
A procura do AMOR
Capítulo 2
Hoje, o dia começou de maneira comum, como tantos outros. A luz do sol invadiu o quarto de forma cintilante, induzindo-me a despertar. Espreguicei-me, esfreguei os olhos, ainda repletos de remela, e permaneci por alguns minutos contemplando o teto, aguardando a plena retomada da consciência. Somente após esse breve ritual, lancei as cobertas de lado e encaminhei-me para um revigorante banho matinal. Sempre apreciei a rotina de iniciar o dia assim, um hábito enraizado principalmente pelo horário matutino dos meus estudos.
Hoje, por sorte, era sábado, uma pausa na agenda rotineira. No entanto, as opções para preencher o dia ainda não estavam definidas. Com um macacão largo e florido escolhido como vestimenta, cogitei a possibilidade de ligar para minhas amigas. Contudo, a perspectiva de envolver-me em conversas centradas em garotos, beijos e paixões imediatamente dissipou meu entusiasmo. Atualmente, minhas três melhores amigas são Bia, Bruna e Estefani, enquanto na escola existem outros grupinhos de colegas com quem mantenho convívio. Apesar de ser rotulada como "a nerd", não me considero antissocial; sou simplesmente mais focada e racional do que muitos dos meus amigos.
Diante da ideia de evitar o tumulto e o clichê das conversas usuais, optei por descer até a sala, onde tomei um tranquilo café da manhã e decidi passar o dia imersa em séries. É inevitável questionar a razão pela qual clichês são tão cansativos. As tramas previsíveis, como o encontro acidental que resulta em olhares apaixonados, ou o amor proibido que ecoa em tragédias como em "Romeu e Julieta", não fazem parte da minha perspectiva romântica. Não arriscaria minha vida por amor e, honestamente, nem mesmo experimentei esse sentimento de maneira romântica. Amo profundamente meus amigos, disposta a fazer tudo para protegê-los. Entretanto, essa abordagem de colocar o outro sempre em primeiro lugar não me parece saudável. Contudo, confesso que, em algum momento, gostaria de experimentar a sensação de estar verdadeiramente apaixonada. Quem sabe assim minha visão sobre o romance mudasse de forma surpreendente.
Meu celular começou a tocar, esquecido debaixo da minha bunda no sofá. Era Eduardo, meu melhor amigo e namorado.
— Alô, Duda!
— Amor, te acordei?
— Não, estava acordada faz tempo. O que houve?
— Nada demais, apenas que hoje vai ter uma festa na casa dos meus amigos. Quer ir comigo, gatinha? — Fechei os olhos.
— Eu não sou muito fã de festas, mas por você eu vou. — Ouvi sua respiração do outro lado da linha.
— Valeu, amor! Você sabe que é a melhor! — Comemorou, e tive que rir.
— Sei, também te amo. Beijos!
Essa era a dinâmica do meu relacionamento com Eduardo. Éramos melhores amigos, ele era alto-astral e um cara incrível. No entanto, faltava algo. Eu sentia que nosso relacionamento não tinha uma faísca, era tudo muito confortável. Várias vezes pensei em terminar, mas quando chegava a hora, simplesmente travava. Eduardo parecia realmente gostar de mim, e eu não queria quebrar seu coração.
A noite finalmente chegou. Optei por vestir uma calça preta rasgada nos joelhos, uma blusinha branca e uma camisa xadrez preta e branca por cima. Deixei meus cabelos castanhos soltos e lisos, sem muitos adornos. Não sendo fã de maquiagem, apliquei apenas um delineador e um batom vermelho para completar o visual. Fiquei na sala, balançando o joelho freneticamente, aguardando a chegada de Eduardo.
— Claro, mãe. A senhora sabe que não sou fã de bebidas. Estou indo nessa festa unicamente para agradar ao Eduardo.
Dona Regina, minha mãe, já estava alerta: "Eu sei que o Eduardo cuida de você, mas nada de ficar bêbada e vir muito tarde, está bem, Vitória?"
— Falando de mim? — A porta abriu, e ele entrou sorridente, vestindo-se de maneira impecável. Eduardo foi direto cumprimentar minha mãe. Ele era assim, crescemos juntos desde pequenos; era como se fosse da família.
— Olha lá! Para onde vai levar minha princesa, garoto? Eu já perguntei para sua mãe que tipo de festa é essa.
— Fica tranquila, tia. Vitória está comigo; é o mesmo que estar com um anjo. — Tive vontade de rir. Só minha mãe para cair nessa cara lavada dele.
— Tudo bem, em você eu confio. — Alisou o rosto dele.
— Vamos, gatinha?
— Vamos! — Levantei, fingindo uma empolgação que não existia.
— A propósito, você está linda. — Sussurrou no meu ouvido, entrelaçando nossas mãos.
Seguimos para a festa de Uber. Eu não sabia o motivo, mas não estava com um pressentimento bom. Espero que seja apenas coisa da minha cabeça.
— Você parece tensa, relaxa. — Eduardo beijou meu pescoço, e forcei um sorriso. Olhei pela janela e observei as luzes brilhantes da cidade reflexiva. Eu queria entender por que era tão difícil me apaixonar. Será que o erro estava em mim? Senti os dedos de Eduardo aquecendo minha mão. Ele aparentemente era o namorado perfeito. Então, qual é o meu problema?
— Chegamos! — Ele informou, e descemos do carro. Normalmente, os amigos de Eduardo eram bem de vida, por isso não me surpreendia que a festa fosse em uma mansão, à beira da piscina, um lugar totalmente luxuoso, com paredes claras e portas de vidro. Eduardo falou nossos nomes e entramos. A sala era enorme, com sofás pretos e um carpete listrado no chão. Ilustres já tinham algumas pessoas bebendo e dançando. Para minha surpresa, a maioria era de maiores; não vi ninguém da nossa escola.
— E aí, Duda, pelo visto trouxe sua gata hoje. — Um rapaz loiro de olhos verdes chegou com uma taça de vinho na mão. Ele certamente tinha uns vinte e poucos anos. Eduardo era de maior, já tinha dezenove, pois ficou dois anos afastado. Eu ainda tinha dezessete.
— Sim, essa é a Vitória.
— Pode me chamar de Vick se preferir. — Estendi a mão cordialmente.
— Prazer em conhecê-la, Vick. Eu me chamo Lucas. — Ele levou minhas mãos aos lábios, beijando de maneira sedutora. Senti um certo desconforto e recuei rapidamente.
Eduardo e eu fomos um pouco para a pista de dança. As luzes roxas e brancas piscavam sem parar, e começamos a dançar colados um no outro, balançando nossos quadris no ritmo da canção. A bebida já estava fazendo efeito no meu corpo; eu me sentia mais leve do que antes. Toda a tensão do início tinha se dissipado como névoa.
— Vamos para um lugar mais privado. — Eduardo sussurrou no meu ouvido, e eu concordei. Nem acreditava que estava prestes a fazer isso. Subimos as escadas sem chamar a atenção e entramos no primeiro quarto que surgiu na nossa frente. Eduardo cobriu meus lábios com os seus em um beijo urgente e cheio de paixão. Eu procurei corresponder na mesma intensidade, mas confesso que era difícil acompanhar sua rapidez. Suas mãos começaram a percorrer meu corpo, mas quando desceram para minha bunda, apertando, um sinal de alerta foi transmitido para o meu cérebro, e cortei o beijo.
— Tudo bem? — Eduardo perguntou, e eu assenti sorrindo fraco. Ele voltou a me beijar, tirou a camisa xadrez e segurou a barra da minha blusa, passando-a pelo pescoço. Ele me trouxe até a cama e me deitou, distribuindo beijos molhados por todo meu corpo. Estranhamente, meu corpo não correspondia aos estímulos que ele estava se empenhando em alcançar. Novamente, suas mãos viajaram até o fecho do meu sutiã para desabotoar, e eu travei.
— Eduardo, para! — Falei bruscamente, o empurrando. Ele me olhou incrédulo.
— Vitória, qual é o seu problema?! — Esfregou o rosto frustrado, enquanto eu me levantava rapidamente e vestia minha blusa.
— Desculpe, eu não consigo. O problema não é você, sou eu.
— É claro que o problema sou eu. Você claramente não sente o mesmo por mim, é isso? — Ele me olhou chateado, e o nó parou na minha garganta.
— Eu sinto muito! — Murmurei com a voz embargada. — É melhor nós terminarmos.
— Tudo bem, faça isso, porque eu não iria conseguir fazer. Eu tinha esperança de que um dia fosse se apaixonar, mas estava totalmente equivocado. Vou te levar para sua casa. — Ele disse visivelmente abalado. Nesse momento, tive certeza de que não tinha apenas perdido um namorado, mas também meu melhor amigo. O que há de errado comigo? Por que não consigo me apaixonar por ninguém?
Entrei no quarto entre lágrimas, incapaz de segurá-las a tempo para que minha mãe não percebesse. Ela perguntou o que tinha acontecido, mas eu apenas disse que Eduardo e eu tínhamos terminado e não expliquei o motivo. Me joguei na cama e abracei meu travesseiro. Eu sabia que era errado, não era conveniente namorar meu melhor amigo se não sentia o mesmo. Isso só iria estragar nossa amizade.
Não conseguia entender por que para as outras pessoas era tão fácil se apaixonar, enquanto para mim era como ganhar na mega-sena, uma chance em um milhão. Estranhamente, estava começando a achar que não era desse planeta.
No dia seguinte, nem cogitei a possibilidade de me levantar da cama. Tudo o que eu menos queria era ir para o colégio e dar de cara com Eduardo. Mas, para meu azar, fui surpreendida pelas minhas amigas insistentes. Minha mãe, como sempre, sabia usar minhas amizades para me persuadir a seu favor. Eu estava coberta até a cabeça, mofando embaixo do cobertor, quando a porta se abriu.
— Ela está ali. Vejam se, para vocês, ela conta o que aconteceu, porque para mim, parece que estou falando com uma parede. - Bufou, saindo do quarto.
— Vitória! Pode desembuchar e contar agora por que não quer ir à escola. - A primeira a gritar e pular em cima de mim foi a Bia, seguida da Bruna e da Estefani.
— Me deixem, não quero dizer.
— Ah, mas você vai dizer sim. Foi o Eduardo, não é? O que aquele cretino te fez? - Bruna falou brava, e eu voltei a chorar compulsivamente, sendo tomada pela culpa.
— Não disse?! Eu vou agora quebrar os dentes dele!
— Não! - Joguei a coberta para longe. - Eduardo não fez nada. Fui eu.
— Você? - Estefani, que até então apenas observava, resolveu se pronunciar.
— Sim, nós terminamos porque eu não consigo sentir nada por ele. - Falei desolada.
— Oh, Vick! - As três me abraçaram juntas.
— Me diga, o que tem de errado comigo? Por que não consigo me apaixonar? Hum?
— Ai, amiga, talvez o erro não esteja em você, e sim, você não encontrou o cara certo. - Bia me consolou.
— Errado, o erro está nos homens. Todos iguais. - Bruna disse carrancuda, ela novamente tinha brigado com o namorado. — Às vezes, você apenas não tem opções suficientes, sabe? No nosso colégio, são sempre os mesmos alunos, não tem novidades. Você precisa encontrar pessoas novas.
— E como eu faria isso? Se nem saio de casa.
— Adivinha? Existe um novo aplicativo que foi lançado. Chama-se "Encontros às Cegas". Digo, não tão às cegas assim, porque você vê a foto do perfil da pessoa e seus gostos pessoais. Se tiver interesse, você aceita o convite e vão para um encontro romântico juntos. O que acha? - Bruna comenta empolgada.
— Deixa-me ver isso! - Bruna toma o celular da sua mão.
— Loucura! Da onde tirou que Vitória vai aceitar um absurdo desses?!
— Eu topo! - Comentei animada.
— Não disse. O quê? Você topa? - Bruna me olhou incrédula.
— Sim, eu topo. Quem sabe aqui está o grande amor da minha vida? - Peguei o celular bisbilhotando.
— Não brinca?! Nossa, Vitória está se tornando adulta. - Bia zomba, me abraçando, e reviro os olhos.
— Eu só quero me apaixonar. Impossível, com tantas opções interessantes, eu não gostar de ninguém.
— Certo! Mas vamos começar com uma pequena mentira. Eu andei olhando esses aplicativos, e os caras mais bonitos têm vinte e cinco anos para cima.
— Universitários? Ficou louca, Estefani? Não saímos com universitários.
— Não saímos ainda, mas você vai sair. Eles são gatos, é o sonho de qualquer garota da nossa idade.
— Eles são mais velhos! - Rebato impertinente.
— E daí? Quanto mais velho, melhor, como um bom vinho. E você, Vitória, faz dezoito este ano, não está tão ruim assim.
— Tá bom que seja, mas por favor, não tão velho! E nem tão cafajeste. Quero alguém do meu tipo. - Falei determinada, e ela deu um sorrisinho. Terminei de fazer o meu perfil de forma exigente, recebendo algumas críticas das minhas amigas.
— Ah, você é tão careta. Dificilmente alguém vai concordar em sair com você. - Bia disse, e lancei um olhar fulminante na sua direção.
— Não ligue para ela, seja você. Quem tem que gostar, que goste como é. Não mude por homem nenhum. - Bruna disse, e concordei.
— Fica tranquila. Com a mudança que vou fazer nas fotos, vai parecer uns cinco anos mais velha. Qualquer homem vai babar, prontinho! Opa! Não falei? Temos um interessado.
— O quê!? Já? - Espiei surpresa.
— Esse daqui parece perfeito para você. Ele já a convidou para sair, rápido, não? - Mostrou a foto de um rapaz lindo de cabelos castanhos claros, corpo bronzeado, olhos azuis e sobrancelha marcante. Era realmente um Deus grego, mas tinha um sorriso cafajeste nos lábios. Olhei seus gostos pessoais, e eram totalmente o oposto do que eu procurava em um homem.
— Não, esse não. Tem cara de ser um garanhão, fajuto e galinha.
— Ops! Já aceitei o convite. Foi sem querer! - Estefani sorriu provocativa.
— Nãooo! Estefani, por que fez isso? - Pulei em cima dela, tirando o celular da sua mão.
— Não tem como desfazer, Vitória. Já que aceitou essa experiência, que seja algo totalmente inusitado. Você sempre conviveu com os garotos do nosso colégio. Talvez seu amor seja alguém maduro e mais velho. - Nego apavorada, tentando desfazer.
— Ou, de acordo com a Estefani, talvez ele não tenha nascido. Não precisa ir se não quiser. Essas duas são loucas.
— Para de ser chata. Por isso seu namorado não aguenta. Vai por mim, ele é gato. Pelo menos vai ter a chance de dar alguns beijos em alguém mais velho e gostoso. Se ele for muito cafajeste, não precisa se encontrar de novo. - Respiro fundo, desistindo.
— Tudo bem, eu vou. Mas tenho certeza de que esse cara definitivamente não é o amor da minha vida. Zero chance de ser. - Apontei para sua foto no celular com veemência.
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