
A PROPOSTA DE VALENTIM
Capítulo 2
LIORA
Antes que eu conseguisse processar o que havia acabado de acontecer, Everett Montague segurou minha mão e me puxou em direção ao elevador. Flynn tentou nos seguir, mas os seguranças bloquearam seu caminho.
"Senhor Montague, por favor, eu posso explicar", gritou Flynn.
Everett nem sequer olhou para trás. Entramos juntos no elevador e as portas se fecharam bem na frente do rosto desesperado de Flynn. Fiquei parada ali, segurando a caixinha do anel, enquanto meu cérebro tentava acompanhar o que minha boca havia feito. Que diabos eu acabei de fazer?
"Me desculpe", soltei de uma vez. "Eu não sei o que deu em mim. Acabei de flagrar meu namorado me traindo, não estava raciocinando direito, te vi e simplesmente-"
"Me pediu em casamento na frente de cinquenta testemunhas?" Os lábios de Everett se curvaram como se ele estivesse segurando uma risada.
"Sim." Meu rosto queimou de vergonha. "Sinto muito mesmo. Pode esquecer que isso aconteceu. Eu digo pra todo mundo que foi uma brincadeira ou uma aposta ou-"
"Por que eu faria isso?"
Pisquei para ele. "O quê?"
As portas do elevador se abriram no último andar. Everett me guiou por um corredor com paredes de vidro que davam vista para a cidade. Paramos em frente a uma enorme sala de reuniões. Ele segurou a porta aberta e fez um gesto para que eu entrasse.
Hesitei. Aquele homem era um CEO bilionário. Ele poderia fazer qualquer coisa comigo ali e ninguém acreditaria na minha versão. Mas ele parecia mais entretido do que perigoso, então entrei, com a mente a mil por hora.
"Sente-se", disse ele.
Sentei. Ele ocupou a cadeira à minha frente.
"Você acabou de me pedir em casamento publicamente no meu próprio prédio", falou ele. "Isso exige ou muita coragem ou insanidade."
"Insanidade", respondi rapidamente. "Eu não fazia ideia de quem você era. Só queria que o Flynn parasse de me seguir."
Ele sorriu. "Me conte o que aconteceu."
Contei tudo: os dois meses de planejamento, a compra do anel, as passagens para as Maldivas e o momento em que entrei no escritório de Flynn e o encontrei com Sage. Quando terminei, me senti um pouco melhor. Era como se eu tivesse revivido a cena inteira.
"Flynn West", disse Everett, agora com a voz gelada. "Seu namorado é meu assistente executivo."
"Eu sei. Na verdade, fui eu quem consegui o emprego pra ele." Baixei os olhos para minhas mãos. "Uma amiga minha trabalha no RH."
"Interessante." Everett pegou o celular e digitou algo. "Ele tem me impressionado ultimamente com algumas ideias de marketing. Eu me perguntava de onde vinha esse talento repentino."
Levantei a cabeça bruscamente. "O que você quer dizer?"
"Não eram ideias dele, não é?"
A ficha caiu. Então ele não tinha apenas me traído. Também roubava meus ideias para subir na carreira.
"Eu o ajudei com algumas apresentações. Ele dizia que queria minha opinião porque eu tenho formação em marketing e valorizava minha opinião."
"Ele roubava seu trabalho e apresentava como se fosse dele." O maxilar de Everett ficou tenso. "Há quanto tempo?"
"Talvez uns seis meses?" Minha voz saiu baixa. "Ele sempre me pedia para revisar as apresentações. Achei que estava sendo uma boa namorada."
"Você estava sendo usada."
As palavras doeram porque eram verdadeiras. Eu tinha passado três anos colocando Flynn em primeiro lugar, ajudando-o a crescer, sacrificando meu próprio progresso na carreira para que ele brilhasse.
Fechei os olhos. Era a terceira vez naquele dia que eu tentava conter as lágrimas. "Sou uma idiota", sussurrei.
"Você não é idiota. Você confiou em alguém que não merecia." Everett se inclinou para frente. "Mas aquela proposta no lobby? Teve um timing perfeito." Seus olhos cinzentos encontraram os meus. "Tenho uma proposta para você."
Meu estômago deu uma cambalhota. "Que tipo de proposta?"
"Vamos fazer um noivado falso por três meses. Eu me livro das tentativas de arranjar casamento dos meus pais e te ajudo a se vingar do Flynn."
Fiquei olhando para ele, boquiaberta.
Ele tamborilou os dedos na mesa. "Meus pais estão tentando me casar com Diella Ashford há cinco anos. Ela vem de família tradicional, tem ótimas conexões, é tudo o que eles acham que preciso em uma esposa. O problema é que eu não a amo. Nem gosto dela. Mas eles não vão parar até eu estar noivo de outra pessoa."
Finalmente recuperei a voz. "Então você quer me usar como escudo."
"E você quer fazer o Flynn se arrepender amargamente de ter te traído. Esse acordo beneficia nós dois."
Eu deveria ter dito não. Mas a imagem de Flynn me vendo com alguém como Everett Montague - feliz, bem-sucedida, enquanto ele se consumia de culpa - era tentadora demais.
"O que exatamente esse acordo envolveria?" perguntei com cuidado.
"Haverá muitas aparições públicas. A mídia vai se interessar bastante. Você vai conhecer minha família e precisará se mudar para o meu penthouse para ficar convincente."
"Isso é loucura", foi minha resposta.
Um riso baixo escapou dos lábios dele e quase me derreti. "Você pediu um estranho em casamento no lobby de uma empresa. Se isso não é loucura, não sei mais o que é. Ah, e você receberia quinze mil dólares por mês como compensação. Depois de três meses, terminamos discretamente e seguimos nossas vidas."
Fiquei de boca aberta novamente. Nunca tinha visto tanto dinheiro na vida.
"Alguma pergunta?"
Balancei a cabeça.
"Algum comentário?"
Me inclinei para frente. "Não acha que vai ser estranho, já que o Flynn trabalha pra você?"
Ele dispensou a preocupação com um gesto. "Ah, sobre isso. Ele vai ser transferido para o escritório em Chicago. Ficará bem longe de nós dois." A voz dele estava fria.
"Preciso pensar", eu disse.
"Pense o quanto quiser." Everett se levantou. "Mas não demore muito. Minha mãe já está ligando para conhecer minha noiva misteriosa. As notícias correm rápido neste prédio."
Antes que eu pudesse responder, alguém bateu com força na porta da sala de reuniões.
"Liora, por favor. Preciso falar com você. Senhor Montague, por favor, me deixe explicar."
Suspirei. Flynn.
Everett me olhou. "Quer que eu peça para a segurança removê-lo?"
Olhei para a porta - Flynn do outro lado implorando por outra chance porque viu que eu tinha chamado a atenção do chefe dele - e depois para Everett Montague, com seu terno caro, olhos cinzentos divertidos e proposta completamente insana.
"Aceito o acordo", declarei.
"Excelente." Ele caminhou até a porta e a abriu. Flynn quase caiu para dentro.
"Liora, graças a Deus. Me escuta. A Sage não significa nada. Foi um erro estúpido. Eu te amo. Quero me casar com você. Por favor, não faça isso."
Nunca na vida tinha encontrado um mentiroso tão confuso e descarado.
Flynn gesticulou freneticamente na direção de Everett. "Você nem conhece ele. Isso é loucura. Você está magoada e agindo por impulso, mas nós podemos consertar isso..."
"Eu disse sim", interrompeu Everett. "Estamos noivos."
A boca de Flynn se abriu e fechou. "Você não pode estar falando sério."
Everett passou o braço ao redor da minha cintura e me puxou contra ele. "Não é verdade, querida?"
Meu coração martelava no peito. Isso estava realmente acontecendo. "Sim", consegui dizer. "Estamos noivos."
"Liora, você está sendo ridícula", retrucou Flynn. "Você o conheceu há cinco minutos. Isso é insano."
"Você tem razão", respondi. "É insano. Mas sabe o que mais é insano? Descobrir que o homem que eu amei por três anos estava me traindo há meses enquanto roubava meu trabalho para subir na carreira."
O rosto de Flynn ficou pálido. "Eu não-"
"Guarde isso. Acabou. Estou seguindo em frente." Meu olhar pousou nos lábios de Everett.
A mão de Everett apertou minha cintura. Então ele fez algo que eu não esperava: inclinou-se e me beijou.
Era para ser só encenação. Mas no instante em que seus lábios tocaram os meus, uma corrente elétrica atravessou meu corpo inteiro. Minhas mãos subiram para o peito dele, sentindo o tecido caro do terno e o peito firme por baixo.
Eu queria mais. Ele me puxou ainda mais para perto, aprofundando o beijo. Meu corpo inteiro estava em chamas.
O rosto de Flynn desmoronou. "Liora-"
"O anúncio do noivado sai amanhã", disse Everett, com a voz fria novamente. Sua mão não saiu da minha cintura. "Limpe sua mesa, Flynn. Você está transferido para o escritório de Chicago. Efeito imediato."
A boca de Flynn se abriu e fechou sem emitir som. Ele me olhou uma última vez, os olhos suplicantes. Virei o rosto.
"Saia", ordenou Everett.
Flynn saiu. A porta bateu atrás dele.
Fiquei ali, nos braços de Everett Montague, com os lábios ainda formigando do beijo e o coração batendo tão forte que pensei que fosse explodir. O que foi que eu acabei de aceitar?
A mão de Everett ainda estava na minha cintura. Seu polegar fazia pequenos círculos no meu quadril, enviando arrepios pela minha espinha. "Arrume suas coisas", disse ele, com a voz baixa. "Você se muda hoje à noite."
"Hoje à noite?" Minha voz saiu ofegante.
"Precisamos tornar isso convincente. Quanto mais rápido nos mexermos, mais real vai parecer." Seus olhos cinzentos encontraram os meus. "A menos que tenha mudado de ideia?"
"Não mudei", respondi.
"Ótimo." Everett finalmente se afastou, interrompendo o contato entre nós. "Vou mandar um carro buscar você às sete. Leve o básico. Pode comprar o que precisar depois."
"Tudo bem", sussurrei.
Ele caminhou até a porta, parou e olhou para trás. "Ah, e Liora... Bem-vinda à família."
Então ele saiu, e fiquei sozinha na sala de reuniões, com os lábios ainda formigando, o coração acelerado, me perguntando em que diabos eu havia me metido.
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