
Alma da Maré: Renascendo do Caos
Capítulo 2
A noite da maior exposição de joias do ano deveria ser o auge da minha carreira, mas se transformou no epicentro de um desastre. A coleção "Alma da Maré", na qual eu havia derramado meses de trabalho, inspiração e cada centavo da minha fortuna, foi publicamente declarada uma fraude. As peças, minhas criações únicas, foram trocadas por imitações baratas na noite anterior ao evento, uma sabotagem tão perfeita que ninguém desconfiou até as cortinas se abrirem.
O contrato milionário com a maior rede de luxo do país virou fumaça, e com ele, minha reputação.
"Fraude! Luana Ferraz é uma vigarista!"
Os gritos ecoavam pelo salão enquanto os flashs das câmeras explodiam no meu rosto. Fui arrastada para fora do palco pelos seguranças, tratada como uma criminosa. A punição foi imediata e brutal, não em um tribunal, mas na corte da opinião pública e dos negócios. Fui difamada, meus contratos foram cancelados e minhas contas, congeladas. Perdi tudo em uma única noite.
No meio do caos, quem veio me "salvar" foi Rafael, meu noivo, o empresário ambicioso cujo apoio eu acreditava ser inabalável. Ao seu lado estava Clara, minha irmã adotiva, com os olhos cheios de uma falsa preocupação que, na minha ingenuidade, tomei por solidariedade.
"Luana, meu amor, vamos para casa", disse Rafael, envolvendo-me em seus braços. "Vamos resolver isso. Eu estou com você."
Clara segurou minha outra mão, apertando-a com força.
"Irmã, não se preocupe. Nós vamos descobrir quem fez isso com você. Você é a vítima aqui."
Confiei neles. Deixei que me levassem para casa, um refúgio que logo se revelaria o ninho da traição. Entreguei a eles as chaves restantes, senhas, tudo o que eu achava que poderia ajudar a provar minha inocência. Eu estava exausta, quebrada, e eles eram meu único porto seguro. Entreguei meu mundo a eles, acreditando que o protegeriam.
Naquela noite, incapaz de dormir, desci as escadas para beber um copo d'água. Foi quando ouvi as vozes vindo do escritório de Rafael. Eram sussurros, carregados de uma euforia cruel que congelou o sangue nas minhas veias.
"Deu tudo certo, meu amor. Melhor do que o planejado", era a voz de Clara, melosa e triunfante. "Ela não desconfia de nada. Entregou tudo de bandeja."
"Ela é uma tola apaixonada", respondeu Rafael, e sua voz, que horas antes me prometia conforto, agora escorria desprezo. "Achar que eu realmente me casaria com ela? Com aquela sonhadora ingênua? A fortuna dela e os designs eram a única coisa que me interessava."
Meu corpo inteiro travou. O copo que eu segurava escorregou da minha mão e se estilhaçou no chão, mas o som foi abafado pelo barulho do meu próprio mundo se partindo.
Eles ouviram. A porta se abriu bruscamente. Rafael e Clara me encararam, sem o menor pingo de surpresa ou culpa nos olhos. O teatro havia acabado.
"Você... ouviu?", perguntou Rafael, com uma frieza cortante.
"Por quê?", foi a única palavra que consegui pronunciar, a voz embargada pela dor. "Clara, você é minha irmã. Rafael, eu te amava. Eu dei tudo por você."
Clara deu um passo à frente, seu rosto se contorcendo em um sorriso vitorioso.
"Irmã? Você nunca foi minha irmã. Você era a filha perfeita, a talentosa, a que tinha tudo. Eu sempre vivi na sua sombra. E você, Rafael? Você queria poder, e eu queria a vida dela. Foi um acordo perfeito."
Rafael ajeitou o colarinho da camisa, olhando para mim como se eu fosse um inseto.
"Negócios, Luana. É tudo sobre negócios. Eu precisava do seu nome para entrar no mercado, e agora, com seus designs e sua fortuna, eu e a Clara vamos construir um império. Você foi apenas um degrau. Um degrau que não precisamos mais."
A verdade era um veneno que se espalhava rapidamente, matando cada memória feliz, cada promessa, cada pingo de amor que eu sentia. Eu não fui vítima de um estranho, fui sacrificada pelas duas pessoas que eu mais amava no mundo.
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