
A Vingança de Isabela
Capítulo 3
Naquela noite, eu mal consegui dormir. A imagem da lhama me encarando com os olhos de Sofia não saía da minha cabeça. Pedro insistiu que o animal ficasse, dizendo que eu "só precisava de um tempo para me acostumar" . Ele a colocou em um cercado improvisado no jardim dos fundos, perto da porta de vidro da sala de estar.
Por volta das três da manhã, um barulho me acordou.
Levantei em silêncio, sem acordar Pedro, que dormia profundamente ao meu lado. Fui até a janela do nosso quarto, que dava para o jardim.
A lhama, que Pedro carinhosamente chamou de "Branquinha" , estava fora do cercado. A tranca estava arrebentada.
Mas não foi isso que me chocou.
Ela estava parada em frente ao meu canteiro de rosas, as mesmas rosas que ganhei um prêmio em um concurso de jardinagem local. Eram meu orgulho e minha alegria.
Com uma precisão assustadora, a lhama estava arrancando cada rosa, uma por uma, com a boca. Ela não as comia. Ela as mastigava até virarem uma polpa e depois cuspia no chão, como se estivesse destruindo tudo de propósito, com ódio.
Meu sangue gelou. Aquilo não era comportamento de um animal. Era um ato de vandalismo deliberado. Era a Sofia me provocando.
Corri para baixo, abri a porta de vidro e gritei.
"O que você está fazendo?"
A lhama virou a cabeça lentamente na minha direção. Seus olhos escuros brilhavam na luz fraca da lua. E então, ela fez algo que fez meu coração parar.
Ela sorriu.
Não era um espasmo animal ou um movimento aleatório dos músculos faciais. Era um sorriso humano, um levantar de lábios que mostrava os dentes em um gesto de puro escárnio. Era o sorriso de Sofia.
Eu gritei, um som estrangulado de puro terror, e tropecei para trás, caindo no chão da sala.
O barulho acordou Pedro. Ele desceu as escadas correndo, vestindo apenas uma calça de pijama.
"Isabela! O que foi? O que aconteceu?"
Ele me viu no chão, pálida e tremendo, e depois olhou para o jardim. Ele viu a lhama fora do cercado e minhas rosas destruídas.
"Merda! Como ela saiu?"
Ele correu para fora para prender o animal, sem nem mesmo me ajudar a levantar.
Eu apontei para a lhama, a voz trêmula.
"Pedro... ela... ela sorriu para mim. Eu juro, ela sorriu!"
Pedro conseguiu colocar a lhama de volta no cercado e trancou a porta com mais força. Ele voltou para dentro, o rosto irritado.
"Sorriu? Isabela, pelo amor de Deus, pare com isso! É um animal! Lhamas não sorriem!"
"Mas eu vi! Não era um sorriso normal, era... era mau! Era como uma pessoa!"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo em um gesto de impaciência. Era o mesmo gesto que ele fazia sempre que eu o contrariava. Era o começo do "gaslighting", a tática dele de me fazer duvidar da minha própria sanidade.
"Você teve um pesadelo, meu amor. Você está estressada com o aniversário, só isso. Volte para a cama."
"Não foi um pesadelo! Eu estava acordada! Aquela coisa destruiu minhas rosas de propósito!"
"Ela é um animal, Isabela! Animais fazem coisas estúpidas! Não foi de propósito! Você está exagerando as coisas de novo."
No dia seguinte, liguei para a Lívia, desesperada. Na minha vida passada, ela era a pessoa para quem eu corria.
"Lívia, você não vai acreditar no que aconteceu" , comecei, a voz ainda trêmula.
Contei a ela sobre as rosas e sobre o sorriso aterrorizante. Esperei por uma palavra de conforto, de validação.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Isa... você tem certeza do que viu?" a voz dela era cautelosa. "Quer dizer, um sorriso? Talvez fosse só a luz, ou você estava sonolenta... Lhamas são meio esquisitas, sabe?"
Suas palavras foram como um balde de água fria. Ela não acreditou em mim. Claro que não. Ela era cúmplice.
"Eu sei o que eu vi, Lívia."
"Ok, ok, calma. Mas você não acha que está pegando pesado demais com o Pedro? Ele só queria te dar um presente. Talvez você devesse tentar... se dar bem com a lhama. Dê uma chance a ela."
Desliguei o telefone sentindo um nojo profundo. A amizade delas era uma piada de mau gosto. Eu estava completamente sozinha nisso.
Mais tarde, Pedro chegou em casa com um buquê de rosas vermelhas compradas em uma floricultura. Um substituto barato para as que a amante dele destruiu.
"Olha, meu amor. Para compensar o acidente de ontem à noite" , ele disse, me entregando as flores com um sorriso que não alcançava seus olhos. "Eu sei que você ficou chateada. Me desculpe. Mas você precisa entender, a Branquinha é só um animal inofensivo."
Ele me abraçou, um abraço frio e controlador.
"Eu não quero que a gente brigue por causa disso. Nós somos um casal, temos que nos apoiar. Não deixe uma coisinha boba como essa estragar nosso aniversário."
Suas palavras eram um veneno doce. Ele me acalmava e me ameaçava ao mesmo tempo. A mensagem era clara: cale a boca e aceite.
Naquela noite, eu não consegui ficar em casa. Inventei uma dor de cabeça e disse que precisava de ar fresco. Saí para caminhar, mas na verdade, voltei e me escondi nos arbustos do outro lado da rua, de onde eu podia ver a janela da nossa sala.
Eu precisava de provas. Precisava confirmar a loucura que eu sabia ser verdade.
E então, eu vi.
Pedro estava na sala com a lhama. Ele a tinha soltado do cercado de novo. Ele estava ajoelhado na frente dela, segurando meu colar de pérolas, o colar que minha mãe me deu antes de morrer. Era a minha joia mais preciosa.
Ele estava tentando colocar o colar no pescoço grosso e peludo da lhama.
"Você vai ficar linda com isso, Sofia" , ouvi a voz dele, abafada pelo vidro da janela. "É muito melhor do que aquela insossa da Isabela. Mas logo, logo, isso não será mais um problema. No aniversário, você terá o corpo dela. Um corpo saudável, perfeito para termos mais filhos."
Meu coração parou de bater. Eu já sabia do plano, mas ouvir as palavras saindo da boca dele, com tanta frieza e crueldade, foi como ser esfaqueada de novo.
"E o filho dela?" , a voz de Lívia soou. Ela tinha chegado sem que eu percebesse e estava parada ao lado de Pedro.
"O Lucas? Ele vai finalmente ter a mãe que merece. A verdadeira mãe dele" , Pedro respondeu. "E com a herança da Isabela, seremos a família mais poderosa da cidade. O pai dela nem vai saber o que o atingiu."
Fiquei ali, agachada no escuro, o corpo tremendo não de medo, mas de uma fúria gelada e absoluta.
Eles não iam apenas me matar. Eles iam roubar meu corpo, meu filho (que eles planejavam ter usando meu corpo), minha herança, minha vida inteira.
A dor da traição era imensa, uma ferida aberta na minha alma. Mas por baixo da dor, algo novo e duro começava a se formar.
Uma determinação de ferro.
Eles achavam que eu era fraca. Achavam que podiam me destruir.
Eles estavam terrivelmente enganados.
Eu voltei para casa em silêncio, o rosto uma máscara de normalidade. Pedro e Lívia já tinham guardado o colar e prendido a lhama. Eles agiram como se nada tivesse acontecido.
Mas eu sabia. E o conhecimento era meu poder.
A guerra tinha começado. E eu não ia perdê-la.
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