
Alicia - Para sempre
Capítulo 3
Caminhando pela estrada de terra em meio à floresta, eu estava completamente distraída quando um carro começou a andar vagarosamente ao meu lado.
- Hei! Garota, quer carona?
Levantei a cabeça olhando para o lado e vendo quem era. Era Caled. Ele tinha parado o carro e me observava com atenção. Meu coração palpitou. Eu deveria aceitar? Eu não conhecia aquele Caled. Eu conhecia apenas o Caled do passado. E se ele não fosse uma boa pessoa?
Fechei os olhos com força e neguei veementemente com a cabeça.
- Não, obrigada.
Por dentro, meu coração berrava para aceitar, mas eu não podia fazer isso. Ele fez uma cara estranha, certamente não acostumado a receber o "não" de uma garota, e voltou a ligar o carro e seguir em marcha lenta.
- Tem certeza? Sei onde mora, é meio longe.
Olhei para ele ainda sem graça e segurei a mochila com mais força.
- Não precisa, eu agradeço.
Ele sorriu, com seus dentes brancos perfeitamente alinhados. Que saudade que eu tinha daquele sorriso, pensei.
- Eu não mordo, ok? Não vou sequestrar você, se é disso que está com medo.
Engoli minha saliva, ainda sem acreditar naquilo, e então concordei com a cabeça.
- Ok, tudo bem. Você pode me levar até em casa.
Circulei o carro, e ele abriu a porta para mim como um perfeito cavalheiro. Não pude deixar de reparar nos olhos cor de mel. Ainda eram os mesmos olhos claros. Achei que quando ele fosse humano, esse traço desapareceria, já que não era muito comum. Mas não, ainda eram os mesmos olhos que tinham me conquistado e enlouquecido.
Enquanto andávamos, ele ligou o rádio e ajustou o volume para baixo, quase como se quisesse que a música fosse apenas um pano de fundo. Mas, ao ouvir os primeiros acordes de Sympathy for the Devil, uma lembrança me invadiu. O antigo Caled também gostava dessa música. Alguns gostos não mudavam, ao que parecia. Ele sorriu ao perceber que eu reconhecia a melodia.
- Gosta de Rock? – perguntou os olhos fixos em mim, esperando uma resposta.
Assenti com a cabeça.
- Gosto, essa música é boa. – Eu mal terminei de falar e ele já estava sorrindo, como se soubesse de algo que eu não estava dizendo.
- Billy me disse que você é sobrinha da Helena, certo? – ele perguntou, quase como se tentando unir peças de um quebra-cabeça.
Olhei para ele, sem saber exatamente o que responder. Não era só sobre ser sobrinha de Helena, era sobre tudo o que isso representava. Mas, em vez de falar sobre isso, apenas confirmei.
- Sim, isso mesmo.
Ele riu baixinho, um sorriso de quem reconhecia alguma ironia na situação, mas não disse nada mais sobre o assunto. Sua voz, então, ficou um pouco mais suave.
- Conheço a Helena há um tempão. Nunca te vi por aqui... Não eram tão próximas?
Suspirei, sentindo um peso no peito. Ele não tinha a menor ideia do que isso significava para mim. O motivo de eu não vir muito a Toronto, a razão de agora estar ali... Era uma história que ele jamais entenderia. E eu não sabia se estava pronta para contar, até por que se eu contasse ele com certeza diria que eu devia ser internada por loucura.
- Não, eu não vinha muito para cá. Eu e minha mãe decidimos nos mudar meio que do nada. – Minha voz se fez mais baixa, quase como se estivesse tentando me convencer de que essa explicação era suficiente. E, de certo modo, era.
Ele ficou em silêncio, observando-me com atenção, como se tentasse ler algo em meu rosto. Talvez ele soubesse que estava faltando alguma coisa, mas não insistiu. Até que, de repente, ele parou bruscamente em frente à minha casa.
- Está entregue, sã e salva. – Ele sorriu, mas não de um jeito amigável. Como se fosse um lembrete de algo que ele sabia que não poderia controlar. – Se quiser, vou sempre para a cidade. Posso te dar carona para a escola.
Senti o nó na garganta. O motivo de ele ir para a cidade era, obviamente, Húlia. Eu não ia aguentar ficar vendo ele se esvair para os braços dela todos os dias. Era demais para mim. Apenas o pensamento me fez querer correr para dentro de casa.
- Agradeço, mas não é necessário. Vou com Sophia. – Foi à única coisa que consegui dizer, a voz soando mais fria do que eu queria.
Ele me olhou por um momento, como se tentasse entender o que havia por trás da minha recusa. Era óbvio que ele não estava acostumado a ser negado.
Desci do carro rapidamente, sem olhar para trás. Quase corri para a porta, sentindo o peso do seu olhar na minha nuca. O arrepio percorreu toda a minha espinha. Caled não era mais o demônio que eu conhecia, nem o anjo. Mas, de alguma forma, ele ainda me causava o mesmo efeito. Será que um dia isso passaria?
Minha mãe me viu entrando em casa rapidamente, com os olhos fixos no carro de Caled que já se afastava na estrada. Ela cruzou os braços, uma expressão de desconfiança estampada no rosto.
- Então os lobos já estão rondando? – Sua voz era calma, mas eu podia perceber a análise meticulosa em cada palavra.
Olhei de canto para ela, tentando parecer o mais indiferente possível, mas o calor da situação ainda estava em mim, e eu sabia que minha expressão não ajudaria em nada.
- Não sei do que está falando. Ele é só nosso vizinho, tem namorada. – Tentei minimizar, mas minha mãe não se deixou enganar. Ela me seguiu pelas escadas, com aquele passo firme, determinado a não deixar o assunto passar em branco.
- Eu sei disso, sei que é nosso vizinho, e também sei que tem namorada. – Ela parou no topo das escadas, me observando com atenção, como se cada palavra fosse uma peça de um quebra-cabeça que ela ainda não conseguira montar. – Mas também sei que ele não tem boa fama. Helena já me alertou. O que ele queria de você?
Eu revirei os olhos, tentando escapar do olhar dela, mas sabia que não seria fácil. Minha mãe nunca ia deixar esse assunto passar.
- Nada demais. Só me deu uma carona. – Eu sabia que isso soava vazio, mas o que mais eu poderia dizer? Não era mentira, mas também não era a história completa.
Ela me seguiu mais de perto, como se sentisse o cheiro da mentira no ar. Quando estava perto de mim, parou, ainda me encarando com aquele olhar penetrante, que me fazia me sentir vulnerável.
- Sei, esses rapazes, Alicia... Nunca querem apenas dar uma carona. Isso de carona é velho, é só pretexto para se aproximar. – A voz dela ficou mais séria, cheia de experiência. – Você é inocente demais, não vê as segundas intenções, mas eu vejo.
Eu a encarei por um momento, tentando sorrir, mas o gesto saiu mais forçado do que eu queria. Eu sabia que ela estava certa em tudo, e isso me causava um desconforto que não conseguia ignorar. Ela via tudo com clareza, enquanto eu me perdia na confusão dos meus próprios sentimentos. Como eu poderia me aproximar de Caled? Como poderia conquistar sua atenção, sem me arriscar demais? E, ainda mais importante, como negar tudo isso e ao mesmo tempo sonhar que ficaríamos juntos novamente?
Minha mente estava em um turbilhão, as emoções se chocando umas contra as outras, criando um nó que eu não conseguia desfazer. Eu queria gritar, queria confessar tudo, mas sabia que isso não ajudaria em nada. Eu só desejava que as coisas fossem mais simples. Mas, no fundo, sabia que nunca seriam.
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