
Adeus, Casamento de Aparências
Capítulo 3
A memória daquele dia era como um filme que passava em minha mente sem parar.
A dor aguda na barriga, o sangue escorrendo pelas minhas pernas. Eu estava no chão do banheiro, tentando ligar para Marcos.
O telefone chamou, chamou, e caiu na caixa postal.
Liguei de novo. E de novo.
Finalmente, ele atendeu, a voz irritada do outro lado do mundo.
"Luana? O que foi? Estou no meio de uma reunião importante."
"Marcos, eu… eu acho que estou perdendo o bebê" , consegui dizer, entre lágrimas e soluços de dor.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Depois, a voz dele veio, fria como gelo.
"Você tem certeza? Não pode ser só um alarme falso? Você sempre exagera."
"Não, Marcos, é sério! Tem muito sangue!"
"Ok, ok. Ligue para o motorista. Peça para ele te levar ao hospital. Eu ligo para o Dr. Almeida. Tente não fazer escândalo."
Ele desligou.
Não houve um "você está bem?" , um "aguenta firme, estou voltando" . Nada. Apenas instruções frias, como se eu fosse uma funcionária incompetente que estava atrapalhando seu dia de trabalho.
O motorista me levou ao hospital. Dr. Almeida, o médico da família, já me esperava. Ele foi gentil, mas seu olhar era de pena.
Eu perdi o bebê. Um menino.
Marcos só voltou três dias depois. Ele entrou no quarto do hospital, não olhou para mim. Foi direto falar com o médico no corredor.
Quando voltou, seu rosto era uma máscara de fúria.
"O médico disse que foi estresse. Estresse! Eu te dou tudo, Luana! Tudo! Uma casa, dinheiro, conforto. E você não consegue nem segurar um filho? Qual é o seu problema?"
Ele não chorou pelo filho que perdemos. Ele me culpou por tê-lo perdido.
Naquele momento, algo dentro de mim morreu. O amor, a esperança, a última fagulha de admiração que eu sentia por ele. Tudo se transformou em cinzas.
Eu tive alta dois dias depois. Voltei para a casa vazia e silenciosa. Marcos já tinha ido para o escritório.
Naquela noite, arrumei uma pequena mala. Decidi ir embora. Estava na porta, com a mão na maçaneta, quando ele chegou.
Ele não perguntou para onde eu ia. Ele simplesmente bloqueou a porta.
"Onde você pensa que vai?"
"Embora."
"Não seja estúpida. Sua vida é aqui."
Naquele dia, eu não tive forças para lutar. Eu estava quebrada, vazia. Voltei para dentro e desfiz a mala. Mas a decisão já estava tomada, apenas adiada.
Era irônico pensar que nosso começo tinha sido tão diferente.
Eu o conheci não em uma festa de gala, mas em uma oficina mecânica. Meu fusca velho tinha quebrado no meio da estrada, e eu o empurrei até a oficina mais próxima. Eu estava coberta de graxa e suor.
Ele estava lá, de terno e gravata, esperando seu carro de luxo ser consertado. Ele me olhou, não com desprezo, mas com curiosidade.
"Problemas com o carro?" , ele perguntou, com um sorriso charmoso.
Eu, que sempre fui tímida, respondi com uma ousadia que não sabia que tinha.
"Nada que um pouco de paciência e uma chave de fenda não resolvam."
Ele riu. E ficou ali, conversando comigo por quase uma hora, enquanto o mecânico trabalhava no meu carro.
Ele não parecia o empresário arrogante que eu conheceria mais tarde. Parecia um homem genuinamente interessado, cativado pela minha independência.
Ele pediu meu número. Eu hesitei, mas acabei dando.
Ele me ligou no dia seguinte. E no outro. E no outro. Ele era insistente, quase obsessivo. Mandava flores para o meu trabalho, aparecia de surpresa na minha casa com sorvete, me levava para passeios simples, como andar no parque ou ver o pôr do sol na praia.
Ele dizia que estava cansado das mulheres fúteis do seu círculo social. Dizia que eu era real, que eu era diferente.
Eu me apaixonei por aquele Marcos. O Marcos que parecia me ver de verdade.
Uma vez, estávamos cozinhando juntos no meu pequeno apartamento. Eu me cortei com a faca, um corte fundo no dedo. O sangue jorrou.
Eu entrei em pânico, mas Marcos ficou pálido, mais assustado do que eu. Ele me pegou no colo, me levou para o banheiro, limpou o ferimento com um cuidado desesperado. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
"Não se machuque, Luana. Por favor. Eu não suporto te ver com dor."
Naquele momento, eu acreditei que ele me amava. Acreditei que seu amor era real e profundo.
Casamos seis meses depois. No dia do nosso casamento, na pequena igreja do meu bairro, ele me deu um presente. Era um pequeno pingente de prata, em forma de chave de fenda.
"Para você nunca se esquecer de como nos conhecemos" , ele sussurrou. "E para me lembrar que você é a única que pode consertar meu mundo."
Era o nosso segredo. O nosso símbolo.
Onde estava aquele homem agora? Onde estava aquele amor?
Olhando para o broche de camélia em minhas mãos, eu sabia a resposta.
Ele tinha se perdido em algum lugar entre o primeiro milhão e a arrogância que o dinheiro trouxe. E eu, por oito anos, fingi que não via.
Mas agora, meus olhos estavam abertos. E eu não podia mais fingir.
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