qualquer um faria.
E consegui ver um pouco seu rosto. Sim, ele tinha barba. E com aqueles pensamentos que me infernizavam, entrei num site para adultos e pesquisei por ternos pretos.
A maioria dos vídeos era do chefe comendo a secretária. Deu certo calor e tirei meu terninho, será que ele era algum executivo. Pesquisei mais coisas e cheguei a alguns fetiches como BDSM, não sei por que cheguei aqui. Quando cheguei neste último, me lembrei da antiga moradora do 79 e seus amigos de terno preto. Uma vez quando eu saía vi um homem usando uma máscara, foi muito rápido e ele estava me observando, depois e a porta fechou. Submissão, agressão, escravas. Coisas que eram difíceis de acreditar que faziam ali dentro. Não, isso seria demais, não acho que faziam isso. Acho que estou viajando, guiando meus desejos. Mas eu continuei a olhar, não conseguia parar. Sensações novas despertavam em mim. Assisti e me surpreendi quando gozei pela segunda vez naquele dia, ali mesmo na cadeira do computador. Maldita bunda. Ela não saía da minha mente. Eu a mordia, lambia, a abria, queria ver tudo. Acho que estou ficando maluca ou virando uma ninfomaníaca. Parece nome de filme pornô, "a adoradora de bundas".
Essa quarentena tava acabando comigo. Acho que preciso de um vibrador. E foi o que fiz, comprei um pela internet. Era aquele tipo de compra que se você pensa demais, você não faz. E fiz no impulso.
Depois fiquei imaginando a entrega. Fiquei desesperada. E se o pacote abrisse e caísse no meio do elevador cheio de gente. Se o entregador gritasse lá de baixo: "Gabriele, seu pinto chegou!" Eu teria que me mudar daqui.
E pela terceira vez fui tomar um banho.
continua...
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