
Amor, Traição e um Novo Amanhecer
Capítulo 3
João Pedro voltou para o apartamento de Isabella no dia seguinte.
O rosto dela exibia um sorriso satisfeito, acreditando que ele havia se submetido.
Ele precisava manter as aparências, ganhar tempo enquanto Dr. Alencar preparava tudo.
"Que bom que voltou ao juízo, querido" , ela disse, oferecendo-lhe uma taça de champanhe.
Ele aceitou, o líquido borbulhante parecendo amargo em sua boca.
Dissimulou, conversou sobre banalidades, sobre os próximos eventos sociais que ela insistia que ele participasse.
Cada palavra dela, cada toque casual, revirava seu estômago.
Mas ele sorria, um sorriso falso que não alcançava seus olhos.
A contagem regressiva para sua liberdade havia começado em sua mente.
Na primeira oportunidade, quando Isabella saiu para um de seus encontros com Tiago, João Pedro começou a destruir seu passado.
Abriu o closet que dividiam. As roupas caras que ela comprara para ele, os sapatos importados, os relógios de marca.
Ele rasgou as camisas de seda, cortou as calças de grife com uma tesoura de cozinha, quebrou os relógios contra a parede.
Cada objeto destruído era um pedaço daquela vida de mentiras que ele eliminava.
Pegou os álbuns de fotos. As imagens de viagens luxuosas, de festas sorridentes.
Rasgou cada foto em que Isabella aparecia ao seu lado, depois queimou os pedaços na pia do banheiro.
A fumaça acre encheu o ar, mas para ele, era o cheiro da purificação.
Havia um pequeno cofre no escritório de Isabella, onde ela guardava joias e documentos.
Ele sabia a senha, uma data qualquer que ela considerava importante, provavelmente o aniversário de algum amante anterior.
Dentro, encontrou uma caixa de veludo azul.
Nela, a primeira joia que ele lhe dera, um colar simples de prata com um pingente de pimenta, comprado com suas economias antes da avalanche de dinheiro dela.
Isabella o usara por um tempo, depois o descartara por diamantes maiores.
Mas ela o guardara. Talvez como um troféu, uma lembrança de sua conquista.
Ele pegou o colar. Sentiu o metal frio em sua mão.
Desceu até a garagem. O carro esportivo vermelho que ela lhe dera estava lá, um símbolo do controle dela.
Abriu o capô, localizou os cabos da bateria.
Com um alicate, cortou-os. O alarme do carro não soaria.
Então, com o colar de pimenta, ele começou a riscar a pintura vermelha brilhante.
Fez um longo e profundo arranhão na lateral, depois outro no capô.
As lascas de tinta vermelha caíam no chão como gotas de sangue.
Era um ato de vandalismo, sim. Mas para ele, era a quebra de um laço simbólico.
O carro, um presente dela, agora estava marcado pela sua revolta.
No jardim do prédio, havia uma velha mangueira que, segundo Isabella, fora plantada por seu avô.
Ela adorava aquela árvore, dizia que representava a força e a longevidade da família Bittencourt.
Quando se casaram, ela mandou gravar suas iniciais entrelaçadas num dos galhos mais grossos. JP & IB.
João Pedro pegou um canivete que sempre carregava.
Subiu na árvore com agilidade. Encontrou a gravação.
Com a lâmina, ele raspou as letras, uma por uma.
Primeiro o 'I' , depois o 'B' . Por último, o 'J' e o 'P' .
Deixou a madeira nua, ferida.
Não olhou para trás ao descer. A união eterna, gravada na árvore, não existia mais.
Quando Isabella voltou, encontrou João Pedro na sala, lendo um livro, a calma encenada.
Tiago estava com ela, o braço possessivamente em volta de sua cintura.
"João Pedro, querido" , Isabella disse, a voz melosa. "Tiago estava me contando que você foi um pouco rude com ele outro dia na academia."
João Pedro arqueou uma sobrancelha. Ele mal dirigia a palavra ao capoeirista.
"Peça desculpas a ele" , ordenou Isabella, como se fala com uma criança malcriada.
A humilhação era constante, uma gota d' água que nunca parava de cair.
Ele olhou para Tiago, que sorria com superioridade.
"Desculpe" , ele disse, a voz neutra, sem emoção.
Tiago, aproveitando a deixa, começou a se lamuriar.
"Ah, Isabella, você não sabe como ele me olha. Com tanto desprezo. Eu só quero ser seu amigo, amigo de vocês dois."
Ele fez uma cara de cachorro pidão.
Isabella imediatamente o abraçou. "Oh, meu Tiaguinho, não ligue para ele. João Pedro anda muito estressado ultimamente."
Ela fuzilou João Pedro com o olhar, depois voltou a sorrir para Tiago, ignorando completamente o marido.
A cena era repulsiva. A manipulação de Tiago era óbvia para qualquer um, menos para Isabella, cega pela paixão e pela própria arrogância.
Mais tarde, Tiago encontrou João Pedro sozinho na cozinha.
"Ela faz tudo que eu quero, sabia?" , o capoeirista disse, encostado na bancada, comendo uma fruta.
"Eu estalo os dedos, e a rainha Bittencourt obedece. Você deve se sentir um lixo, não é? Ser trocado por mim."
João Pedro apenas o encarou, o desprezo claro em seus olhos.
Ele não daria a Tiago o prazer de uma reação. Sua vingança estava a caminho, silenciosa e demolidora.
"Seu silêncio não me engana, chef. Você está se roendo por dentro."
No dia seguinte, a armadilha.
João Pedro estava saindo para ir ao restaurante quando Tiago apareceu no corredor, vindo do quarto de Isabella.
O capoeirista tropeçou "acidentalmente" nos próprios pés e caiu, batendo o ombro na parede com um gemido exagerado.
"Ai! Meu ombro! João Pedro, por que você me empurrou?"
Isabella saiu do quarto no mesmo instante, como se estivesse esperando o sinal.
Ela viu Tiago no chão, fazendo uma careta de dor, e João Pedro parado, atônito.
"O que você fez com ele, seu bruto?!" , ela gritou, correndo para socorrer o amante.
"Eu não fiz nada! Ele caiu sozinho!"
"Cínico! Eu vi! Você o empurrou! Está com ciúmes, é isso?"
Sem esperar resposta, sem investigar, ela agarrou um pesado castiçal de prata da mesa de centro.
Antes que João Pedro pudesse reagir, ela o atingiu no braço com toda a força.
A dor foi aguda, lancinante. Ele cambaleou para trás.
Isabella o arrastou para o quarto de hóspedes, que se tornara sua prisão particular.
Trancou a porta por fora.
"Fique aí e pense no que fez, seu animal! E prepare-se, porque hoje à noite temos um jantar importante. E você vai sorrir e fingir que nada aconteceu."
João Pedro ficou sozinho no quarto escuro e frio.
O braço latejava. O frio da indiferença dela doía mais que a pancada.
Ele se lembrou de quando se conheceram, de como Isabella o olhava com admiração, com um brilho nos olhos que ele pensou ser amor.
Agora, aqueles mesmos olhos só refletiam crueldade e desprezo.
O arrependimento por tê-la amado um dia era uma ferida que não parava de sangrar.
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