
A Mulher Que Sobreviveu ao Fogo e à Mentira
Capítulo 2
O cheiro a fumo e a desinfetante ainda estava no meu nariz quando acordei. A luz branca do quarto do hospital feria-me os olhos.
A minha barriga estava lisa. Terrivelmente lisa.
O meu bebé, que devia nascer dentro de duas semanas, tinha desaparecido.
O incêndio no nosso prédio tinha levado tudo.
Peguei no telemóvel com a mão a tremer. O ecrã estava estalado. Procurei o número do meu marido, Miguel.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, a sua voz estava cheia de irritação.
"O que foi, Clara? Estou ocupado."
"Ocupado?", a minha voz saiu rouca. "Miguel, eu... eu perdi o bebé."
Silêncio do outro lado. Depois, um suspiro.
"Clara, agora não é uma boa altura."
Ao fundo, ouvi uma voz feminina, chorosa e mimada. Era a Sofia, a sua amiga de infância que era mais como uma irmã para ele.
"Miguel, o Tufas não quer comer. Acho que ele ainda está assustado com os fogos de artifício de ontem. Podes vir ver?"
Fogos de artifício. O meu prédio ardeu até aos alicerces, eu quase morri sufocada, perdi o nosso filho, e a preocupação dele eram os "fogos de artifício" que assustaram o gato da Sofia.
"Miguel," eu disse, com uma calma que nem eu sabia que tinha. "Onde estás?"
"Estou com a Sofia. O gato dela está doente, já te disse."
A sua impaciência era clara. Eu era um incómodo.
"Vem para o hospital," pedi, uma última vez.
"Não posso agora, Clara. A Sofia precisa de mim. Ela está muito abalada. Liga a um dos teus amigos. Resolve isso."
Ele desligou.
Olhei para o telemóvel na minha mão. "Resolve isso".
As lágrimas que eu pensava que tinham secado começaram a escorrer pelo meu rosto. Não eram lágrimas de tristeza. Eram de clareza.
Liguei-lhe de volta. Ele atendeu à segunda, ainda mais zangado.
"Que queres agora? Já não te disse que estou ocupado?"
"Miguel," eu disse, com a voz firme. "Vamos divorciar-nos."
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