
A Vinha Do Destino
Capítulo 2
O sol da tarde banhava a propriedade com uma luz dourada, realçando o verde vibrante dos vinhedos e o marrom suave dos caminhos de terra. Ha-Jun conduziu os cavalos para fora do estábulo, suas crinas brilhando sob o céu claro. Ji-Hye observava, admirando a forma como ele se movia com confiança e facilidade.
— Vou ajudá-la a montar — disse Ha-Jun, estendendo a mão para Ji-Hye.
Ela aceitou a ajuda, sentindo a firmeza do aperto de Ha-Jun enquanto subia no cavalo. Uma vez acomodada, ela puxou as rédeas suavemente, e eles partiram para o passeio.
— Fizemos algumas mudanças nas técnicas de plantio este ano — começou Ha-Jun, apontando para as fileiras de videiras. — Estamos experimentando com novos padrões de poda para melhorar a qualidade das uvas.
— Parece promissor — respondeu Ji-Hye, impressionada com o conhecimento dele.
Eles continuaram a conversar, Ha-Jun compartilhando detalhes sobre os funcionários e as inovações na vinícola, enquanto Ji-Hye ouvia, aprendendo mais sobre a vida que pulsava naquelas terras.
— E você, Ji-Hye-ssi? Como é a vida de uma sommelier renomada? — perguntou Ha-Jun, lançando-lhe um olhar curioso.
— É uma vida de constante aprendizado e paixão pelo vinho — ela disse, sorrindo. — Mas também é bom estar de volta, sentir a terra sob meus pés novamente.
O passeio continuou, com os cavalos trotando lado a lado, e Ji-Hye sentiu uma paz que há muito não experimentava.
A casa dos pais de Ha-Jun emergia como um relicário de tempos mais simples, aninhada entre as montanhas que guardavam a vinícola. Era uma construção típica da Borgonha, com paredes de pedra rústica e telhado de telhas vermelhas que pareciam ter absorvido o calor do sol ao longo dos anos. O jardim era um mosaico de flores silvestres e ervas aromáticas, e uma pequena horta se estendia ao lado da casa, onde vegetais e verduras cresciam sob o cuidado atento de mãos experientes.
— Meus pais sempre viveram aqui — disse Ha-Jun, com um brilho de orgulho nos olhos. — Eles trabalham duro nos vinhedos, e graças ao seu pai, eu pude estudar e me tornar quem sou hoje.
Ji-Hye sentiu uma onda de respeito e admiração pelo jovem enólogo. Ele falava de sua família com tanto carinho e gratidão que era impossível não ser tocada por sua maturidade.
— É uma bela casa, Ha-Jun. Você tem muita sorte — comentou Ji-Hye, seu olhar percorrendo a paisagem que parecia saída de um cartão-postal.
— Sim, eu sou grato todos os dias — respondeu ele, com um sorriso sincero. — E espero que um dia eu possa contribuir tanto para esta terra quanto ela me deu.
Enquanto os cavalos pastavam tranquilamente, Ji-Hye refletia sobre as voltas que a vida dava. Ali, diante daquela casa simples e cheia de amor, ali sim era um lar, no passado ela sonhava em viver assim só que a vida tinha outros planos para ela.
A luz do entardecer dava um tom âmbar ao vinho que Ha-Jun servia com orgulho. Ji-Hye observava, fascinada, enquanto o líquido rubi preenchia a taça, liberando aromas de frutas maduras e terra molhada.
— Este é um dos nossos melhores vinhos da próxima estação — disse Ha-Jun, entregando-lhe a taça com um gesto elegante. — Espero que goste.
Ji-Hye levou a taça aos lábios, e o sabor era uma revelação. Era um vinho equilibrado, com notas de cereja e um toque sutil de carvalho, que dançavam na língua antes de se despedirem com um final longo e agradável.
— É incrível — murmurou ela, ainda saboreando a última gota. — Como vocês conseguiram essa qualidade?
Ha-Jun sorriu, claramente satisfeito com a reação dela.
— É o resultado de muita dedicação e inovação. Selecionamos cuidadosamente as uvas, ajustamos os tempos de fermentação e experimentamos com diferentes barris de envelhecimento. Tudo para garantir que cada garrafa conte a história de nossa terra.
Ji-Hye assentiu, impressionada. O vinho não era apenas uma bebida; era a expressão líquida da paixão e do conhecimento de Ha-Jun, uma homenagem à tradição e à inovação que definiam a vinícola de sua família.
A presença do pai trouxe uma nova onda de realidade para Ji-Hye, que até então se deixava levar pela tranquilidade dos vinhedos e pela companhia de Ha-Jun. A menção de Londres, uma cidade que agora carregava as sombras de seu passado, fez seu coração acelerar.
— Ji-Hye, no próximo mês, Ha-Jun irá a Londres para finalizar um contrato importante — disse o pai, com um tom de voz que indicava que não era apenas uma sugestão. — Seria bom se você o acompanhasse, já que conhece bem a cidade.
Ji-Hye sentiu um nó se formar em sua garganta. Londres era o palco de suas conquistas profissionais, mas também das memórias de um casamento desfeito e fracassado.
— Eu... eu não sei, Appa — gaguejou ela, tentando esconder sua hesitação. — Não fazia parte dos meus planos retornar tão cedo.
O pai a olhou com compreensão, mas havia uma firmeza em seu olhar que dizia que ele não aceitaria um não como resposta.
— Ji-Hye, você precisa cuidar do seu marido. E Ha-Jun se beneficiará muito da sua experiência.
Ha-Jun observava a troca silenciosa entre pai e filha, percebendo a tensão que crescia.
— Ji-Hye-ssi, eu realmente apreciaria sua ajuda — interveio ele, com gentileza. — Mas só se você se sentir confortável com isso.
Ji-Hye sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar a situação m. Talvez essa fosse a chance de fechar um capítulo e começar outro, com novas esperanças e, quem sabe, novas alianças.
— Nesse meio tempo estudem o contrato, para mim está tudo em ordem, quero sua opinião Ji-Hye — Disse o senhor Kim já encerrando o assunto.
A atmosfera ao redor de Ji-Hye tornou-se densa com o peso de pensamentos não ditos. Ha-Jun, percebendo a mudança sutil em sua postura, escolheu não abordar o desconforto evidente, oferecendo-lhe um silêncio solidário. Ji-Hye, por sua vez, mergulhou em um mar de silêncio pelo resto da conversa, cada palavra não dita formando uma barreira entre ela e a possibilidade de retornar a Londres.
Ela carregava consigo segredos que sua família desconhecia, e a ideia de confrontar Marcel, seu ex-marido, drenava dela qualquer vestígio de força. Em sua mente, a simples menção de Londres evocava uma tempestade de emoções, cada uma batendo contra ela com a força de ondas em fúria. Era um confronto que ela não se sentia pronta para enfrentar, uma batalha interna que a deixava paralisada pela incerteza e pelo medo.
Ji-Hye deixou-se perder nos caminhos sinuosos da propriedade, ela precisava por a cabeça no lugar, a cada passo um eco de risadas e corridas de uma infância despreocupada. Os campos de uva se estendiam como um mar verdejante, onde ela outrora brincava de esconde-esconde entre os barris de carvalho, seu riso se misturando com o sussurro das folhas.
A Borgonha, com suas colinas suaves e céu que parecia pintado em tons de azul e laranja ao entardecer, era um quadro vivo da beleza rústica. As cachoeiras, escondidas como joias entre as dobras das montanhas, eram o refúgio secreto de Ji-Hye durante sua adolescência rebelde, apesar dos olhares reprovadores de sua mãe.
Era ali, naquela terra de vinhedos famosos e tradições ancestrais, que Ji-Hye encontrava conforto nas memórias de um tempo mais simples, um tempo de alegria pura e descobertas. A Borgonha não era apenas o lugar onde ela cresceu; era uma parte indelével de quem ela era, tecida em sua alma como as vinhas nas colinas.
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