
A Mulher que Me Roubou Tudo
Capítulo 3
O mundo ao meu redor parecia distorcido, as cores borradas nas bordas. O som do vidro quebrado no chão era a única coisa real.
Um vento frio entrou pela porta entreaberta do jardim, mas o arrepio que percorreu minha espinha não tinha nada a ver com a temperatura.
Era o gelo da verdade.
A voz de Sofia continuava, alheia à minha presença, alheia à destruição que suas palavras causaram.
"O Pedro nem sabe dos detalhes. Ele só acha que eu dei um jeito de conseguir o segundo rim. Ele é egoísta demais para perguntar como. Contanto que ele esteja bem, o resto do mundo pode queimar."
Cada palavra era um golpe.
A mão amiga que me tirou do fundo do poço.
Não era uma mão. Era a foice do diabo, me arrastando para um inferno ainda mais profundo.
Eu não era um sobrevivente de uma tragédia. Eu era a vítima de um plano meticuloso. Meu corpo, a saúde do meu pai, meu luto... tudo foi usado como peça em um tabuleiro doentio para satisfazer a obsessão de Sofia por Pedro.
Eu me sentia sujo. Usado. Um recipiente.
"Lucas? Você está bem? Ouvi um barulho."
A voz dela agora estava perto. Sofia entrou no escritório, seu rosto uma máscara de preocupação. A mesma preocupação falsa que ela usava há seis anos.
Meus músculos se enrijeceram. Minha vontade era de pular no pescoço dela, de gritar até meus pulmões arderem. Mas um instinto de sobrevivência mais primitivo tomou conta. Se eu revelasse que sabia, eu perderia qualquer chance de vingança.
Eu precisava fingir.
"Eu... eu só derrubei um copo. Estou um pouco tonto hoje." Forcei as palavras a saírem, minha voz rouca.
Ela se aproximou, o cheiro de seu perfume caro me enjoando.
"Ah, meu amor. Você precisa descansar. Você se esforça demais no trabalho."
Ela começou a juntar os cacos de vidro com cuidado.
"Sabe, eu estava pensando no seu pai hoje", ela disse, casualmente, sem me olhar. "Seis anos já. O tempo voa. Ainda me sinto tão mal por aquela rejeição ter acontecido. Foi tão... inesperado."
A bile subiu pela minha garganta. A audácia dela. A crueldade sem fim.
Eu a observei, a mulher com quem eu dividia a cama, e vi um monstro.
"Sofia", eu disse, a voz baixa. "Às vezes eu penso... e se eu pudesse ter meu rim de volta? O que está com o Pedro."
Era um teste. Uma isca.
Ela parou o que estava fazendo e me olhou, os olhos se estreitando por uma fração de segundo.
"Não diga uma coisa dessas, Lucas. Nem de brincadeira."
Sua voz era dura.
"O Pedro precisa daquele rim. A vida dele depende disso. Você o salvou. Foi a coisa mais nobre que você já fez. Você não pode se arrepender disso agora."
Chantagem emocional. A mesma arma que ela usava há anos.
"Foi o primeiro rim", eu disse, mantendo meu olhar fixo no dela. "Eu estou falando do segundo. Aquele que era para o meu pai."
O rosto dela se fechou completamente.
"O rim é do Pedro agora. Os dois. Legalmente, inclusive. Eu cuidei de toda a papelada na época. Você assinou tudo. Esqueça isso, Lucas. É um pensamento doentio."
Ela se levantou e jogou os cacos no lixo, limpando as mãos como se estivesse limpando a sujeira da nossa conversa.
Lembrei-me dos papéis. Lembrei-me de assinar uma montanha de documentos no hospital, dopado de analgésicos e destruído pelo luto. Eu confiaria minha vida a ela. E ela usou isso para me acorrentar.
Lembrei-me de outras coisas. De como ela sempre me desencorajou a falar com os médicos da equipe dela diretamente. De como ela interceptava todas as comunicações. De como, nos primeiros anos, sempre que eu mencionava a possibilidade de procurar uma segunda opinião sobre meu rim artificial, ela ficava ansiosa, dizia que era o melhor que a tecnologia podia oferecer e que eu deveria ser grato.
Tudo fazia sentido agora.
Ela se aproximou e tentou me abraçar.
"Não vamos brigar por isso, ok? Eu te amo. Só quero o seu bem."
Eu não me mexi. Meu corpo estava rígido como uma pedra.
"Estou cansado", eu disse. "Vou tomar meus remédios e deitar um pouco."
Ela pareceu aliviada por eu ter mudado de assunto.
"Claro, meu amor. Vou te levar um chá."
Naquela noite, esperei ela adormecer. Seu rosto estava sereno, a respiração calma. Uma mentira. Tudo nela era uma mentira.
Com cuidado, peguei um dos comprimidos para dormir que ela insistia que eu tomasse para "descansar melhor". Esmaguei-o e dissolvi no chá de camomila que ela tinha preparado para si mesma antes de dormir.
Ela bebeu tudo, como sempre fazia.
Uma hora depois, ela estava em um sono profundo, imóvel.
Com o coração batendo forte no peito, eu me aproximei dela. Lentamente, afastei a alça de sua camisola.
Lá, no alto de seu ombro, escondido, havia uma pequena tatuagem.
Eu a tinha visto algumas vezes, mas nunca prestei muita atenção. Era um sol estilizado.
Mas agora, olhando de perto, eu vi.
No centro do sol, minúsculas, quase invisíveis, estavam as iniciais "P.C.".
Pedro Costa.
A obsessão dela marcada na pele.
Senti um calafrio percorrer meu corpo. Eu estava dormindo com o inimigo, um inimigo que tinha planejado cada segundo do meu sofrimento.
Com as mãos trêmulas, peguei o celular dela da mesa de cabeceira.
Era hora de descobrir todos os seus segredos.
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