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Capa do romance Adeus, Alfa. Não Sou Mais Sua Bolsa de Sangue

Adeus, Alfa. Não Sou Mais Sua Bolsa de Sangue

Zarelle Feymere, herdeira da dinastia lupina mais poderosa, amou o Alfa Calden Ashmoor, que a usou apenas como fonte de sangue raro para curar sua antiga paixão. Após três anos de humilhações e drenagens constantes em um casamento frio, ela descobre traições e decide partir. Zarelle abandona o disfarce de ômega frágil para assumir seu trono na Alcateia Missatiana. Agora, a mulher desprezada retorna como uma rainha implacável em busca de justiça e poder.
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Capítulo 2

POV de Zarelle

O mundo se reduziu ao espaço entre nossas respirações.

A máscara de controle do Calden escorregou - só por um instante - mas eu vi. Seu olhar penetrante percorreu meu rosto como se ele pudesse rastrear fisicamente a origem da minha traição. O grande Alfa, momentaneamente atordoado pela insubordinação da sua loba mais fraca.

Eu quase conseguia ouvir seus pensamentos: a Ômega desesperada que havia trocado seu sangue raro por proteção - o que lhe dava o direito de fazer exigências agora?

"Explica." A ordem dele vibrava nos meus ossos, carregada do poder de Alfa.

"Não tenho mais nada a dizer." Mantive minha voz firme apesar da tempestade dentro de mim. "Vou dar meu sangue para a Thessaly. Mas esse é o meu preço."

Meus dedos se fecharam nas palmas, as unhas cravando na pele. Olhei para o equipamento médico atrás dele - para qualquer lugar, menos aqueles olhos dourados que enxergavam demais.

"A gente tinha um acordo!" Um rosnado ecoou do fundo do peito dele, o brilho âmbar do lobo dele sangrava para dentro das íris.

"E estou quebrando." Finalmente encarei o olhar dele, levantando o queixo. "Me entregue ao Conselho. Tire meu título. Não me importo."

Pela primeira vez em três anos, algo passou pelo rosto dele que não era raiva nem desdém. Algo quase como... Não. Eu não ia cair nessa armadilha de novo.

Ele esperava o de sempre - minha submissão silenciosa, meus ombros curvados, meus olhos desviando. Não isso. Nunca isso.

Um músculo pulou em sua mandíbula enquanto ele me observava, seu cheiro ficando acre com emoções conflitantes.

"Ótimo." A palavra saiu seca, com uma ponta que podia ser relutância. "Você trouxe os papéis?"

A pergunta me atingiu como um golpe físico. Claro que ele perguntaria pela logística antes das razões. Eficiência acima de emoção - essa era a essência de Calden Ashmoor.

"Ainda não." Minha voz mal se sustentou.

O olhar dele se aprofundou em mim, como se tentasse decifrar se as rachaduras na minha resolução eram reais ou apenas mais uma manipulação.

Então, com a mesma firmeza de um martelo de juiz: "Beta Aldrin - prepare os documentos do divórcio."

O mundo girou no próprio eixo.

O consentimento imediato dele não deveria ter me chocado - mas chocou. A irreversibilidade disso roubou meu fôlego, deixando o quarto do hospital perturbadoramente vazio. Pisquei para afastar lágrimas traiçoeiras, erguendo o queixo como se tivesse ensaiado isso a vida inteira.

O Beta Aldrin voltou rápido demais, os papéis do divórcio nas mãos como uma sentença de morte.

Calden assinou sem hesitar, sua assinatura um traço brutal de tinta na página. Por um segundo fugaz, achei que vi algo - qualquer coisa - brilhar naqueles olhos dourados. Mas desapareceu antes que eu pudesse nomear, substituído por aquela calma irritante de Alfa.

"Feito." Ele deslizou o documento para dentro de um envelope com precisão clínica. "O Conselho vai processar isso até o pôr do sol. Não demore."

Meus dedos tremeram ao guardar minha cópia; o papel queimava como gelo contra minha pele. Três anos de olhares roubados e desejos não ditos, reduzidos a duas assinaturas.

"A Thessaly está esperando." Ele virou nos calcanhares, já seguindo em frente.

Eu o segui entorpecida, meu pulso um ritmo descompassado na garganta.

É isso. Eu não devia ter esperado nada dele desde o começo.

A suíte VIP cheirava a rosas e falsidade. Thessaly estava recostada como uma rainha mimada, seu roupão de seda artisticamente disposto para realçar cada curva. A curandeira idosa cochilava num canto, exausta depois de cuidar da "condição crítica" dela.

"Calden!" A voz dela pingava mel envenenado, os olhos brilhando - até pousarem em mim. Um leve franzido. "Querido, eu te disse que não precisava-"

Uma tosse falsa. Um suspiro teatral.

Calden ignorou a atuação dela. "A Zarelle está aqui. Vamos acabar logo com isso."

Me adiantei antes que ele pudesse me ordenar. O sorriso superior de Thessaly vacilou quando me inclinei -

- e arraquei a atadura da testa dela.

O cheiro me atingiu primeiro: antisséptico e pele intacta. Sem sangue. Sem ferimento.

"Zarelle!" O rugido de Calden fez as janelas tremerem, a pegada dele foi brutal ao me puxar de volta.

O grito de Thessaly foi puro melodrama. "Como você ousa?!"

Mas eu já girava na direção de Calden, enfiando a gaze imaculada no rosto dele.

"Sente isso, Alfa? Nada de sangue. Só mais uma mentira." Minha voz falhou sob o peso de mil verdades nunca ditas. "Quantas vezes você me fez sangrar por nada?"

Um silêncio mortal encheu o ambiente quando o olhar de Calden se fixou no médico humano que tremia. O ar ficou denso com o fedor acre de suor de medo e enganação.

"Explique."

Apenas uma palavra, mas carregada com toda a fúria de um Alfa. O doutor Patel estremeceu como se tivesse sido atingido, os dedos agarrados no jaleco. Disparou o olhar para Thessaly – um sinal tão óbvio quanto um coelho sangrando em território de lobos.

"Alfa, eu... eu só segui ordens", ele gaguejou.

Calden deu um único passo à frente. O médico se encolheu, o pulso saltando visível em sua garganta.

"De. Quem." Cada sílaba pingava com uma calma letal.

O perfume de Thessaly ficou enjoativo quando ela se remexeu na cama. "Calden, querido–"

Um gesto brusco a silenciou. Até a queridinha de ouro da alcateia sabia que não era hora de testar a paciência de um Alfa.

"A senhorita Ashmoor disse que o senhor queria os registros falsificados! Disse que precisava que a Luna Zarelle fosse convocada!" A voz dele falhou. "Ela ameaçou minha licença médica... minha família..."

Um segundo de silêncio atônito.

Depois – "E o meu sangue?" Minha voz cortou a tensão como prata rasgando carne. "O que aconteceu com o que você tirou de mim?"

O olhar do médico caiu para o chão. "Revendido. RH negativo tem... um bom preço no mercado negro."

A fachada perfeita de Thessaly se estilhaçou. "Mentira! Tudo isso é mentira!" Seus dedos impecavelmente manicurados se retorceram nos lençóis. "Calden, você não pode acreditar–"

Não esperei o showzinho. Com um toque, enviei a foto condenatória para o celular de Calden.

A vibração do aparelho pareceu ensurdecedora no silêncio carregado.

"Sua equipe de segurança pode rastrear o remetente", disse com calma, embora meu pulso rugisse nos meus ouvidos. "Mas acho que é fácil adivinhar quem tirou essa foto."

A voz de Calden caiu para um sussurro letal. "De onde isso veio?"

Encarei-o sem recuar. "Pergunte à sua futura Luna."

A máscara de Thessaly escorregou por um instante – uma rachadura em sua porcelana perfeita – antes que ela convocasse outra onda de vulnerabilidade calculada. Seus cílios bateram como borboletas feridas.

Não esperei pela encenação. "Nosso acordo acabou", disse, me virando para a porta. "Vai ter que achar outra bolsa de sangue."

Atrás de mim, o médico correu para a saída como um rato fugindo de um navio afundando.

Então – o baque dramático de joelhos atingindo o linóleo.

"Calden... eu não..." A respiração de Thessaly vinha em suspiros teatrais enquanto ela desabava. Sua mão agarrou a manga dele. "É como... como quando Daelen..."O nome atingiu como uma bala de prata.

Senti Calden enrijecer antes mesmo de vê-lo - o jeito como seus ombros travaram, o tremor quase imperceptível em suas mãos. Daelen. Seu irmão perdido. Uma lembrança sobre alguns lobos leais que nunca voltaram para casa.

Thessaly se deixou amolecer contra ele, a perfeita imagem de uma donzela desmaiando.

O elevador tilintou.

Entrei, contando os segundos agonizantes. Um. Dois. Três.

Silêncio.

Nenhum passo trovejante. Nenhuma ordem de um Alfa sacudindo as paredes. Apenas o eco vazio do meu próprio coração.

Meus lábios se curvaram em algo afiado demais para ser um sorriso. Três anos sangrando por ele, e eu não merecia nem uma despedida. Era de fato a decisão certa me divorciar dele.

A única coisa errada foi ter desperdiçado três anos para chegar a isso.

O ar da garagem cheirava a gasolina e couro polido. O Bugatti de Calden repousava em sua vaga, elegante e intocável - exatamente como seu dono.

Então eu o vi.

O Rolls-Royce Phantom. Da cor de fumaça. Ostentando o brasão da Alcateia Missatiana.

Meus dedos deslizaram pelo ornamento do capô - um lobo uivando envolto em espinhos. O símbolo do meu verdadeiro direito de nascença.

Para essa alcateia, eu era Zarelle Stormy - a Ômega descartável.

Mas o motorista, inclinando-se diante de mim, sabia a verdade. "Bem-vinda, Herdeira Feymere."

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