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A Mulher que Me Roubou Tudo

Após doar um rim ao amigo Pedro, Lucas vê seu pai à beira da morte. Sem recursos e traído pela noiva, Juliana, que foge com Pedro, ele recebe ajuda de Sofia. Anos depois, Lucas descobre que Sofia, agora sua esposa, apressou a morte de seu pai para favorecer Pedro. Percebendo que foi usado apenas como um banco de órgãos humano, o choque do protagonista se transforma em um ódio absoluto. Agora, ele busca vingança contra todos que destruíram sua vida e família.
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Capítulo 2

O cheiro de antisséptico do hospital já era familiar para mim, uma lembrança constante do sacrifício que eu tinha feito.

Há seis meses, eu doei um rim para meu melhor amigo, Pedro Costa.

Agora, meu pai, João Silva, estava deitado na mesma cama de hospital, a pele pálida, os lábios secos.

Insuficiência renal terminal.

As palavras do médico ecoavam na minha cabeça, frias e afiadas.

"Ele precisa de um transplante urgente, Lucas. A diálise não está mais fazendo efeito."

Eu olhei para o rosto do meu pai, um homem que trabalhou a vida inteira para me dar tudo, e senti um nó se formar na minha garganta.

Eu só tinha um rim sobrando.

"Eu sou compatível?", perguntei ao médico, a voz saindo mais firme do que eu esperava.

O médico me olhou com uma mistura de surpresa e pena.

"Lucas, você já doou um rim. Doar o segundo... você dependeria de um rim artificial pelo resto da sua vida. É um procedimento caro, e a qualidade de vida..."

"Eu sou compatível?", repeti, interrompendo-o.

Ele suspirou e olhou os papéis na prancheta.

"Sim. A compatibilidade é perfeita."

Uma decisão que não era uma decisão. Era a única coisa a se fazer.

"Então vamos fazer isso. Eu dou meu rim para ele."

Saí do hospital com um peso no peito e uma missão. O rim artificial custava uma fortuna, dinheiro que eu não tinha. Eu era um designer de jogos talentoso, mas meu estúdio ainda estava no começo.

Minha única esperança era Juliana Mendes, minha noiva.

Cheguei ao nosso apartamento e a encontrei provando um vestido novo, caro. Ela sorriu para mim, um sorriso que não alcançou seus olhos.

"O que foi, amor? Essa cara..."

Eu respirei fundo e expliquei a situação. O estado do meu pai, a minha decisão, a necessidade do dinheiro para o meu rim artificial.

O sorriso dela desapareceu.

Ela me olhou como se eu fosse um estranho, um incômodo.

"Você está louco, Lucas? Doar seu último rim? E você espera que eu pague por essa sua loucura?"

"Juliana, é o meu pai. Eu não tenho escolha."

"Sempre tem escolha!", ela gritou, o rosto se contorcendo de raiva. "A sua escolha é se destruir por todo mundo! Primeiro o Pedro, agora o seu pai. E eu? Onde eu fico nisso? Casada com um homem doente, que vive ligado a uma máquina?"

Suas palavras eram cruéis.

"Eu pensei que você me amasse."

Ela riu, um som feio e cortante.

"Amor não paga as contas, Lucas. Amor não compra vestidos novos. Eu queria um parceiro, não um mártir. Pegue suas coisas e saia."

Ela apontou para a porta.

Eu fiquei ali, paralisado, o coração quebrado em mil pedaços.

Naquela noite, em um quarto de hotel barato que cheirava a mofo, a humilhação final chegou. Rolei o feed do meu celular sem rumo, e então eu vi.

Uma foto.

Juliana, sorrindo radiante, ao lado de Pedro.

Meu melhor amigo.

Na mão dela, uma certidão de casamento.

A legenda dizia: "Enfim, casada com o amor da minha vida. Sra. Costa."

A data do casamento era de uma semana atrás.

Enquanto eu planejava salvar meu pai, eles me apunhalavam pelas costas.

O ar saiu dos meus pulmões. O desespero era uma onda escura, me afogando. Eu não tinha noiva, não tinha melhor amigo, não tinha dinheiro, e meu pai estava morrendo.

Foi no fundo desse poço que uma mão se estendeu.

No dia seguinte, no hospital, uma mulher se aproximou de mim.

"Lucas?"

Eu levantei a cabeça. Era Sofia Almeida, minha amiga de infância. Eu não a via há anos. Ela estava diferente, mais sofisticada, mas o sorriso gentil era o mesmo.

"Sofia? O que você está fazendo aqui?"

"Eu soube do seu pai. E soube da Juliana e do Pedro. Eu sinto muito, Lucas."

Ela me abraçou, e pela primeira vez em dias, eu senti um pingo de calor humano.

"Eu não sei o que fazer, Sofia. Eu não tenho como pagar pela cirurgia."

Ela se afastou e me olhou nos olhos, séria.

"Não se preocupe com isso. Eu trouxe uma equipe médica de fora, os melhores do mundo em transplantes. Eles vão operar seu pai e implantar seu rim artificial. De graça. É um presente meu."

Eu não conseguia acreditar. Era um milagre.

"Sofia, eu... eu não sei como te agradecer."

"Não precisa", ela disse, sorrindo. "Somos amigos. Amigos cuidam um do outro."

As cirurgias aconteceram. A minha e a do meu pai, em paralelo.

Quando acordei, a primeira pessoa que vi foi Sofia. Ela estava sentada ao meu lado, o rosto sombrio.

Meu coração gelou.

"Cadê o meu pai? Ele está bem?"

Ela pegou minha mão. Seus dedos estavam frios.

"Lucas... a cirurgia foi um sucesso, mas... o corpo do seu pai... houve uma rejeição súbita e massiva. Os médicos fizeram tudo que podiam. Eu sinto muito. Ele não resistiu."

O mundo ficou em silêncio.

Meu corpo inteiro doía, mas era uma dor distante. A dor no meu peito era real, esmagadora. Eu tinha dado meu último rim, meu corpo, minha saúde. E foi tudo em vão.

Meu pai estava morto.

Sofia me entregou um único girassol. A flor favorita do meu pai.

"Ele ficaria muito orgulhoso de você, Lucas."

Seis anos se passaram.

A dor da perda nunca foi embora, mas se tornou uma companhia silenciosa. A dor física era mais presente, um lembrete diário do meu rim artificial, da máquina à qual eu estava conectado toda noite.

Sofia nunca saiu do meu lado.

Ela cuidou de mim, me ajudou a reconstruir minha vida. Nos apaixonamos, ou pelo menos eu pensei que sim. Nós nos casamos.

Eu pensava que tinha encontrado a paz, uma felicidade amarga, mas real.

Até hoje.

Eu estava no meu escritório em casa, tentando trabalhar, mas o zumbido constante da máquina de diálise portátil me distraía. Sofia estava no jardim dos fundos, falando ao telefone com sua melhor amiga, Isabela Castro. A porta de vidro estava entreaberta, e a brisa da tarde trazia a voz dela até mim.

"Ele está sendo um fardo, Isa. A máquina, as consultas, a dieta... às vezes eu não aguento mais."

Meu coração se apertou. Eu sabia que era difícil para ela.

"Mas valeu a pena, Sofi. Você conseguiu o que queria. O Pedro está saudável, feliz. Ele tem os dois rins do Lucas, perfeitos. Um titular e um reserva de luxo."

Parei de respirar.

Os dois rins do Lucas?

"Eu sei", a voz de Sofia era presunçosa, satisfeita. "Foi um plano genial. Fazer o Lucas pensar que estava doando o segundo rim para o pai... foi a única maneira. Ele nunca daria o último rim para o Pedro voluntariamente."

Minha cabeça começou a girar. O que ela estava dizendo?

"E o pai dele?", perguntou Isabela, a voz um pouco hesitante.

Houve uma pausa.

"Foi um efeito colateral necessário", disse Sofia, a voz fria, sem emoção. "A equipe médica era minha. Eles fizeram o que eu mandei. A 'rejeição súbita' foi... induzida. O velho já estava no fim da vida de qualquer jeito. O importante era que o Pedro tivesse o melhor, a segurança de um segundo rim perfeitamente compatível caso precisasse no futuro."

O copo de água na minha mão escorregou e se estilhaçou no chão.

O som agudo não foi nada comparado ao som do meu mundo se partindo.

Meu pai.

Eles mataram meu pai.

Sofia, a minha amiga, minha esposa, meu anjo salvador.

Ela era o diabo.

Pedro, meu melhor amigo, era seu cúmplice.

Minha vida nos últimos seis anos, meu casamento, a morte do meu pai, meu corpo quebrado... tudo era uma mentira. Uma manipulação cruel e doentia.

Eu não era um marido. Eu era um banco de órgãos. Um tolo.

O choque deu lugar a um frio que começou na boca do meu estômago e se espalhou por cada veia. Não era tristeza. Era ódio. Um ódio puro, gelado e absoluto.

Naquele momento, enquanto eu ouvia minha esposa se gabar de ter assassinado meu pai, um novo propósito nasceu dentro de mim.

Vingança.

Eu ia expor cada mentira. Eu ia destruir Sofia e Pedro.

Eu ia fazer com que eles pagassem pela vida do meu pai e pelos seis anos que roubaram de mim.

A justiça seria feita.

Mesmo que fosse a última coisa que eu fizesse.

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