
A Última Nota do Amor Perdido
Capítulo 3
No dia seguinte, procurei minha sogra, a Sra. Almeida.
Ela era a única naquela família que ainda me tratava com um mínimo de respeito. Uma mulher pragmática, que desaprovava minha origem humilde, mas reconhecia que eu era um bom homem.
Encontrei-a no jardim de sua mansão, cuidando das rosas.
"Sra. Almeida", comecei, a voz calma. "Eu vim comunicar uma decisão. Eu e Isabela vamos nos divorciar."
Ela parou o que estava fazendo e me olhou, seus olhos não mostravam surpresa, apenas uma certa tristeza.
"Eu imaginei que este dia chegaria, Lucas. Sinto muito."
"Não precisa sentir. Foi uma decisão minha. Eu só quero que seja rápido e sem brigas. Eu não quero nada. Sem pensão, sem divisão de bens. Eu abro mão de tudo."
Ela me olhou, incrédula. "Lucas, você tem direitos. Vocês estão casados há oito anos."
"Os únicos direitos que eu quero são os de ver o meu filho. E de levar uma única coisa daquela casa: meu antigo violão."
Era um violão simples, um presente do meu falecido pai. O único bem material que realmente tinha valor para mim.
"Eu renuncio à guarda do Léo também", continuei, e a dor em dizer aquilo era quase física.
"Por quê, Lucas? Você ama aquele menino."
Engoli em seco. "Porque ele terá uma vida melhor com a mãe. Com o dinheiro dela. Ele já tem vergonha de mim, do meu samba, da minha origem. Se eu lutar por ele, só vou fazê-lo sofrer, dividido entre dois mundos. Eu não posso fazer isso com ele."
Era a verdade mais dolorosa que eu já tinha admitido. Eu estava desistindo do meu filho para poupá-lo de mim mesmo.
Sra. Almeida suspirou, parecendo genuinamente triste por mim. "Eu vou conversar com a Isabela. Vou garantir que você possa levar seu violão."
Nesse momento, o celular dela tocou. Era Isabela. Sra. Almeida atendeu no viva-voz.
A voz de Isabela soou histérica e furiosa do outro lado.
"Mãe! Onde está aquele inútil do Lucas? Mande ele vir para o hospital agora! O Léo está passando mal, com uma intoxicação alimentar!"
Meu sangue gelou.
"O que aconteceu?", perguntei, me aproximando do telefone.
"Cale a boca!", Isabela gritou. "Isso é culpa sua! Você não cuida de nada direito! Venha para o Hospital São Lucas agora! E venha rápido!"
Ela desligou.
Eu sabia exatamente o que tinha acontecido. Tiago. Ele sempre dava açaí para o Léo, cheio de coberturas e porcarias, mesmo sabendo que o estômago do menino era sensível. Ele fazia isso para agradar o Léo, para ser o "tio legal", sem se importar com as consequências.
E a culpa, como sempre, caía sobre mim.
Sra. Almeida me olhou com pena. "Vá, Lucas. Seu filho precisa de você."
Corri para o meu carro. O amor de pai falou mais alto que a humilhação.
Enquanto dirigia, uma ironia amarga me atingiu. Eu estava correndo para cuidar do meu filho, o mesmo filho que tinha vergonha de mim. O mesmo filho cuja doença provavelmente foi causada pelo homem que ele idolatrava.
E eu, o pai "fracassado", era quem ia resolver o problema. Como sempre.
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