
Alma da Maré: Renascendo do Caos
Capítulo 3
O desprezo no olhar de Rafael era uma ferida aberta. Ele não fez questão de esconder nada, agora que a máscara havia caído.
"Sempre te achei patética, Luana", ele continuou, saboreando cada palavra. "Com seus sonhos de 'arte' e 'sentimento'. Joias são apenas pedras e metal. Poder é o que importa. E agora, o poder é nosso."
Clara se aninhou no braço dele, olhando para mim com uma superioridade que doía fisicamente.
"Vamos usar seus 'designs exclusivos' para lançar nossa própria marca", disse ela. "Será um sucesso. E todos vão pensar que a genialidade sempre foi minha. Afinal, a fraudulenta é você, lembra?"
O plano deles era diabólico em sua simplicidade. Eles não apenas me roubaram, eles roubaram minha identidade, minha alma de artista, e a usariam para enriquecer, enquanto eu apodrecia na miséria e na vergonha.
Uma enxurrada de memórias me invadiu. Lembrei-me dos anos de solidão no orfanato antes de ser adotada pela família de Clara. Meus pais adotivos sempre me trataram bem, mas havia uma distância, um lembrete constante de que eu não era de seu sangue. Clara, por outro lado, sempre foi a princesa da casa.
Lembrei-me de como o mundo parecia escuro e solitário. E então, Rafael apareceu. Ele era charmoso, ambicioso e parecia me ver de verdade. Ele me elogiava, incentivava meu talento e prometia um futuro onde nunca mais me sentiria sozinha. Ele foi meu "salvador", a pessoa que me tirou da sombra e me colocou sob os holofotes.
Eu me joguei de cabeça nesse amor. Trabalhei incansavelmente, não apenas para construir minha carreira, mas para construir uma vida para nós. Cada sucesso meu, eu via como um sucesso nosso. Cada joia que eu criava era uma declaração de amor a ele, uma promessa do nosso futuro brilhante.
E agora, parada ali, ouvindo a crueldade em suas vozes, percebi a verdade terrível. Aquele "salvador" nunca existiu. O amor que eu acreditava ser meu alicerce era uma farsa. Ele não me salvou, ele me escolheu como um alvo. Ele viu meu talento e minha herança como um investimento, uma oportunidade. O carinho era cálculo, a paixão era uma performance.
Minha dedicação, minhas noites em claro no ateliê, os sacrifícios que fiz para apoiar suas ambições... tudo foi em vão. Pior, tudo foi usado contra mim. Ele não me amava, ele me usava. A família que eu sonhava construir com ele era uma ilusão que só existia na minha cabeça.
"Todo o meu trabalho...", sussurrei, mais para mim mesma do que para eles. "Tudo o que eu fiz por você, por nós..."
Rafael riu, um som oco e cruel.
"Você fez por si mesma, Luana. Para provar seu valor. Nós apenas aproveitamos a oportunidade. Não seja tão dramática."
A dor da traição era tão intensa que mal conseguia respirar. Não era apenas a perda do dinheiro ou da carreira, era a aniquilação da minha própria história, do meu amor, da minha confiança na humanidade. A pessoa em quem eu confiava minha vida tinha acabado de me apunhalar pelas costas, e a pessoa que eu chamava de irmã segurava a faca com ele.
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