
A Última Nota do Amor Perdido
Capítulo 2
"Tio Tiago, queria que você fosse meu pai."
A voz do meu filho Léo, de sete anos, chegou aos meus ouvidos.
Eu estava parado do lado de fora da sala, segurando os ingressos para o show de rock que ele tanto queria. Os ingressos eram caros, mas eu não me importava, só queria ver meu filho feliz.
Mas a frase dele me paralisou.
O coração pareceu parar por um segundo.
Espiei pela porta entreaberta. Léo estava abraçado à perna de Tiago, meu cunhado, o ex-namorado da minha esposa Isabela. Tiago sorria, um sorriso de superioridade, enquanto passava a mão no cabelo do meu filho.
"Ah, é? E por que você queria isso, campeão?", Tiago perguntou, com a voz cheia de um falso carinho que me dava nojo.
"Porque você é legal, você tem carros rápidos e sua música é a melhor. O papai só sabe daquela música de velho."
Senti um frio percorrer meu corpo. Aquele era meu filho, meu sangue.
Entrei em casa em silêncio, guardando os ingressos no bolso. Ninguém notou minha chegada. A cena na sala era a de uma família feliz, mas eu não fazia parte dela.
Fui para a cozinha e o cheiro de moqueca capixaba encheu o ar. Era o prato favorito de Tiago. Em oito anos de casamento, Isabela nunca, nem uma única vez, cozinhou para mim.
Ela estava de costas, concentrada no fogão. Tiago se aproximou dela, abraçando-a por trás. Ela não se afastou, pelo contrário, inclinou a cabeça para trás, descansando no ombro dele.
"O cheiro está incrível, Bela", disse ele, a voz baixa.
"Fiz para você", ela respondeu, sorrindo.
Senti-me um fantasma na minha própria casa.
A mesa de jantar estava posta. Para três pessoas. Isabela, Tiago e Léo. Não havia lugar para mim.
Isabela finalmente me viu, parado ali. Seu sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de aborrecimento.
"Ah, você chegou, Lucas. Por que não avisou?"
A pergunta era uma acusação. Como se eu precisasse de permissão para entrar na minha casa.
"Eu moro aqui", respondi, a voz mais firme do que eu esperava.
Tiago riu. "Calma, cara. A casa é grande, mas o clima está ficando pequeno."
Léo correu até mim, mas não para me abraçar. Ele apontou para os meus sapatos.
"Pai, você está sujando o chão. A mamãe acabou de limpar."
Olhei para baixo. Havia um pouco de poeira nos meus sapatos. Nada demais. Mas nos olhos do meu filho, era um crime.
"E essa sua música de samba é horrível. Música de velho. A do Tio Tiago é que é boa", ele continuou, repetindo o que eu já tinha ouvido.
Cada palavra era uma facada.
Isabela nem sequer me defendeu. Ela apenas disse: "Léo, não fale assim com seu pai. Vá lavar as mãos para o jantar."
Ela se virou para mim. "Lucas, coma alguma coisa na cozinha. A mesa está posta para nós."
"Nós?", perguntei, sentindo a raiva subir.
"Sim, nós. Tiago veio nos visitar. Não seja inconveniente."
Olhei para a mesa, para a moqueca, para o sorriso vitorioso de Tiago. Olhei para o meu filho, que me olhava com vergonha.
E então olhei para os ingressos no meu bolso. O presente que eu tinha comprado com tanto esforço. Um presente que agora parecia uma piada.
Dei meia-volta e saí de casa.
Não disse para onde ia. Ninguém perguntou.
Enquanto caminhava pela rua, sentindo a humilhação queimar no peito, uma decisão se formou na minha mente, fria e clara como gelo.
Eu ia pedir o divórcio.
Você pode gostar





