
A Vingança da Minha Alma
Capítulo 2
A porta do terraço se abriu com tanta força que bateu na parede e voltou meia vez, como se até o vento tivesse medo do que ia encontrar ali.
A tempestade entrou junto — molhada, brutal, viva.
E, no meio dela…
ele.
Ezequiel Alves.
Encharcado.
Ofegante.
Com o olhar em chamas.
Os cabelos colados na testa, a camisa grudada no peito, a respiração curta — como se tivesse subido os vinte andares correndo.
— A-ma-ra… — a voz dele saiu arranhada, rasgada, quase um grito.
Ele viu tudo ao mesmo tempo:
A poça de sangue.
A faca na mão de Clara.
O terno branco de Adriano sem uma mancha sequer.
E eu…
Eu caída, dobrada sobre mim mesma, o vestido manchado de vermelho até a cintura.
O mundo dele parou.
Não diminuiu.
Parou.
— MEU DEUS… — ele arfou, correndo até mim, mas algo se moveu rápido entre nós.
Clara.
— FICA PARADO! — ela gritou, desesperada, a faca ainda tremendo na mão.
Ezequiel travou. Os olhos dele saltaram do meu corpo para a lâmina, depois para o rosto dela.
— Você… — ele engoliu seco, a voz baixa, perigosa. — O que você fez?
Clara tinha o rosto manchado de rímel, o batom borrado, o peito subindo e descendo como se fosse desmaiar.
Era o retrato perfeito da culpa tentando virar inocência.
— O que eu fiz?! — ela apontou para mim, a voz quase histérica. — Foi ele!
— O quê?! — Ezequiel quase riu de incredulidade.
— Eu vi! — Clara insistiu, aumentando o tom. — Eu vi você atacando ela, Ezequiel! Você sempre foi obcecado! Sempre seguiu ela como um cachorro! E agora surtou! Eu vi!
As palavras batiam no ar como granadas mal jogadas.
Ezequiel deu um passo à frente — e Adriano entrou na cena.
O terno impecável.
O cabelo alinhado.
O rosto frio.
— É isso mesmo. — disse ele, como quem lê um script já ensaiado. — Foi ele.
Clara agarrou a chance como se fosse ouro.
— FOI ELE! — repetiu, agora com lágrimas convenientemente bem colocadas. — Ele tentou matar ela! Eu vi!
Ezequiel arregalou os olhos, incrédulo.
— Seu demônio… — ele sussurrou para Adriano. — Você realmente vai fazer isso?
Adriano deu de ombros, calmíssimo, como se a minha vida — a NOIVA dele — fosse uma nota fiscal amassada.
— Eu só estou contando a verdade — disse ele, com um sorriso pequeno, venenoso. — Você sempre foi apaixonado por ela. Era questão de tempo até surtar.
Ezequiel fechou as mãos em punho.
Mas Clara foi mais rápida:
Ela se jogou contra ele, bloqueando a passagem, a faca erguida como um aviso.
— NÃO encosta nela! — gritou. — EU vi você fazendo isso! Eu vou dizer pra polícia! Eu juro que vou!
A palavra “polícia” bateu nele como soco.
Ele olhou de Clara para Adriano — e viu.
O plano.
A armadilha.
A farsa perfeita.
Eles iam me matar.
Iam colocá-lo como responsável.
Iam sair como vítimas chorosas no jornal da manhã seguinte.
Ele deu um passo para o lado, tentando se aproximar.
— Sai da minha frente, Clara — disse, a voz grave, carregada — ou eu juro por Deus que…
— OU O QUÊ?! — ela berrou. — Vai me MATAR também?!
Ela mostrou a faca, trêmula, mas firme o suficiente para cortar.
O rosto dela era um teatro de medo fingido.
Ezequiel respirou fundo.
Olhou para mim.
E quase desabou.
— Amara… — ele chamou, a voz quebrada. — Eu tô aqui… eu tô aqui, me escuta…
Meus olhos se mexeram um pouco — o suficiente.
— Não deixa ela falar! — Adriano rosnou para Clara. — Não deixa ela dizer nada!
A faca se aproximou ainda mais.
Ezequiel endireitou a postura, molhado, ferido, tremendo — mas firme.
— Se vocês tocarem nela outra vez… — ele disse, a voz tão baixa que pareceu um trovão — …eu acabo com vocês dois.
Adriano riu.
— Acaba? Com a faca dela apontada pra sua garganta? Você é mesmo um idiota.
Ezequiel avançou meio passo.
Clara levantou a faca pronta pra qualquer movimento.
— ELA VAI MORRER! — Clara gritou, com a voz rasgando. — E VOCÊ TAMBÉM!
O vento uivou.
A chuva engrossou.
E o trovão respondeu.
Ezequiel cerrou os dentes.
— Primeiro você vai ter que tentar. E vai se arrepender do resultado.
O cheiro de sangue, chuva e desespero tomou o terraço inteiro.
Adriano sorriu.
Clara ergueu a faca.
E foi assim, no exato segundo antes do primeiro golpe —
que o inferno finalmente abriu as portas.
Clara ergueu a faca.
O metal brilhou no clarão de um relâmpago, iluminando o rosto dela — um sorriso torto, enlouquecido, distorcido pela chuva e pelo ódio.
— Hoje todo mundo morre. — ela cuspiu, com os olhos arregalados. — A princesinha… e o cachorro atrás dela!
Ezequiel nem pensou.
Ele partiu para cima dela como quem pula num abismo que já decidiu morrer dentro.
Clara gritou. A lâmina desceu. Ezequiel desviou no último segundo — a faca cortou apenas o ar e o vento uivou junto.
Ele agarrou o braço dela. Ela tentou se soltar. Os dois escorregaram no piso molhado. E, por um instante, tudo virou um caos de corpos, chuva e sangue.
— SOLTA! — Clara berrava, salivando de raiva. — SOLTA, SEU DESGRAÇADO!
— JOGA A FACA, CLARA! — Ezequiel rugiu de volta. — AGORA!
— NUNCA!
A lâmina passou rente ao rosto dele — milímetros.
Cortou o canto da sobrancelha.
O sangue escorreu quente, se misturando à tempestade.
Ele não hesitou.
— DESGRAÇADA! — rosnou, segurando o pulso dela com força.
Ela chutou a costela dele. Ele curvou o corpo. Gemido preso. Dor atravessando.
Mas não soltou.
Clara era pequena.
Mas o ódio fazia dela gigante.
Ela se contorcia como animal selvagem, o cabelo colado ao rosto, a voz rouca:
— Ela sempre teve TUDO! E agora NENHUM DE VOCÊS vai ter MAIS NADA!
Ela tentou enfiar a faca no pescoço dele.
Ezequiel segurou o braço a centímetros da própria garganta. A tensão era tão forte que os músculos dos dois tremiam.
— VOCÊ VAI PAGAR! — Clara gritava. — VOCÊ vai ser o culpado! VÃO TE PRENDER! VÃO TE MATAR NA CADEIA! E EU vou dizer que vi TUDO!
Ezequiel, arfando, lançou o olhar para Adriano — que apenas assistia.
Arms cruzados.
Cuidado com o terno.
Zero intenção de ajudar.
Apenas sádica curiosidade.
— Ajuda ela, então! — Ezequiel provocou, com raiva cuspida entre os dentes. — Covarde!
Adriano sorriu.
— Ela está indo muito bem sem mim.
Clara, inflamada pelo elogio, gritou de novo —
e tentou cortar o rosto de Ezequiel.
Ele bloqueou com o antebraço.
A lâmina rasgou a pele.
Um filete de sangue espirrou no chão.
A dor subiu como uma linha de fogo.
Mas a raiva veio maior.
Ele segurou a faca pelo cabo, tentando arrancar das mãos dela.
Clara mordeu.
Sim, mordeu.
Cravou os dentes na mão dele como fera, arrancando um grunhido de dor.
— LOUCA! — ele berrou.
Ela riu. Loucamente.
— Você não sabe o que é perder, Ezequiel! Eu perdi minha vida inteira! E eu vou levar a dela junto! E depois a SUA!
Ela levantou a faca de novo.
Relâmpago.
Trovão.
O mundo em suspense.
E então Ezequiel fez o que precisava —
mesmo sabendo que nunca mais dormiria em paz por causa disso.
Ele virou o corpo, puxou o braço dela com força, usando o peso dela contra ela mesma.
Clara perdeu o equilíbrio.
Escorregou.
Os saltos bateram no chão molhado.
Ela tombou para trás — e se chocou violentamente contra a quina de concreto do parapeito.
O impacto ecoou como estalo de osso quebrado.
O som foi seco.
Crítico.
Final.
A faca caiu da mão dela.
Escorregou no chão.
Girou.
Parou na beirada da calha, onde a chuva a empurrou devagar, gota por gota, até jogar lá embaixo.
Clara ficou imóvel por um segundo.
Os olhos abertos.
A boca entreaberta.
E então o sangue começou a escorrer pela nuca.
Lento.
Vermelho.
Fatal.
Adriano arregalou os olhos.
— Clara?! — ele gritou, finalmente reagindo. — CLARA!
Mas já era tarde.
A mulher que destruiu minha vida…
…agora estava caída, a cabeça inclinada num ângulo impossível, a chuva lavando o rosto dela como se o céu tivesse pena.
Ezequiel ficou parado, ofegante, o sangue escorrendo do braço, da sobrancelha, dos dedos.
A expressão dele era uma mistura de horror, dor e… inevitável.
— Eu te avisei… — ele disse, a voz baixa, rouca, quebrada. — Eu tentei… eu juro que tentei…
Adriano virou o rosto para Ezequiel com ódio animal —
e o inferno recomeçou dentro dele.
— VOCÊ MATOU ELA! — ele rugiu. — SEU DESGRAÇADO, VOCÊ MATOU A MINHA MULHER!
A ironia escorria como veneno.
— Ela nunca foi sua mulher. — Ezequiel respondeu, erguendo o corpo, ainda arfando. — Mas Amara…
Ele olhou para mim.
— …Amara era meu mundo.
Adriano avançou.
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