
A Mulher Que Sobreviveu ao Fogo e à Mentira
Capítulo 3
Houve um silêncio de choque do outro lado da linha. Depois, a raiva explodiu.
"Divorciar-te? Ficaste maluca? Só porque não pude ir a correr para o hospital? Tens alguma ideia do quão stressada a Sofia está?"
"E eu, Miguel? Eu não estou stressada? O nosso filho morreu."
"Foi um acidente, Clara! Acidentes acontecem! Não podes usar isso para me manipulares. Estás a ser egoísta."
Egoísta.
Eu, que passei nove meses a carregar o filho dele. Eu, que enfrentei um incêndio sozinha. Eu, que acordei numa cama de hospital para descobrir que o meu mundo tinha acabado. Eu era a egoísta.
"Vou enviar-te os papéis," foi tudo o que consegui dizer antes de desligar e bloquear o número dele.
Deixei o telemóvel cair na cama. Olhei para o teto branco.
O incêndio. As imagens voltaram à minha mente sem serem convidadas.
O alarme a tocar. O fumo a entrar por debaixo da porta. O pânico.
Agarrei no telemóvel e liguei ao Miguel. A primeira chamada, foi para o voicemail. A segunda também. Na terceira, ele atendeu.
"Miguel, o prédio está a arder! Estou presa!"
"Calma, Clara. Deves estar a exagerar. Liga aos bombeiros."
"Eu já liguei! Eles disseram para ficar quieta e esperar! Estou com medo, Miguel! Vem para cá!"
"Não posso," ele disse, a voz distante. "Estou a resolver uma emergência."
A emergência, eu sabia agora, era o gato da Sofia.
O fumo ficou mais denso. Comecei a tossir. Sentei-me no chão, perto da janela, tentando respirar o ar menos poluído. A minha barriga estava pesada. O bebé mexia-se, agitado.
"Calma, meu amor," sussurrei para a minha barriga. "O papá vai chegar."
Ele nunca chegou.
Foram os bombeiros que me encontraram, já inconsciente no chão. Acordei no hospital, com a notícia que me partiu em dois. Inalação de fumo, stress extremo... o meu corpo não aguentou. O meu filho não aguentou.
O telemóvel da cama ao lado, que pertencia ao hospital, começou a tocar. Uma enfermeira entrou e atendeu.
"É para a senhora," disse ela, estendendo-mo. "É o seu sogro."
Hesitei. Mas atendi.
"Clara," a voz do meu sogro, o Sr. Almeida, era fria como gelo. "O que é esta história de divórcio? O Miguel ligou-me, transtornado. Como te atreves a fazer-lhe uma coisa destas num momento tão difícil?"
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