
Amor, Traição e um Novo Amanhecer
Capítulo 2
O cheiro forte de dendê e fumaça invadiu as narinas de João Pedro antes mesmo que ele visse o estrago.
Sua mãe, Dona Lurdes, estava sentada num caixote virado, o rosto pálido sob a luz fraca do poste da rua.
Ao lado dela, Tia Cida gesticulava, a voz embargada, explicando algo para dois policiais militares que anotavam com pouca vontade num bloco.
A barraca de acarajé delas, o sustento da família por décadas no Rio Vermelho, estava revirada.
Tabuleiros de vatapá e caruru espalhados pelo chão, o óleo de fritar manchando a calçada, bonecas de pano e fitas do Bonfim pisoteadas.
"Foi ela, meu filho, foi aquela diaba da Isabella" , soluçou Dona Lurdes assim que viu João Pedro se aproximar.
Ele tinha enviado os papéis do divórcio naquela manhã, com a cópia do contrato e a cláusula de adultério bem destacada pelo advogado de Tia Cida.
A retaliação de Isabella não demorou.
Era mais rápida e cruel do que ele imaginara.
Ameaçar o ganha-pão de sua mãe e tia era baixo, mesmo para ela.
Isabella esperava por ele na sala ampla do apartamento de luxo no Corredor da Vitória.
Estava sentada numa poltrona de design, pernas cruzadas, um copo de uísque na mão.
Um sorriso frio brincava em seus lábios.
"Gostou da surpresa no Rio Vermelho, meu amor?" , ela perguntou, a voz calma, quase um sussurro.
João Pedro sentiu um arrepio. A calma dela era sempre o prelúdio da tempestade.
"Você não tinha o direito, Isabella. Aquilo é a vida delas."
"Eu tenho todos os direitos, João Pedro. Inclusive o direito de te lembrar quem manda aqui."
Ela se levantou, caminhou lentamente até ele, parando a centímetros de seu rosto.
O perfume caro dela o sufocava.
"Você tem exatamente uma hora para retirar aquele pedido ridículo de divórcio e rasgar aquele contrato idiota."
Ela olhou para o relógio de pulso cravejado de diamantes.
"Sessenta minutos. Ou a próxima notícia que você terá será da vigilância sanitária fechando aquela espelunca imunda por contaminação. E talvez sua mãezinha não aguente o susto, ela parece tão frágil ultimamente, não é?"
O tom era de pura ameaça, fria e calculada.
A imagem de Isabella invadiu sua mente, não a mulher fria à sua frente, mas a Isabella do início.
Ele era apenas um cozinheiro talentoso, com um pequeno restaurante charmoso, mas endividado, na Saúde.
Ela, a herdeira Bittencourt, linda, impetuosa, acostumada a ter o mundo aos seus pés.
Isabella o perseguiu com uma intensidade avassaladora. Jantares caros, presentes luxuosos, viagens surpresa.
Ela investiu pesado no seu restaurante, transformando-o num dos mais badalados de Salvador.
Dona Lurdes e Tia Cida nunca confiaram nela. "Essa mulher é problema, meu filho. Dinheiro não compra felicidade, nem decência."
Mas Isabella, com sua lábia e promessas, até mesmo concordou com o contrato de casamento com separação total de bens e a tal cláusula de adultério, redigida pelo velho Dr. Alencar, amigo de Tia Cida.
"Um capricho de vocês, queridas. Assino o que quiserem, contanto que João Pedro seja meu" , ela disse, rindo, sem ler as letras miúdas.
A felicidade durou pouco.
Logo veio Tiago Mendes, o instrutor de capoeira com corpo de deus grego e sorriso fácil.
Isabella não fez questão de esconder o caso. Pelo contrário, parecia sentir prazer em humilhá-lo, desfilando com o amante em eventos da alta sociedade, enquanto ele era reduzido a um acessório constrangedor.
O amor virou pó, depois fel.
A respiração de João Pedro ficou pesada. A saúde de sua mãe era seu ponto fraco.
Dona Lurdes já vinha sofrendo com a pressão alta, piorada pelos constantes desgostos que Isabella lhe causava.
"O que você quer, Isabella? Dinheiro? Mais humilhação?"
"Eu quero que você entenda seu lugar, João Pedro. Você é meu. Seu restaurante é meu, porque eu o fiz. Sua vida é minha."
Ela sorriu, vitoriosa. "Ligue para seu advogado. Agora."
Ele pegou o celular, os dedos trêmulos. Discou o número do Dr. Alencar.
"Doutor, sobre o divórcio..." , ele começou, a voz rouca.
Isabella o observava, os olhos brilhando de triunfo.
"Diga a ele que você pensou melhor. Que foi um erro."
João Pedro engoliu em seco. Olhou para a foto de sua mãe na tela de bloqueio do celular.
"Eu... eu vou reconsiderar."
Desligou antes que o advogado pudesse responder.
Isabella sorriu largamente. "Muito bem, meu querido. Sabia que você não era tão burro."
Ela se afastou, voltando para sua poltrona. "Quanto à barraca, digamos que a vigilância sanitária pode ter outros assuntos mais urgentes hoje. Mas não abuse da minha boa vontade."
Uma promessa vaga, cheia de novas ameaças. A ansiedade continuava a apertar o peito de João Pedro.
No dia seguinte, a notícia chegou como um soco.
Não foi a vigilância sanitária. Foi pior.
Dois homens grandes, com caras de poucos amigos, apareceram na barraca de Dona Lurdes e Tia Cida.
Não disseram nada. Apenas começaram a quebrar tudo, com método e frieza.
As duas senhoras, com a coragem que só as mulheres baianas têm, tentaram impedir.
Tia Cida, mais forte, se jogou na frente de um dos homens que ia virar a gamela de acarajé fervente.
O óleo quente respingou em seu braço e peito. Ela gritou, mais de raiva do que de dor.
Dona Lurdes, ao ver a irmã ferida, avançou com um rolo de massa.
O outro homem a empurrou com força. Ela caiu, batendo a cabeça na quina de uma mesa.
Vizinhos correram para ajudar, os agressores fugiram.
João Pedro chegou ao pequeno posto de saúde do bairro e encontrou Tia Cida com queimaduras graves e sua mãe com um corte na testa, desorientada.
"Eles queriam me proteger, filho" , disse Tia Cida, a voz fraca, os olhos cheios de lágrimas de dor e fúria. "Proteger você daquela cobra."
Dona Lurdes, mesmo grogue, segurou a mão de João Pedro.
"Não desista, meu filho. Não deixe essa mulher destruir nossa família."
Tia Cida, apesar da dor, conseguiu murmurar: "O Dr. Alencar ligou. Disse que as provas que você conseguiu... as fotos, os vídeos da safadeza dela com aquele capoeirista... são mais que suficientes. Aquele contrato é nossa arma. Use, João Pedro. Por nós."
A dor daquelas cenas, a imagem de sua mãe e tia machucadas por causa dele, por causa de Isabella, acendeu uma chama fria em seu peito.
A culpa era um fardo pesado, mas a determinação crescia ainda mais forte.
Isabella tinha cruzado a linha final.
Naquela noite, no quarto pequeno dos fundos do seu restaurante, que agora parecia uma jaula de ouro, João Pedro tomou sua decisão.
Ele iria até o fim com o divórcio. Usaria a cláusula. Tomaria o restaurante de volta, o restaurante que era seu sonho antes de Isabella o transformar num palco para sua vaidade.
Pegaria a indenização.
E então, desapareceria de Salvador com sua mãe e tia.
O Vale do São Francisco, com seus vinhedos e a promessa de paz, surgiu em sua mente. Um lugar para recomeçar, longe da sujeira e da dor.
Dr. Alencar já havia mencionado contatos, maneiras de acelerar a documentação, de criar uma nova vida, legalmente. Uma mudança drástica, mas necessária.
O processo seria irreversível. Ele cortaria todos os laços.
Isabella não o encontraria. Nunca mais.
A vingança seria sua liberdade.
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