
A Segunda Chance de João Pedro
Capítulo 2
João Pedro, um arquiteto de renome especializado na restauração de património, casou-se com Sofia, sua namorada desde a adolescência, aos 23 anos.
Viviam um conto de fadas, ou assim ele pensava.
Dois anos depois, a tragédia. Sofia "morreu" num terrível acidente de iate.
O mundo de João Pedro desabou.
Vinte anos se passaram. Aos 43 anos, João Pedro era um homem amargurado, a sombra do que fora, e com uma doença terminal a consumir-lhe os dias.
Decidiu viajar até aos Açores. Queria ver a Lagoa das Sete Cidades uma última vez, um lugar que Sofia sempre sonhara conhecer.
O ar era puro, a paisagem de uma beleza dolorosa.
Então, ele a viu.
Sofia.
Viva.
Radiante, ao lado de outro homem, Ricardo. Pareciam felizes, um casal apaixonado.
O coração de João Pedro parou, depois disparou numa dor lancinante. Vinte anos de luto, de saudade, de uma vida interrompida, eram uma mentira.
Os seus olhares cruzaram-se. O sorriso de Sofia congelou, o pânico estampou-se no seu rosto.
Antes que qualquer palavra pudesse ser dita, a terra tremeu. Uma tempestade súbita, violenta, formou-se sobre a lagoa. Gritos ecoaram. Um deslizamento de terras começou a engolir a margem onde estavam.
No caos, Sofia correu na direção de João Pedro.
Ela empurrou-o, protegendo-o com o seu corpo enquanto a lama e as pedras desabavam.
"Paguei a minha dívida," ela sussurrou, a voz fraca contra o barulho da tempestade. "Se pudesse recomeçar, esperaria por ele..."
A escuridão engoliu João Pedro.
Ele acordou sobressaltado, o coração a martelar no peito. Estava na sua cama, ao lado de Sofia.
Sofia, jovem, linda, a mesma de há vinte anos.
Era o primeiro ano do seu casamento. Ele tinha 24 anos.
As memórias do futuro, da sua "morte", da doença, do reencontro nos Açores, da confissão dela, estavam intactas, gravadas a fogo na sua mente.
O coração estava despedaçado, mas uma nova oportunidade surgia.
Sofia mexeu-se ao seu lado, ressonando suavemente.
Ele olhou para ela, a mulher que amara mais que a própria vida, a mulher que o traíra de forma tão cruel.
A dor era um abismo.
Ela abriu os olhos, sorriu sonolenta.
"Bom dia, meu amor."
A voz dela, antes música para os seus ouvidos, agora soava como um prenúncio de desgraça.
Ele não respondeu, apenas a observou.
Ela franziu o sobrolho, confusa com o seu silêncio.
"Está tudo bem, João? Tiveste um pesadelo?"
Ele desviou o olhar, levantou-se.
"Vou tomar um duche."
No espelho, viu o seu rosto jovem, sem as marcas do tempo e da doença. Mas os seus olhos carregavam o peso de uma vida inteira de sofrimento.
Sofia entrou na casa de banho, abraçou-o por trás, encostou a cabeça nas suas costas.
"Estás estranho hoje."
Ele sentiu o corpo dela contra o seu, o cheiro familiar do seu perfume. Antes, aquilo seria o paraíso. Agora, sentia repulsa.
Afastou-se dela delicadamente.
"Só estou cansado."
Ela observou-o, uma sombra de dúvida no olhar.
"Vou preparar o pequeno-almoço. Fiz aqueles teus bolinhos de chocolate preferidos."
Chocolate. Ele lembrou-se de como ela lhe dava chocolate no futuro, quando ele estava doente, um gesto vazio de significado.
"Não tenho fome," ele disse, a voz fria.
Sofia saiu, magoada.
Ele sabia. Ele sabia de tudo. E desta vez, não seria o tolo enganado.
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