
A maldição dos Sales
Capítulo 2
Uma garota se senta de frente ao espelho, ela segura uma faca com os olhos cheios de lágrimas, pressiona a faca em sua pele, respira fundo, e solta a faca. Ela tinha ensaiado tantas vezes aquilo, que era como se ela já soubesse que não seria capaz de chegar ao fim.
— Você não tem nada a perder Lucy Salas. – Ela diz para seu próprio reflexo no espelho. Seu cabelo liso e avermelhado caia até sua cintura, seus olhos castanhos e vermelhos, estavam cansados, ela parecia está preste a cair de sono, ela seca as lágrimas e se levanta para olhar para seu corpo magro tocar em sua pele clara, respira fundo e pensa "Você consegue, você não aguenta mais". Outra vez coloca a faca em seu pulso e pressiona um pouco, a faca começa rompe a sua pele, ela fecha os olhos imaginou como seria assustador para sua mãe encontrá-la ali sem vida, em um tapete velhos desbotados de frente a um espelho rachados ao meio então ela solta a faca e sorri. — Sou mesmo um fracasso! — E sussurra pra si mesmo.
Ela balança a cabeça, pega um pano e pressiona sobre o pequeno corte, e vai até a janela, a chuva cai graciosamente, o vento mexia as árvores, que pareciam estar em sincronia. Ela sorri, talvez fosse por isso que ela não seguia ir em frente, ela amava a vida ou pelo menos, algumas coisas nela "como uma noite chuvosa ou um dia ensolarado" essas pequenas coisas às vezes a fazia querer viver, ela não sabia se era porque era uma covarde, e se apegava a essas coisas para não seguir enfrente ou era de fato algo que ela não queria deixar para trás.
Lucy não temia a morte, talvez se a morte aparecesse em sua frente, ela a convidasse para tomar uma chá, o que Lucy temia era a vida. O continua para ela era assustador.
O celular toca, ela pula na cama e pega o celular.
(Mamãe) estava escrito na tela, ela olha para a faca no chão, e respira fundo.
— Alô. – Ela fala ansiosa.
O homem do outro lado da linha, olha para mulher caída no chão, percebe que a voz que o atendeu é de uma menina, e se sente mal por ter que falar aquilo para ela.
— Tem alguém mais velho com você? — Ele pergunta calmo.
— Não, o que aconteceu? — A menina fica nervosa, afinal nunca se sabe o que vai acontecer quando se tem uma mãe alcoólatra.
— Tem uma mulher aqui, ela está bêbada e caída no chão, achei seu número no celular dela.
— A onde vocês estão? — A menina se levanta, e pega a chave em cima do criado-mudo.
— De frente ao bar da Relly.
— Obrigada estou indo para aí. — A menina entra no seu velho carro azul de 1965 nem ela sabia como aquilo ainda aguentava andar.
Ela para o carro, olha para a bela mulher de cabelos ruivos e de rosto perfeito, encostada numa parede, junto com um homem com capa de chuva, cai uma lágrima antes dela sair do carro, ela seca e vai em direção do homem.
— Obrigada! — Ela diz ao homem robusto de cabelos negros a sua frente.
— De nada, ela é sua mãe? — O homem, olha para menina que parecia cansada, mas ainda sim muito bonita, seus cabelos estavam molhados, como suas roupas.
— É sim. — A menina diz que vai ao encontro de sua mãe.
— Ela estava arrumando briga com o dono do bar, sorte que passei aqui antes de ir trabalhar porque a coisa ia ficar feia para o lado dela.
— Nem sei como agradecer. — A menina diz tímida para o homem à sua frente.
— Não precisa só a mantenha longe de brigas, e seu pai está no trabalho? — O homem não consegue, se segurar, não podia acreditar que aquela garota, cuidava da sua mãe sozinha.
— Ele está morto, é esse o motivo pelo qual ela bebe. — Lucy diz incomoda, ela não gastava de fala sobre sua vida, ainda mais para um estranho.
— Você precisa de alguma ajuda?
— Não, obrigada! Já estou acostumada. – O homem percebe que a garota, parecia ter feito aquilo mais de uma vez.
— Fique com Deus. — Ele diz e vai embora.
A menina olha para sua mãe ainda desmaiada e dá um tapa de leve em seu rosto.
— Mamãe a corda! — Ela fala, mas os olhos de sua mãe não abrem, ela então a puxa até o carro e a coloca no banco de passageiro.
A garota arrasta a mãe para o chuveiro, aquilo era quase um trabalho diário, todos os dias sua mãe aparecia incapaz de poder falar, nem ao menos tomar o seu próprio banho, após colocar sua mãe na cama, ela se senta ao chão, como sempre coloca a cabeça entre o joelho e chorar. Lucy só queria ser normal, ter uma família como todas as suas amigas. Após um bom tempo chorando, ela se troca e vai até a geladeira, descobre que não há nada ali, a sua pensão estava atrasada há semanas, ela pensou em pedir fiado na venda do Eli mas sabia que não venderia.
Ela se deita ainda com fome, se vira de um lado para o outro na cama, até o sono vencer a fome. Pela manhã ela corre para o quarto de sua mãe lhe dar um beijo no rosto, mesmo sabendo que sua mãe nunca retribuirá o gesto de carinho. Desce as escadas e correndo para chegar a tempo na escola, ela podia pegar o carro, mas se gastasse toda a gasolina não teria como buscar sua mãe mais tarde.
— Oi, Lucy! — Uma garota loira, magra e alta fala.
— Verônica, como te deixaram entrar assim?! — Lucy diz para sua melhor amiga, que usava uma mini saia vermelha, e uma blusa branca.
— Eu sou a melhor aluna que eles têm, porque me expulsarão? — A garota tira os óculos, mostrando seus lindos olhos verdes.
— Por que você acha que tá indo para uma balada, e não para a escola.
— Me deixe ser feliz, mas e você teve problemas de novo? — A aquela conversa não era confortável para Lucy, então ela encolhe os ombros.
— Como sempre. — Lucy diz desanimada, Verônica abraça sua amiga.
— Saber que meu pai ia adorar se você fosse morar com a gente.
Quando o mundo de Lucy desabou, ela recebeu uma proposta. “Se torna irmã de Verônica” mas isso queria dizer que sua mãe ia para uma clínica, a diriam que ela era incapaz de cuidar de uma garota de treze anos, "o que era verdade" Lucy se negou, tinha uma promessa a cumprir e cumpriria.
— E interná-la em uma clínica?! Não V, não posso fazer isso. — Os pais de Verônica viam a mãe de Lucy como um problema, e ela nunca fez parte do convite, isso complicou muito para Lucy.
— Você está se destruindo com ela! — Verônica diz irritada. A garota que era simplesmente, a pessoa mais manipuladora do colégio, se irritava em não poder fazer nada para ajudar sua amiga.
— Ela é minha mãe, prometi a minha vó que cuidaria dela. — A lembrança de sua avó implorando que ela fosse forte por sua mãe a atingiu.
— Você só tem 16 anos, devia ter alguém que cuidasse de você, não ao contrário. — Verônica sabia da promessa absurda que Lucy fez aos 13 anos.
— Vamos mudar de assunto, estou ficando triste. — Lucy disse se afastando da amiga.
— Vai amanhã para praia, não vai? — Verônica pergunta sorrindo, Lucy tinha prometido.
— Minha mãe está insistindo para que eu vá, mas não sei se vou. — ela Achava estranho como sua mãe tinha insistido que ela fosse, normalmente ela simplesmente não liga, para onde Lucy vai ou deixa de ir.
— Ela está certa, você não sai de casa.
— Mas se eu for, quem vai tomar conta dela?
— Ela prometeu que não ia beber. — Como se um alcolatra cumprisse alguma promessa.
— Ela prometeu isso para minha vó e não adiantou nada! — Ela queria confiar em sua mãe, queria ao menos ser uma adolecente que não teme voltar para casa e ver a casa em chamas. Isso já aconteceu uma vez.
— Vai fazer o que hoje? — Verônica pensa em chamar a amiga para o shopping.
— Vou ao banco, já faz tempo que minha pensão não cai. — Verônica ver a expressão de preocupação de sua amiga.
— Quer que eu vá junto?
— Não precisa.
As duas garotas entram na sala.
— Bom dia professor! — O professor, abre um largo sorriso para ela.
— Olha como ele te seca. — Verônica sussurra aos ouvidos de Lucy.
— Eca é meu professor. — Lucy olhar para o homem de cabelos negros e olhos azuis, ele é lindo, mas ela não via, dessa formar.
— Se ele desce acima de mim, como dar de você, eu pegaria.
— Quem você não pegaria? — Lucy diz maldosamente.
— O professor Verón. – Verônica faz uma cara de nojo.
— Só uma doida ficaria com ele. – Lucy sorriu fazendo Erik suspirar.
O garoto loiro de sardas no rosto era, sem dúvida, o maior admirador de Lucy, que nem o olhava, não como alguém que pudesse ficar.
— Bom dia Erik! — Ela fala para o garoto que a olhava feito bobo.
— Sem chance! — Verônica, bate na cabeça dele, que apenas se preocupa em responder a Lucy.
— Bom dia Lucy! — Ele diz todo animado.
— Outro! — Verônica diz e se senta.
— Maldosa. — Verônica, ver o pequeno curativo no pulso da amiga.
— De novo! — Lucy a olha sem entender, mas percebe que o curativo está à mostra.
— Não! — Lucy diz, olhando para a frente.
A aula termina, todos saem da sala, mas Lucy ainda estava guardando as suas coisas.
— Precisa de ajuda? — O professor se coloca em sua frente.
— Não obrigada!
— Sabe que sempre que precisar estarei aqui? – Ele diz pegando na mão de Lucy, que puxa rapidamente, mas ele vê o curativo.
— O que foi isso?
— Obrigada, mas tenho que ir! – Ela diz indo para outra aula.
As aulas passavam rápidas, Verônica às vezes a olhava, irritada, quando enfim a aula termina, Lucy corre, para ir ao banco, também não queria ouvir o que Verônica tinha a dizer.
Mas Verônica era mais esperta, pegou e agarrou o braço de Lucy.
— De novo sério?
— Não me olhe assim! — Lucy, segura as lágrimas.
— O que seria de mim? Já pensou nisso? – Verônica, puxa o ar e balança a cabeça. — Tem certeza que não quer que eu te leve? — Lucy pensa um pouco, mas sabia que Verônica não tocaria mais no assunto.
— Tá bom, vamos?
As duas entram no carro novo de Verônica, ao contrário de Lucy os pais de Verônica eram ótimos pais, e bem ricos também.
— Vamos passar no shopping, quando estávamos voltando do banco. — Verônica diz a amiga.
— Há, não! — Lucy odiava ir em shoppings.
— Sem essa.
— Mas...
— Não quero saber. — Verônica aumenta o som, abafando a voz de Lucy que tentava em vão argumentar
Elas chegam ao banco alguns minutos depois.
— Oi, é que preciso falar com o gerente. — Lucy fala para uma moça de cabelo enrolado e sorriso gentil.
— Pode se sentar. — A moça aponta para as cadeiras.
O homem de cabelos castanhos e de terno aparece minutos depois.
— Bom dia! No que posso ajudá-las?
—Sou Lucy Sales, e gostaria de conversar com o senhor em um lugar mais reservado. — Ela diz seriamente.
— Sim, me acompanhe até minha sala. — O homem segue na frente e as meninas logo atrás.
As garotas se sentam e olham a beleza do aquário que fica perto da janela, o escritório era lindo e aconchegante.
— É lindo, não é? – O homem fala orgulhoso.
— Sim, é.
— Mas então o que trás duas belas jovens ao meu escritório?
— Recebo uma pensão, pela morte do meu pai, mas acontece que há semanas que eu espero e não cai nada.
— Como era o nome do seu pai?
— Dick Sales.
— Calma, verei nesse momento, o que está acontecendo! — Alguns minutos se passaram.
— Desculpe, mas tem certeza que recebe uma pensão desse homem.
— Sim! — Lucy diz confusa.
— Pode me dar o número da sua conta?
— Claro.
O homem demora mais alguns segundos.
— Você está confusa, não recebe pensão de seu pai e sim da sua avó paterna.
— Do que está falando? — Lucy se assusta, ela não sabia da existência dessa avó.
— Sim. Você recebe uma pensão de Bethany Sales, mãe de Dick Salem. — Lucy sente uma bola no estômago.
— Mas o senhor sabe por que ela não mandou a pensão esse mês?
— Estranho que o advogado dela, ainda não tenha procurado.
— Porque ele me procuraria?
— Em caso de morte, os bens são congelados, até a abertura do testamento.
— O que o senhor está dizendo?
— Oi. — Verônica levanta a cabeça para encarar Lucy.
— Desculpa o meu mau jeito, mas a senhora Bethany Sales morreu a três semanas.
Por um momento Lucy se sente sem chão, como ela podia perder alguém que nunca conheceu? Ela tinha mil perguntas, mas sabia que o nobre senhor Marvin, não poderia respondê-la.
— E agora o que eu faço? — Ela olha para o homem.
— Ligarei para o advogado de sua avó e verei o que acontecer.
O homem pega o telefone e disca o número.
— Sua avó rica morreu? — Verônica olha assustada e logo sorri.
— O que? - Lucy olha confusa.
— Dinheiro, herança. — Ela sorri, mas para de fala para ouvi a conversa do senhor Marvin
— Alô eu posso falar com o doutor Kinderman? — A moça do outro lado da linha passa para o jovem advogado.
— Bom dia, quem gostaria. – O Senhor Kinderman atende o telefone educadamente.
— Me chamo Marvin, sou o gerente do banco Dalanco.
— Sim, no que posso ajudá-lo?
— É que minha cliente Lucy Sales veio me perguntar sobre sua pensão, e aqui constata que a senhora Bethany Sales faleceu há três semanas, porém sua única neta, não foi avisada e nem convocada para abertura do testamento. Gostaria que o senhor me explicasse o que está havendo?
O homem do outro lado da linha ficou pasmo, ele tinha ligado há duas semanas para casa da única neta de sua cliente.
— Eu avisei a mãe da senhorita Sales da morte da avó, inclusive estou indo ai a manhã para ler testamento da senhora Sales, até marcamos para às nove da manhã.
— Então o senhor me perdoe perturbá-lo, conversarei com a Lucy agora mesmo.
O homem desliga o telefone, ele havia acabado de insinuar que um advogado estava passando para trás uma jovem.
— Senhorita Sales, por que mentiu para mim?
— Senhor, não entendo o que quer dizer! — Lucy fala confusa.
— O advogado avisou a sua mãe sobre a morte da sua avó, inclusive vêm ler o testamento a manhã às nove horas.
— Engraçado por que a manhã às nove horas, estarei na casa da praia de Verônica.— Lucy tinha acabado de perceber o que tinha acontecido, sua mãe não queria que ela soubesse sobre a avó, mas Lucy não entendia o porquê?
— Desculpe senhor, mas eu não tinha ideia, minha mãe não me disse nada.
—Tudo bem.
Lucy olha para Verônica que está o tempo todo no celular e que nem percebeu o que tinha acontecido.
— V vamos!
— Mas já?
— Vamos! – Lucy puxa.
— O que foi Lucy? — Verônica olha para amiga que parecia ter visto um fantasma de tão pálida.
— Nada, vamos! — As duas saem e vão para o carro.
— Está triste porque sua avó morreu?
— Nem sei, sabe, é estranho e vazio.
— Talvez ela fosse uma megera.
— É talvez, mas não tem como saber, eu ao menos devia saber como me sentir com a morte dela, mas sinceramente eu não sei, e eu não sei porque não me permitiram sentir.
— Então é isso?
— Só gostaria de saber que eu tinha uma alternativa menos solitária, sabe? — A voz de Lucy embargou, ela queria muito te conhecido avó, queria ao menos entender porque ela não amou, não aquis.
— Sei.
Lucy entrou no carro e começou a pensar no que diria a sua mãe, e nas coisas que poderia ter sido diferente se ela soubesse da existência de sua avó, ela lembrou que há três semanas atrás ela teve uma grande febre e pensou ter visto alguém em seu quarto.
“ Agora é com você querida”
A voz que a acordou naquela noite, podia ser da sua vó, será que ela sentiu a partida da sua avó?
Lucy explica tudo a Verônica que acha que não passa de coincidência, e não discutem o assunto, porque Verônica é cética, criada por dois médicos, ela acredita na ciência e pronto. As duas param de frente a casa de Lucy, porém Lucy não se mexeu, ela olhou para casa e imaginou como começaria aquela conversa. Em como teria que se controlar para não gritar.
— Acho melhor entrar Lucy.
— Ela vai mentir para mim. — Ela sorriu com essa certeza.
— Talvez não.
— Ela vai, ela é uma grande mentirosa, ela me arrastou para isso e não se importou em me dizer que eu poderia ter algo melhor.
— Ela deve ter seus motivos.
— Espero que sejam bons ou não sei se vou perdoá-la. — Lucy respira e desce do carro.
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