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Capa do romance A Outra Metade de Nós (PARAPLÉGICA)

A Outra Metade de Nós (PARAPLÉGICA)

O dia da minha formatura, que prometia ser o auge do sucesso, terminou em tragédia e me deixou em uma cadeira de rodas. Mergulhada na amargura e sem esperanças, vi meu mundo desabar até a chegada de Alexander. Ele ignorou minhas limitações físicas, enxergando a essência que eu mesma já havia esquecido. Esse amor profundo transformou minha dor, provando que, apesar de perder os movimentos, encontrei em Alexander a metade que finalmente me completou.
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Capítulo 2

— Quando vão retira-lá do coma? — reconheço a voz, ela é quase inexistente, mas sei que é mamãe. Sinto um toque agradavelmente quente na palma da minha mão, tento fechar os dedos para acolher o calor, estou com frio, e por mais que eu tente fechar os dedos eu acabo por não conseguir.

— A sua filha está respondendo bem aos tratamentos, provavelmente em breve o médico irá tira-lá do coma, sinto muito por tudo que aconteceu Sra. Kane — ouço certo pesar na voz feminina que desconheço, a voz entoa tristeza.

— Você não sente mais do que eu — mamãe diz ríspida, por que ela está brava? Emily sempre foi muito educada com as pessoas, estou assustada com o seu modo de tratar a mulher, gostaria de ver a sua feição e saber o motivo para tratar com rispidez essa mulher, tento abrir os olhos, mas o esforço é inútil.

— Hum... — a voz feminina murmura — Vou deixá-la e chamar seu marido.

Papai está aqui?

E Jason?

Mamãe não responde, o aperto na minha mão torna-se mais forte, sinto uma respiração quente sobre o meu rosto e uma mão desliza pela minha bochecha.

— Está na hora de acordar querida, quero ver seus lindos olhos verdes e o sorriso que tanto amo — a sua voz embarga, mamãe está chorando? Quero saber o motivo.

Quero tanto acordar!

Lentamente a escuridão me chama, reconheço essas chamas pretas, elas são atraentes, chamativas, prometem descanso e paz, e eu me entrego a elas.

***

— Por que ela está demorando a acordar Emily? — papai... Como é bom ouvir a sua voz, estou com saudades de você, reparo que a sua voz está cansada, como se não dormisse há dias, será que ele anda trabalhando muito?

— Temos que esperar o tempo dela Declan, o traumatismo foi grave — mamãe também está com a voz cansada, por que todos estão cansados?

— Mas já faz semanas que ela foi tirada do coma! — papai se exalta. As palavras semanas e coma me deixam confusa, quero que falem mais para que eu possa saber o que está acontecendo, mas apenas ouço o bom e velho silêncio.

A escuridão novamente aparece na minha mente, quando me entrego a ela me sinto melhor, tão tentadora e boa ao mesmo tempo, como não ouço papai ou mamãe falando eu decido me entregar a ela novamente.

***

— Você não tem permissão para colocar os pés nesse quarto — a consciência toma conta da minha mente, novamente ouço vozes, identifico papai, mas a segunda voz está abafada.

— Eu apenas quero vê-la Sr. Jordan — Jason!

— Você nunca mais irá vê-la, não depois do que fez a ela, você sabe o estado em que a minha filha se encontra? Você tirou parte dela, tem noção de como Elle vai ficar quando acordar? Você...

Minha mente é inesperadamente infestada de memórias.

A velocidade.

O medo.

Os pedidos para ir devagar.

A luz.

O grito.

E a escuridão.

Coma, traumatismo... Agora entendo, finalmente compreendo, quero abrir os olhos e lhes dizer que estou bem, mas não consigo, estou com tanta raiva por não conseguir me movimentar e abrir os olhos. Quero que alguém me ajude a sair dessa escuridão que está se tornando viciante, quero gritar para que me tirem daqui.

— Não foi a minha intenção, me perdoe, eu sempre vou ter esse maldito peso em meus ombros, sou eu que vou carregar essa tragédia, então me deixe vê-la pela última vez, não vou mais importuná-los, apenas peço para vê-la.

Última vez? Jason está indo embora? Por quê? Eu estou bem!

Novamente a escuridão aparece e dessa vez eu não quero me entregar a ela.

Não!

Não!

Não!

Mas meus pedidos são inúteis.

***

— Nesse último ano nunca vi você tão afastado do trabalho — as palavras saem irônicas da boca da mamãe, sei que ela está magoada com ele, mas também não precisa tratá-lo assim.

— Minha filha vem em primeiro lugar Emily — papai responde.

— Gostaria que Elle estivesse em primeiro lugar nesse ano também, mas ela apenas se tornou prioritária nas últimas semanas — mamãe está com raiva, com profundo ódio por papai, não quero ouvi-los brigar por mim.

— Não vamos discutir aqui Emily, não aqui.

— Você está certo — ouço a respiração profunda de ambos — Quero que Elle acorde, a espera está me matando, quero ver seus olhos, quero constar que ela está viva, nessa cama ela está parecendo...

— Morta — papai completa. Estou parecendo morta por causa do acidente? — Ela vai acordar Emily.

***

Encaro o teto branco e a luminária ao abrir os olhos, tento virar a cabeça, mas inexplicavelmente ela está muito pesada.

Sinto o suor brotar na minha testa e descer pelo meu rosto a cada tentativa de olhar para outro lugar que não seja o teto, quando finalmente consigo vejo papai e mamãe dormindo em duas cadeiras hospitalares desconfortáveis, agora entendo as vozes recheadas de cansaço.

— Ma... Ma-mãe, Ma... — por que tenho que me esforçar até para falar? O que está acontecendo comigo? Tento mexer meus braços e não consigo movimenta-los, parecem sacos de areia, estou ficando assustada — Mã-e — minha voz sai extremamente rouca.

— Elle — mamãe abre os olhos e fico aliviada, ela levanta — Como você se sente? — a sua aparência está estranha, seus olhos verdes estão apagados, seus cabelos castanhos estão sem vida, parece que mamãe tem mais que seus 40 anos.

— Dor — murmuro.

— Onde querida? — ela passa a sua mão na minha face e fecho os olhos — Não durma novamente, por favor — suplica, abro os olhos.

— N-não vou Dor-mir.

— Me diga onde dói.

— Minha ca-be-ça, e mi-nha, colu-na — digo com dificuldade, mamãe começa a chorar, tento levantar as mãos para secar suas lagrimas, mas elas se tornaram imprestáveis.

— Vou chamar a enfermeira e o médico — diz soluçando.

— Por que es-tá choran-do? O que aconte-ceu co-mi-go? — ela nega com a cabeça se recusando a falar, seu choro faz papai acordar e a olhar confuso até me ver acordada.

— Graças a Deus! — ele vem até mim, me abraça e beija minha testa desajeitado.

— Quanto tem-po dormi?

— Dois meses filha, estamos no último dia de Fevereiro — arregalo os olhos, dois meses?

— Pa-pai o que aconte-ceu comigo? — ele sorri tristemente.

— Vamos esperar a sua mãe voltar com a enfermeira e o médico, não sou a melhor pessoa para explicar o que aconteceu com você querida.

Sei que receberei uma notícia ruim ao ver o sofrimento de ambos.

***

— É muito bom vê-la acordada Elle — um doutor, aparentemente jovem, não deve ter mais de 30 anos, entra no quarto com a voz e a expressão alegre.

Meus pais se mantêm apoiados na parede ao lado da porta enquanto o doutor vem até mim, antes que ele fale algo eu faço uma pergunta que necessita desesperadamente de uma resposta, estou assustada com a incapacidade do meu corpo.

— Po-por não consi-go me me-xer e fa-lar direi-to?

— Faz dois meses que você está nessa cama sem fazer nenhum movimento, seus movimentos irão voltar aos poucos, quanto mais você se mexer vai ser melhor, a fisioterapia vai ajudar — assinto, a sua resposta me aliviou imensamente.

— Elle, agora eu vou fazer alguns exames e irei fazer algumas perguntas, tudo bem?

— Sim.

— Me diga quantos dedos você está vendo — ele abre as suas mãos na minha frente expondo setes dedos ao todo.

— Se-te.

— Ótimo, e agora? — ele diminui alguns dedos formando o número quatro.

— Qua-tro.

— A sua visão está boa, agora vou tocar em algumas partes do seu corpo — avisa antes de dar uma leve apertada no meu pulso.

— Sente? — concordo com um pequeno aceno, ele faz o mesmo com meus braços, minha caixa torácica, costas, barriga e quadril. Ao olhar para mamãe vejo uma esperança silenciosa em seus olhos.

— Vou fazer o mesmo com a parte inferior do seu corpo, preciso que você se concentre e me diga se sente o meu toque — o doutor afasta o lençol e gentilmente apalpa a minha coxa, mas não sinto, ele olha para mim, há um pergunta não dita em seus olhos.

— Não — respondo, eu não senti o seu aperto na minha coxa, talvez seja pelo fato de ter dormido por muito tempo como ele mesmo disse.

O doutor continua o seu exame apalpando meus joelhos, panturrilhas e por último meus pés, mas não consigo sentir nada. Olho para a minha mãe tentando entender o motivo desse exame, mas a sua face mostra que ela está tão devastada para que eu possa fazer essa pergunta.

— Elle — o doutor começa assim que cobre as minhas pernas com o lençol — Eu cuidei de você após o acidente, na sua ficha constava que você estava com o cinto de segurança, mas a batida com o outro carro foi muito forte, você atravessou o para-brisa sendo arremessada há uma distância consideravelmente grande do carro. Você chegou ao hospital com traumatismo craniano e uma lesão na coluna. Conseguimos tratar o traumatismo, mas infelizmente a sua lesão é irreversível. Sua lesão foi completa a partir da sétima vertebra cervical, isso quer dizer...

— Não terei movimentos abaixo do quadril, eu sei doutor, estudei para saber o que é uma lesão na coluna e as suas consequências — faço força para falar sem interrupções, o doutor olha surpreso para mim ao ouvir a minha voz sem um pingo de emoção — Me dei-xem sozinha por um mo-momento — peço, o doutor se retira, meus pais o seguem de cabeça baixa e a porta é fechada.

Agora entendo o motivo da briga de Jason e do meu pai, e meu pai estava certo: Foi retirada metade de mim, metade que era essencial para que eu seguisse uma vida plena e feliz.

Mas agora não existe mais, essa metade conviveu comigo por vinte anos, e foi tirada de mim tão rápida como se nunca tivesse passado vinte anos sendo parte de mim, como se nunca tivesse existido.

Sinto as lagrimas caindo pelo meu rosto, meus lábios tremem levemente.

Não é aquele choro cheio de soluços com gritos e exclamações do quanto eu estou sofrendo, é aquele choro onde as lagrimas caem silenciosamente enquanto a dor é sentida da forma mais dolorosa possível, onde a dor não é exposta para todos, onde ela é apenas sentido no exterior, ela ataca meu coração.

Mas essa dor principalmente destruiu os meus sonhos.

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