
Amor, Dor e Liberdade
Capítulo 2
O teste de gravidez na pia do banheiro mostrava duas linhas nítidas. Positivo. Beatriz (Bia) olhou para o resultado, seu rosto sem expressão. Não havia alegria, nem surpresa, apenas a calma de um plano concluído. Seu primeiro instinto não foi ligar para o marido, mas para seu advogado.
Ela pegou o celular, o dedo deslizando pela tela até encontrar o número.
"Dr. Almeida, bom dia. É Beatriz."
A voz do outro lado da linha era profissional e um pouco surpresa. "Sra. Beatriz, bom dia. Aconteceu alguma coisa?"
"Sim", disse Bia, sua voz firme e sem emoção. "Quero iniciar o processo de divórcio."
Houve um silêncio do outro lado. "Divórcio? Sra. Beatriz, tem certeza? Seu casamento é tão recente."
"Tenho certeza absoluta", ela respondeu, olhando seu reflexo no espelho. "Preciso que seja o mais rápido possível. Existe alguma forma de acelerar o processo? Não se preocupe com os custos."
O advogado hesitou, claramente pego de surpresa pela urgência e pela frieza dela. "Bem, podemos tentar um divórcio consensual se o seu marido concordar, isso tornaria tudo mais rápido. Sem isso, pode ser um processo complicado."
"Ele vai concordar", Bia afirmou, embora não tivesse a menor intenção de negociar com ele. "Prepare os papéis. Eu entro em contato em breve."
Ela desligou antes que o advogado pudesse fazer mais perguntas. Guardou o celular e, por um momento, considerou ligar para seu marido, Lucas. Ela precisava informá-lo. Com um suspiro, ela pressionou o nome dele na tela.
O telefone chamou várias vezes antes que ele atendesse, com o som de música alta e risadas ao fundo.
"Alô?", a voz de Lucas soou irritada. "O que foi, Beatriz?"
"Onde você está?", ela perguntou, o tom neutro.
"Não é da sua conta. Estou ocupado", ele respondeu bruscamente.
Antes que Bia pudesse dizer mais alguma coisa, uma voz feminina e manhosa soou perto do telefone. "Luc, meu amor, quem é? Desliga isso e vem me dar atenção."
Era Sofia. Sempre Sofia.
Lucas baixou a voz, mas Bia ainda pôde ouvir. "É a Beatriz. Já vou desligar." Ele voltou a falar com ela, a impaciência evidente. "Olha, a Sofia não está se sentindo muito bem, preciso cuidar dela. A gente se fala depois."
Ele desligou na cara dela.
Bia olhou para o celular em sua mão, mas não sentiu nada, nem raiva, nem ciúme. Era assim há um ano, desde que se casaram. Sofia era a prioridade de Lucas, e Bia era apenas a esposa que ele mantinha em casa por conveniência, uma obrigação familiar que ele cumpria com má vontade.
Ela não se importava. Nunca se importou. Porque seu casamento com Lucas nunca foi sobre amor.
Sua mão foi instintivamente para seu ventre ainda plano. Uma lágrima solitária finalmente escorreu por seu rosto, mas não era de tristeza pela indiferença de Lucas. Era uma lágrima de saudade e de um luto que nunca terminava.
Ela fechou os olhos e a imagem de Pedro inundou sua mente. Pedro, seu noivo, seu grande amor. O irmão gêmeo idêntico de Lucas. Eles tinham o mesmo rosto, o mesmo sorriso, a mesma voz. Mas eram homens completamente diferentes. Pedro era gentil, atencioso, o centro do universo de Bia.
A memória do acidente de carro ainda era uma ferida aberta. A dor de perdê-lo foi tão avassaladora que ela pensou que não sobreviveria. No vazio que ele deixou, uma ideia desesperada e insana começou a se formar. Se ela não podia ter Pedro, talvez pudesse ter um pedaço dele. Um filho. Um filho que se parecesse com ele.
E o único homem no mundo que poderia lhe dar isso era Lucas.
Ela propôs o casamento, surpreendendo a todos, especialmente a família dele, que ainda estava de luto. Lucas, que sempre viveu à sombra do irmão perfeito, concordou. Bia nunca soube exatamente por quê, talvez por um senso de dever para com a memória do irmão ou talvez pela pressão dos pais.
O casamento foi um acordo frio. Eles viviam na mesma casa, mas em mundos separados. Ele passava as noites fora com Sofia, sua paixão de anos que havia retornado do exterior pouco antes do casamento deles. Bia fingia não ver, focada em seu único objetivo. Ela suportou a solidão, a indiferença e a presença constante de outra mulher na vida de seu marido.
Tudo por aquele resultado positivo no teste de gravidez.
Ela olhou novamente para as duas linhas. Missão cumprida. O sacrifício valeu a pena. Ela teria um filho de Pedro, uma continuação de seu amor. O casamento com Lucas não tinha mais propósito. Agora, era hora de se libertar.
Com uma determinação renovada, Bia guardou o teste de gravidez na bolsa. Ela deixaria Lucas viver sua vida com Sofia. Ela seguiria em frente, sozinha, com seu bebê. Uma nova vida estava começando, uma vida que ela construiria para si e para a pequena parte de Pedro que carregava dentro dela. O divórcio era apenas o primeiro passo para a sua verdadeira liberdade.
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