
A Redenção do Magnata
Capítulo 2
Alice Mendes
Abro os olhos e pego o celular, que não para de tocar, de cima da mesa de cabeceira. Inicia-se mais uma semana, e essa promete ser bastante corrida. Sou secretária da presidência do Grupo Ferri, uma famosa rede de hotéis localizada no interior de São Paulo, mais especificamente em Atibaia, onde também está situada a sede principal, que funciona como resort. Amo o meu trabalho, e não foi nada fácil chegar até aqui.
Tenho dezenove anos, modéstia parte me acho muito bonita, cabelos loiros, olhos verdes, um rosto angelical, com apenas 1,60 de altura, sou estudiosa, dedicada e sempre lutei muito para conquistar o que tenho hoje. Cresci em um orfanato, pois fui abandonada pela minha mãe ainda bebê, ela me deixou na porta, a Madre me encontrou envolvida em uma manta, nunca soubemos o motivo do abandono, nenhuma carta, nada e nunca tive a sorte de ter uma família como tantas outras crianças. Então desde cedo decidi que seria a melhor em tudo, porque, já que teria de viver sozinha, precisava me garantir.
Quando completei a maioridade, Madre Rita me chamou à sua sala e disse que eu teria de deixar o orfanato - não poderiam me manter lá mais.
Ela me entregou um envelope que, ao abrir, revelou uma quantia considerável em dinheiro, o suficiente para me sustentar por algum tempo. Sempre fui atenciosa e prestativa, me dedicando a todas no orfanato, então, na despedida, todas choramos juntas.
- Alice, meu amor - disse a Madre, emocionada. - Fico feliz por termos conseguido encaminhá-la para uma boa vida. Talvez sem riqueza, mas com dignidade, e isso é o mais importante. Você sempre demonstrou ter boa índole, e por isso conversei com um dos nossos contribuintes. Ele lhe dará um trabalho. Será recepcionista em um hotel. Espero que não se incomode, nem perguntei a você sobre o isso. Mas como sei que é muito dedicada, não poderia deixar de te ajudar.
- Sério, Madre? - respondi com os olhos marejados. Era exatamente o que eu precisava naquele momento. - Eu nunca esquecerei o carinho de vocês, as palavras que me confortaram nos dias difíceis. Agradeço até à minha mãe por ter me deixado aqui. Não haveria lugar melhor para receber amor verdadeiro. Obrigada, de coração. - Digo emocionada com a atenção que a Madre teve comigo. Como sempre!
- As portas sempre estarão abertas para você, minha filha. Se precisar, pode nos procurar.
Abraçamo-nos todas juntas, e as lágrimas escorreram livremente. Foram os melhores anos da minha vida e os levarei comigo para sempre.
A Madre Rita me passou o endereço do hotel em que eu trabalharia, mas antes, me encaminhei para uma pensão indicada pelo orfanato, onde ficaria até conseguir alugar algo melhor.
Cheguei de frente ao prédio, uma fachada simples de tijolinhos, onde se via um letreiro antigo e sujo, com o nome: Ed. Belladonna. Entrei e fiz meu cadastro como todo inquilino. Dona Alzira me entregou uma chave e me encaminhou para meu quarto, que seria minha moradia à partir de hoje. Era um local bem humilde, mas muito limpo. Subi a escada de madeira antiga, que rangia conforme pisava, e segui conforme me foi indicado.
Parei de frente uma porta com o número 6, indicando que ali era meu lugar. Adentrei o cômodo e olhei em volta, tinha uma cama simples no canto, com uma mesinha de cabeceira ao lado, e um abajur. Um pequeno guarda-roupa enfeitava a parede em frente a cama, e uma porta que dava para um pequeno banheiro. Sorri, aquela seria minha nova moradia nos próximos dias.
Organizei minhas roupas no pequeno móvel e, sabendo que deveria me apresentar no trabalho na manhã seguinte, saí em busca de uma roupa formal. Caminhei por várias ruas até encontrar uma loja simples, onde consegui comprar um conjunto de calça e blazer pretos com uma blusa branca. Também achei um sapato elegante, embora simples. Não era luxuoso, mas me senti arrumada e confiante para começar.
Na manhã seguinte, acordei cedo. Tomei banho, arrumei meu cabelo em um coque, passei uma leve maquiagem, vesti meu novo traje e fui ao hotel. Lá, conheci o senhor Edgar, presidente do Grupo Ferri, ele era mais velho, na casa dos sessenta ou setenta anos talvez, cabelos grisalhos e de estatura baixa, vestia um terno impecável na cor preta, um homem educado e muito receptivo. Ele me explicou o funcionamento da empresa e, ao final, perguntou:
- Então, menina Alice, gostou do que lhe apresentei?
- Sim, senhor Edgar. Estou muito agradecida pela oportunidade. Mas, se me permite, gostaria de tirar uma dúvida.
- Claro, minha filha, diga qual é.
- Existe a chance de crescer dentro da empresa? Eu não quero ser apenas uma recepcionista. Sei que posso estar parecendo apressada, mas cresci em um orfanato e não tenho ninguém. Preciso garantir meu futuro.
Ele sorriu com ternura.
- Já pensando lá na frente? Isso é ótimo. Admiro pessoas que não se acomodam. Temos um programa interno de cursos para os funcionários. Você pode se inscrever na área que desejar. Ao final, fará uma prova, e se for aprovada, terá acesso à vaga.
- Ótimo, darei o meu melhor! - Sorrio confiante.
- Pode começar amanhã mesmo. A Madre falou muito bem de você. Basta fazer bem o seu trabalho. Seja bem-vinda!
- O senhor não irá se arrepender.
- Assim que eu gosto - disse ele, encerrando a conversa.
Um ano e meio depois
Às vezes ainda não acredito que conquistei tanto em tão pouco tempo. Logo após o primeiro mês como recepcionista, inscrevi-me no curso, tirei nota máxima e passei na prova, me tornando a secretária da gerência, meu foco era a presidência, sabia que iria surgir a vaga e foquei em meus estudos. E oito meses depois de muito aprendizado, fiz mais uma prova, tirando a maior nota de todos os tempos.
Hoje sou secretária do senhor Edgar. Conquistei a vaga que mais queria, a da presidência!
Mas esse não é meu limite. Estou me organizando para ingressar na faculdade de Administração. Quero ser chefe em um dos hotéis da rede Ferri - e sei que chegarei lá.
- Alice, querida, pode vir aqui, por favor? - ouvi a voz de Edgar chamando de sua sala.
Entrei com um sorriso.
- Em que posso ajudar, senhor?
Sempre fui grata por sua atenção. Além de presidente, Edgar foi um verdadeiro mentor.
- Meu filho chega na próxima semana. Preciso que você o ajude a se adaptar. Como sabe, logo me aposento. Faz anos que ele vive nos Estados Unidos e está distante da empresa. Não há pessoa melhor que você para acompanhá-lo. A partir de segunda, quero que ele participe das reuniões. Passe a ele todos os relatórios de fornecedores.
Assenti, anotando tudo no meu tablet.
- Claro, senhor. Ah, e não se esqueça do almoço com o novo fornecedor de carnes nesta semana.
- Sim, prepare o contrato e marque também uma reunião com os acionistas. Precisamos definir o vice-presidente que dará suporte ao Oliver quando chegar.
O nome ecoou na minha mente: Oliver.
- Certo, cuidarei de tudo.
Saí da sala com a cabeça girando. As recepcionistas já haviam comentado que o filho do senhor Edgar era lindo, praticamente irresistível. Porém, era noivo. Suspirei, tentando afastar pensamentos tolos. Como seria nossa relação de patrão e funcionária? Esperava que fosse tão boa quanto a que tinha com seu pai.
Mas nada poderia me preparar para o que estava por vir...
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