
Adeus, Casamento de Aparências
Capítulo 2
Hoje era nosso oitavo aniversário de casamento, e Marcos me deu um broche de presente.
Era um broche de camélia, barato e sem graça, do tipo que se compra em qualquer loja de esquina por menos de cinquenta reais.
"A camélia combina com você, Luana" , disse ele, com um sorriso que não chegava aos olhos. "Simples e discreta."
Eu olhei para o broche na caixa de veludo barata, e depois para a sala de estar luxuosamente decorada da nossa mansão. Cada objeto ali valia mais do que a minha vida inteira antes de conhecê-lo.
O contraste era tão grande que chegava a ser cômico.
Segurei o broche e forcei um sorriso.
"Obrigada, Marcos. É… lindo."
A mentira saiu seca da minha boca.
Naquele exato momento, decidi que era hora de acabar com tudo.
"Marcos, precisamos conversar."
Ele franziu a testa, a impaciência já tomando conta do seu rosto. Ele odiava conversas sérias.
"O que foi agora, Luana? Não gostou do presente? Eu sei que não é um diamante, mas é o gesto que conta, não é?"
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e sua irmã, Camila, entrou com um sorriso falso nos lábios.
"Luana, querida! Feliz aniversário de casamento!"
Ela se aproximou, me deu um abraço frio e forçado, e sussurrou no meu ouvido:
"Me desculpe por ontem. Eu não devia ter dito que suas mãos são ásperas como as de uma faxineira. Eu estava de cabeça quente."
Eu me afastei dela. A ofensa dela nunca era acidental.
Olhei para Marcos, esperando que ele dissesse algo, mas ele apenas deu de ombros, como se a humilhação que eu sofria constantemente fosse apenas um detalhe irritante.
"Camila já pediu desculpas, Luana. Deixe isso pra lá."
A raiva começou a subir pela minha garganta, um gosto amargo e familiar. Ignorei Camila e voltei meu olhar para Marcos.
"Eu quero o divórcio."
As palavras saíram calmas, mas firmes.
Camila ofegou, fingindo surpresa.
"O quê? Luana, você enlouqueceu? Depois de tudo que meu irmão fez por você?"
Marcos, por outro lado, apenas riu, um riso debochado e cansado. Ele se sentou no sofá de couro italiano, cruzou as pernas e me olhou como se eu fosse uma criança fazendo birra.
"Divórcio? Luana, não seja ridícula. É por causa do broche? Ou por causa da Camila? Você sempre faz tempestade em copo d'água."
Ele tirou a carteira do bolso, pegou um cartão de crédito e o jogou na mesa de centro.
"Tome. Compre o que você quiser. Uma bolsa, um anel, o que for. Mas pare com esse drama, ok? Estou cansado."
O cartão de crédito preto brilhava sob a luz do lustre de cristal. Era o símbolo do nosso casamento: ele me dava dinheiro para que eu ficasse quieta. Para que eu aceitasse a indiferença, as humilhações, a solidão.
"Eu não quero seu dinheiro, Marcos. Eu quero ir embora."
"Ir embora para onde?" , ele perguntou, o desprezo evidente em sua voz. "Voltar para aquele seu bairro imundo? Para aquela casinha caindo aos pedaços? Você não duraria uma semana."
A menção da minha origem humilde era a arma preferida dele e de sua família. Eles nunca me deixaram esquecer de onde eu vim, não importava o quanto eu tentasse me encaixar no mundo deles.
Nesse momento, nosso filho de cinco anos, Léo, desceu as escadas correndo. Ele não veio para o meu colo. Passou direto por mim e pulou nos braços de Camila.
"Tia Mila! Você veio brincar comigo?"
Camila o abraçou com força, lançando-me um olhar vitorioso.
"Claro, meu amor! A tia sempre vem brincar com você."
Meu coração se apertou. Eu era a mãe, mas Léo sempre preferiu a tia. Camila o enchia de presentes caros, o levava para passeios extravagantes, fazia tudo o que eu não podia, pois estava sempre ocupada cuidando da casa e das aparências, como Marcos exigia.
Marcos viu a cena e sorriu com satisfação.
"Veja, Luana. Até o Léo sabe quem cuida bem dele. Camila é mais mãe para ele do que você jamais foi."
Aquelas palavras foram a gota d'água. A dor que eu vinha engolindo há anos transbordou.
Eu olhei para ele, a calma em minha voz escondendo a tempestade dentro de mim.
"Você sabe, Marcos" , comecei, e a sala inteira ficou em silêncio. "Você tem razão. Eu não sou uma boa mãe."
Ele sorriu, arrogante, achando que tinha vencido.
"Talvez eu não tenha conseguido ser uma boa mãe para o Léo porque eu estava muito ocupada perdendo nosso outro filho. Sozinha."
O sorriso de Marcos congelou. Camila arregalou os olhos.
"O nosso bebê, Marcos. Aquele que eu perdi há dois anos, enquanto você estava numa viagem de negócios na Europa com a sua assistente. Lembra?"
O ar na sala ficou pesado, irrespirável. Eu tinha guardado essa dor, esse segredo terrível, apenas para mim. Mas agora, eu não aguentava mais.
"Eu não fui uma boa mãe para ele, porque nem tive a chance de segurá-lo. Eu o perdi no chão frio do banheiro desta casa luxuosa. Sozinha."
O silêncio foi quebrado pelo meu soluço, um som que eu não me permitia fazer há dois anos. A máscara de esposa perfeita finalmente se quebrou, revelando a mulher devastada por baixo.
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