
Amor, Dor e Liberdade
Capítulo 3
Naquela noite, Lucas chegou em casa tarde, cheirando ao perfume de Sofia. Bia estava sentada na sala de estar, esperando por ele, os papéis do divórcio que o advogado tinha enviado por e-mail impressos sobre a mesa de centro.
Ele a viu e franziu a testa. "Ainda acordada?"
"Precisamos conversar, Lucas."
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo, um gesto idêntico ao de Pedro, mas que em Lucas parecia apenas irritado. "Estou cansado, Beatriz. Pode ser amanhã?"
"Não. Tem que ser agora."
Ele se jogou no sofá oposto, a jaqueta de couro cara jogada de lado. "Então fala logo."
Bia empurrou os papéis na direção dele. "Eu quero o divórcio."
Lucas olhou para os papéis e depois para ela, uma expressão de descrença no rosto. Então, ele riu. Uma risada curta e sem humor. "Divórcio? Que piada é essa?"
"Não é uma piada. Eu quero me divorciar de você."
Ele pegou os papéis, seus olhos passando rapidamente pelas palavras. "Você não pode estar falando sério. Depois de tudo que eu fiz por você? Depois de te aceitar mesmo sabendo que você ainda era obcecada pelo meu irmão?"
"O casamento cumpriu seu propósito", disse Bia calmamente.
Lucas a encarou, confuso. "Propósito? Que propósito? Achar que eu era o Pedro?"
Bia não respondeu. Ela não precisava. Ela tinha o que queria.
Ele balançou a cabeça, parecendo genuinamente perplexo. "Você é inacreditável. Mas tudo bem. Você quer o divórcio? Você vai ter. Mas com uma condição."
"Qual?", ela perguntou, já esperando por isso.
"Você vai comigo e com a Sofia a um jantar de negócios amanhã à noite. O pai dela é um investidor importante. Preciso que você aja como a esposa perfeita por uma última vez."
Bia o encarou. Ir a um jantar e fingir ser a esposa feliz de um homem que a desprezava, enquanto a amante dele estaria presente. Era humilhante. Mas era um preço pequeno a pagar pela sua liberdade.
"Tudo bem", ela concordou. "Eu vou."
Lucas pareceu surpreso com a facilidade com que ela aceitou. "Ótimo. E use aquele colar que minha mãe te deu. O pai da Sofia adora joias."
Bia assentiu, sem expressão. O colar era uma herança de família, que a mãe de Lucas e Pedro lhe dera no dia do casamento. Ela o guardava em uma caixa, junto com outras coisas que pertenciam a Pedro. Para Lucas, era apenas uma joia para impressionar um investidor. Para Bia, era mais uma lembrança de um amor perdido. Ela colecionava essas pequenas coisas, fragmentos de Pedro que Lucas, em sua indiferença, nem percebia que existiam.
Por um breve momento, enquanto ela o observava, uma sombra de algo que parecia dor passou pelos olhos de Lucas. Talvez um vislumbre do que estava perdendo, ou talvez apenas a frustração de não entendê-la. Mas a expressão desapareceu tão rápido quanto veio, substituída pela sua habitual indiferença. Ele se levantou.
"Bom. Esteja pronta às oito." Ele se virou para sair, mas parou na porta. "A propósito, por que essa decisão repentina?"
Bia desviou o olhar, a mão discretamente pousada sobre o ventre. "Eu apenas cansei, Lucas."
Ele deu de ombros, como se a resposta dela não importasse. "Tanto faz." E saiu, deixando-a sozinha na sala silenciosa.
No dia seguinte, pontualmente às oito, Bia estava pronta. Ela usava um vestido preto simples e o colar de diamantes que a mãe de Lucas lhe dera. Quando desceu, encontrou Lucas e Sofia esperando por ela na sala. Sofia usava um vestido vermelho chamativo, seus olhos percorrendo Bia com desdém mal disfarçado.
"Você demorou", disse Sofia, a voz doce, mas com uma ponta de veneno. "Estávamos quase saindo sem você."
"Eu não teria me importado", respondeu Bia, calmamente.
Sofia pareceu surpresa com a resposta direta. Lucas interveio, parecendo desconfortável. "Vamos. Estamos atrasados."
No carro, o silêncio era tenso. Sofia tagarelava sobre seus planos e suas compras, ignorando completamente a presença de Bia. Lucas respondia monossilabicamente, seus olhos constantemente no espelho retrovisor, observando a expressão vazia de Bia.
No restaurante, o pai de Sofia, um homem imponente e de sorriso fácil, os recebeu calorosamente. Ele elogiou o colar de Bia, exatamente como Lucas previra.
"Uma peça magnífica, Beatriz. Lucas tem bom gosto."
"Foi um presente da minha sogra", disse Bia, forçando um sorriso.
Durante o jantar, Sofia fez questão de sentar ao lado de Lucas, tocando seu braço constantemente, agindo como se ela fosse a anfitriã. Bia comeu em silêncio, respondendo educadamente quando lhe dirigiam a palavra, desempenhando seu papel de esposa troféu com perfeição.
De repente, Sofia, que estava um pouco bêbada, virou-se para Bia. "Então, Beatriz. Lucas me disse que você não está se sentindo bem ultimamente. Algum problema?"
Bia sentiu o olhar de Lucas sobre ela, um aviso silencioso. Ele claramente não queria que ela estragasse seus negócios.
"Estou perfeitamente bem, Sofia. Talvez você esteja projetando", Bia respondeu, sua voz suave, mas firme.
Sofia riu, uma risada estridente. "Ah, que bom! Porque seria terrível se você estivesse doente. Lucas precisa de uma esposa saudável para lhe dar herdeiros, não é, querido?"
A palavra "herdeiros" pairou no ar. Bia sentiu um calafrio.
Lucas, claramente irritado com a indiscrição de Sofia, interveio. "Sofia, você bebeu demais."
"Oh, estou apenas brincando!", ela disse, mas seus olhos brilhavam com malícia. Ela se inclinou para Lucas, sussurrando algo em seu ouvido, alto o suficiente para que Bia ouvisse. "Ela parece tão frágil. Tenho medo que ela se quebre."
Nesse momento, Bia sentiu uma náusea repentina. A comida, a conversa, o perfume de Sofia, tudo se tornou insuportável. Ela se levantou abruptamente.
"Com licença. Preciso ir ao banheiro."
Lucas a observou sair, uma expressão de aborrecimento no rosto. Sofia sorriu, vitoriosa.
"Viu? Eu disse que ela não estava bem", disse Sofia para Lucas, a voz cheia de uma falsa preocupação. "Você deveria ter me trazido sozinha. Ela só está estragando a noite. É melhor que ela vá para casa, não acha? Ela está me deixando enjoada."
Lucas olhou para a direção que Bia tinha ido, hesitou por um momento, e então se virou para Sofia, seu rosto suavizando. "Você tem razão. É melhor ela ir. Deixa que eu cuido disso." Ele acariciou o rosto de Sofia, um gesto de ternura que ele nunca, jamais, tivera com Bia.
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