
A Segunda Chance de João Pedro
Capítulo 3
João Pedro começou a observar Sofia com outros olhos, os olhos de quem conhecia o futuro.
Os telefonemas misteriosos, as saídas repentinas.
"Tenho um jantar de trabalho, amor."
"Vou encontrar-me com a Beatriz, coisas de amigas."
Mentiras. Ele sabia que eram mentiras.
Beatriz, a melhor amiga de Sofia, era cúmplice. Ele viu-as a cochichar, a rir baixinho, e Beatriz a lançar-lhe olhares culpados quando pensava que ele não estava a ver.
Um dia, Sofia disse que ia a uma conferência de arquitetura no Porto por três dias.
Ele lembrou-se dessa viagem. Na "primeira vida", ele acreditara.
Agora, seguiu-a.
Ela não foi para o aeroporto. Foi para um pequeno apartamento nos subúrbios, um lugar que ele não conhecia.
Ricardo abriu a porta.
Eles beijaram-se. Um beijo longo, apaixonado. O tipo de beijo que Sofia nunca mais lhe dera, nem mesmo no início da "primeira vida".
João Pedro sentiu o sangue ferver. A vontade de entrar ali e acabar com tudo era imensa.
Mas conteve-se. Precisava de mais. Precisava entender a extensão da traição.
Ricardo viu-o. Os seus olhos arregalaram-se por um instante, depois um sorriso trocista surgiu nos seus lábios. Ele puxou Sofia para dentro e fechou a porta.
Naquela noite, Sofia não voltou para casa.
Ligou, a voz casual.
"A conferência está ótima, meu amor. Mas vou ter de ficar mais uma noite, surgiu um imprevisto com um dos oradores. Muitos beijinhos."
Desligou antes que ele pudesse responder.
Ele lembrou-se de outra vez, na "primeira vida". Um aniversário dele. Sofia prometera um jantar romântico. Desapareceu durante horas. Voltou tarde, cheirando a perfume masculino que não era o dele, com uma desculpa esfarrapada sobre um pneu furado e um colega de trabalho prestável.
Ele acreditara. Ou fingira acreditar.
Agora, a dor era diferente. Era uma dor fria, calculista.
Na noite seguinte, quando Sofia ainda não tinha regressado da "conferência", ele passou pela porta do apartamento de Ricardo.
Ouviu as vozes deles lá dentro. Risos. E depois, a voz de Sofia, clara e distinta.
"Oh, Ricardo, és tão melhor que ele. Com ele é tudo tão... aborrecido. Tu fazes-me sentir viva."
Cada palavra era uma facada.
O seu mundo, que ele pensava ter sido reconstruído com esta segunda chance, desmoronava novamente.
A imagem da jovem Sofia, a prometer-lhe amor eterno na igreja, surgiu na sua mente.
"Até que a morte nos separe," ela dissera, os olhos brilhando.
Que ironia. A morte, ou melhor, a "morte" dela, tinha sido apenas o começo da mentira.
Ele sentou-se no carro, o corpo a tremer.
Não de tristeza. Mas de uma raiva gelada.
Ela queria sentir-se viva? Ele ia dar-lhe exatamente isso.
Ia fazê-la sentir a dor da perda, a agonia da culpa.
O plano começou a formar-se na sua mente. Um plano de vingança.
Um sorriso amargo curvou-lhe os lábios.
Se ela podia fingir a sua morte, ele também podia. E faria melhor.
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