Capa do romance Culatra

Culatra

8.8 / 10.0
Aos 14 anos, Natali vê seu mundo desmoronar quando seu melhor amigo assassina seu irmão. O que era afeto transforma-se em um plano de vingança meticuloso e sombrio ao longo dos anos. Na enigmática cidade de Culatra, uma força mística molda o destino dos habitantes, revelando segredos perturbadores. Entre descobertas e traições, a busca por justiça leva os relacionamentos ao limite, mergulhando a protagonista em uma trama de crimes e mistérios fatais.

Culatra Capítulo 1

Natali chora e soluça, um desespero contido de uma criança que ainda não tem certeza de nada em sua vida. Mas algo estranho havia acontecido, era uma debutante ainda e, por descobrir muitas coisas boas no decorrer do caminho, não estava imune às ocorrências falhas dessa caminhada.

Sentia-se desamparada pela própria emoção. Está sentada em um banco feito de cimento em frente de sua casa, dentro uma aglomeração incomum, vizinhos e curiosos. Talvez sentindo pesares pelo ocorrido, ou simplesmente a vontade de ter certeza da novidade.

Seu irmão, Jairo, havia saído no final da tarde para jogar bola, seu costume de todos os dias depois de realizar tarefas e deveres de casa. Ele sonha ainda ser um grande jogador de futebol, o que não é difícil de acontecer, é um ótimo jogador.

Naquele dia, o retorno habitual de Jairo não acontecera. Já era quase noite, sua falta ainda não havia sido sentida, até mesmo por saber que, apesar da pouca idade — apenas doze anos — Jairo era sempre responsável.

Alguém chama no portão da casa de Natali, é o pai de um amigo de Jairo, estava esbaforido, não se sabe se pela correria para chegar até ali, ou pelo teor da notícia.

Natali vai até ao portão, o senhor de olhar sisudo e um pouco desesperado, pergunta:

Sua mãe tá em casa?

– Sim, ela está.

– Quero falar com ela, vá chamar, por favor.

Natali encarou aquele homem, era apenas um conhecido da outra rua, pai de um amigo de Jairo. Era pressente em seu olhar um condutor de más notícias. Era a primeira vez que aquele homem vinha ao portão da sua casa. Imediatamente, Natali vê no semblante daquele senhor a revelação de decepção. Em passos lentos, vai chamar sua mãe.

Dona Joelma, uma mulher de meia idade que, ainda conservava uma vistosa beleza, foi admirada pelo senhor por alguns segundos... logo a notícia é dada sem aviso prévio:

– Seu filho Jairo foi levado ao hospital!

Joelma demora acreditar em uma notícia assim tão rápida. Seu filho sempre teve uma saúde boa, o que o levaria assim, de prontidão, ao hospital?

– Seu moço, o que aconteceu com meu filho?

– Eu posso entrar e me sentar naquele banco?

– Pode!

O senhor entra, se senta no banco onde Natali costuma sentar para pensar. Ele olha para Joelma que permanecera em pé, começa a relatar a história como o seu filho o havia contado:

– Jairo estava jogando bola no campinho, como de costume. Terminaram a partida, regressando para casa, às margens do campinho, Jairo achou um dinheiro, uma nota não muito alta, mas que dava para comprar pão. Todos foram pra padaria, compraram alguns pães e refrigerante, sentaram ali mesmo na calçada, dividiram os pães e o refrigerante, e lancharam. Sobraram ainda dois pães. Jairo, então, resolveu dividir entre todos, fatiando um pedaço para cada um. Estavam a caminho de casa enquanto essa divisão acontecia, mas, Jairo não percebeu que ele e outro garoto ficaram sem pão. Se conformou, afinal, já haviam comido o suficiente. Mas o garoto que também não recebeu o pão ficou com muita raiva e começou a ofender Jairo que, por sua vez, o ignorou, e continuou caminhando.

Joelma já um pouco ansiosa com aquele relato enfadado, disse:

– Moço, o que aconteceu com meu filho?

– Estou tentando lhe contar, pois, se eu não relatar, a senhora não entenderá.

– Pois diga logo, seu moço!

– O garoto ficou mais irado ainda por que Jairo não deu atenção às ofensas. Meteu a mão no bolso e foi atrás de Jairo que estava de costas. Ao chegar perto de Jairo, segurou em seu braço, quando Jairo se virou, num súbito, o garoto puxou a mão do bolso, bateu no peito de Jairo com alguma coisa, e logo começou a sangrar.

Joelma muita aflita com o relato:

– Onde está meu filho?

– Ele está no hospital.

Natali ouve todo o relato sem mencionar uma única palavra, mas já pressentia o pior.

Joelma chora, nervosa, querendo saber o que realmente teria acontecido com seu filho. O senhor também fica nervoso e gagueja palavras sem entendimento. Os vizinhos curiosos vão se aglomerando frente à casa.

Natali imagina com curiosidade, pois, parece já ter vivido aquela situação anteriormente, nada do que estava acontecendo era surpresa para ela.

Precisou falar algo para ver se sua mãe se recuperava:

– Calma mãe, Jairo está bem!

Então, por um instante, Joelma volta a si.

– Tá não, Natali! Mataram Jairo, meu menino!

Natali, no seu íntimo, prevê que a situação é mais do que um simples acontecimento e, Joelma sente também de alguma forma. Era o destino funcionando de maneira traiçoeira, dando informações do mais além que se tornariam decepções permanentes... Joelma só repete:

– Mataram meu filho, furaram meu filho!

– Não, mãe, não mataram. Ele tá vivo! Conta, moço, que ele tá vivo!

Natali segura o braço do homem, apelando para que ele desse uma boa notícia e, dessa forma, Joelma se acalmasse. Ele continua o relato, mas Joelma não presta mais atenção em nada do que ele fala:

– Jairo, quando viu o sangue escorrendo pelo seu corpo, observou um minúsculo ferimento e todo o sangue parecendo fugir do seu corpo, olhou para os outros garotos e desmaiou. No chão, ao lado do corpo, uma pequena ponta de metal com um cabo de madeira improvisado. Eu passava por ali naquele exato momento e ajudei no socorro. Colocamos ele num carro e o levaram para o hospital. Me prontifiquei em avisar a família. Comigo está a faca improvisada.

O homem mete a mão no bolso e tira algo parecido como uma faca. Era pequena, parecia uma ponta de uma velha faca, talvez de cinco a dez centímetros, ou um pouco mais.

Um dos vizinhos que estava ali vê a faquinha e tenta aliviar a tensão:

– Mas isso não mata nem formiga, parece um alfinete, um graveto, só faz cócegas!

Joelma fica mais tranquila. Natali, apesar de ser nova, estava a conduzir a situação com muita habilidade, tinha conseguido acalmar sua mãe.

A própria Joelma resolve não tomar nenhuma providência enquanto seu esposo não chegasse. Edson — seu esposo — é um homem reservado, de poucas palavras, mas quando resolve beber se torna muito falador, fazendo o homem reservado desaparecer.

Quando ele aparece na ponta da rua, é avistado por um vizinho que prontamente anuncia:

– Seu Edson já está chegando!

Edson é um homem robusto e trabalhador, havia conhecido Joelma numa época que ela estava desamparada, com os filhos para criar e abandonada pelo seu antigo parceiro. Era uma mulher com cinco filhos, e apesar disso, era muito jovem e bonita, Natali e Jairo eram filhos do primeiro relacionamento, os outros três eram de um segundo relacionamento, no qual se entregou ao álcool e saiu pelo mundo afora sem deixar rastros. Edson a conheceu e se apaixonou, se responsabilizou pela família, assumindo os filhos dela como seu. Natali era a mais velha, depois vinha Jairo, Cristiano, Reinaldo e Neiva.

Edson percebe a aglomeração em frente de sua casa e ficou preocupado. Apressa os passos pra saber o que tinha acontecido. Joelma o encontra, dá-lhe um abraço e começa a chorar outra vez:

– Furaram o Jairo com uma faca!

Edson gosta de Jairo como se fosse seu próprio filho, já quer saber quem fez a maldade. Sua reação é de um pai revoltado e prontamente pensando em uma vingança, mas Joelma o abraça e o acalma afirmando estar tudo bem, mesmo sem saber de nada.

Imediatamente ele pede para Joelma trocar de roupa para que fossem ao hospital. De todos os enteados, Jairo é por quem ele tem mais afeição. Gosta de ver o garoto jogando, e de sua habilidade com a bola. Gosta da humildade e obediência de Jairo, é um garoto muito inteligente.

Joelma vai trocar de roupa e Edson fica ouvindo aquele senhor contar os detalhes do acontecido, foi ele o primeiro a chegar pra dar a notícia.

Arrumam o carro do vizinho emprestado, quando já estão todos dentro carro, quase saindo, uma viatura da polícia para em frente à casa.

Os policiais descem da viatura procurando saber quem eram os pais do garoto que havia sido estocado, Edson responde:

– Sou eu, o pai.

– A notícia não é boa para você.

Joelma cai em prantos e desmaia. Entende que seu filho havia falecido, mesmo sem o policial falar nada. Os vizinhos a socorrem, tomando os devidos cuidados. Jairo mal completara doze anos e tinha sido arrancado dessa existência de uma forma trágica e covarde. Mas Edson ainda mantinha uma esperança de apenas um estado grave e pergunta com uma voz trêmula:

– Como ele está, seu policial?

– O senhor é o pai do garoto?

– Sou e não sou.

– O que o senhor é dele?

– Sou padrasto, mas o tenho como se fosse um filho.

– Infelizmente ele não resistiu ao ferimento e veio a óbito. O objeto que o perfurou, ainda não identificado, atingiu um ponto vital do coração. Chegou ao hospital sem vida.

Joelma recobra os sentidos quando ouve as últimas palavras do policial:

– Não, meu garotinho não!

Ela grita desesperada e fora de si. Edson já não sabe o que fazer. Fica desnorteado com a situação.

A casa então se enche com vizinhos e curiosos, alguns acontecimentos na vida que é o momento propício para descobrir se as pessoas realmente se importam conosco ou se somos meramente um espetáculo do caos. Todos choravam, os irmãos de Natali sabem que perderam o seu irmão, Jairo. Mas não sentem ainda a certeza da separação através da morte e o sofrimento que ela causa., Edson chora junto com Joelma.

Natali vai para fora da casa, para a parte da frente. Senta-se naquele banco de cimento, é seu habitual costume estar ali, agora solitariamente. Soluça e chora com lágrimas de sangue que enegreciam sua alma. Apenas um pedaço de pão fez parte de uma triste trajetória na vida de seu irmão que dissiparam, uma vida de apenas doze anos.

O pão que alimenta, foi a causa da perda de uma vida. Desse momento em diante, Natali não é mais a mesma garota. A fatalidade acabara de impactar sua vida profundamente. Ela pensa também no garoto que tinha ceifado a vida de Jairo, talvez tivesse sido um ato repentino, sem pensar, um ato que transformara mais uma vida, ou muitas.

Natali chora e pensa no quão doloroso é perder alguém que se ama muito. Nunca havia imaginado a morte em si mesma, somente em noticiários ou até mesmo de algum vizinho, mas com ela seria impossível acontecer, assim pensam os jovens atuais, possuem a síndrome da vida eterna,

O fato é contatado pela dor repentina, sem aviso a morte invade o derredor da vida, levando Jairo para sempre, uma vida que não se concluiu, sonhos interrompidos.

Ela pensa no destino que as vezes é cruel, pensa como será o destino dela. Teria chance de ir mais além? Ou simplesmente seria retirado sem estimativa, assim como o do seu irmão?

Às vezes o destino se completa por irônica teimosia da vida, muitos passam por essa vida apenas por passarem, não almejam sonhos, somente para cumprirem tabela.

Ela adormece naquele banquinho de cimento que estava gelado, mas ela nada sente, até que alguém percebe, a coloca no colo e a leva para dentro.

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