
A Luna Preciosa do Rei Licantropo
Capítulo 2
As lágrimas apenas cessaram quando já não restava nada dentro de mim para chorar. Nem percebi quando alcancei a curva do rio, até que a clareira se revelou à minha frente. Sem perder tempo, ajoelhei-me e comecei a separar as roupas em montes organizados.
Eu não possuía muitas peças, apenas algumas roupas gastas, recebidas de membros aleatórios da matilha. Não podia permitir que se acumulassem, por isso as lavava diariamente.
Não éramos os únicos seres sobrenaturais da região, e nossa matilha era pequena, composta por cerca de duzentos membros. Eu sabia disso porque, todos os anos, o Alfa Joe supervisionava pessoalmente o censo.
Os licantropos governavam os sete reinos, mas alguém como eu não tinha motivo, nem direito, de sequer cruzar o caminho de um deles. O restante do mundo sobrenatural existia apenas como um pano de fundo distante na minha vida, irrelevante e inalcançável. Nesse instante, tudo o que importava eram as roupas sob minhas mãos trêmulas.
Passei a esfregá-las com mais força, pressionando as palmas contra o tecido até meus braços começarem a tremer. Enquanto a fúria fervilhava dentro de mim, as lembranças me golpeavam sem piedade.
Maus-tratos.
Abuso verbal.
Insultos.
Agressões físicas…
Minhas veias pulsaram violentamente, e uma dor aguda se espalhou pela testa, como uma enxaqueca lancinante, tão intensa que temi perder os sentidos, então desapareceu tão abruptamente quanto surgiu.
Quando finalmente voltei para casa, o sol já se escondia no horizonte.
Ouvi vozes vindas do interior e, entre elas, reconheci a voz inconfundível do Alfa Joe. Confusa, abri a porta, e todos à mesa de jantar se voltaram para mim.
"Alfa", murmurei.
"Estive esperando por você a tarde inteira, Narine", disse ele.
"Me desculpe, Alfa. Eu estava lavando roupas na curva do rio."
"Lavando roupas?", repetiu ele, visivelmente surpreso.
"Ah, Joe", Ema interveio com doçura ensaiada. "Narine é extremamente maníaca por limpeza. Vive reclamando que a máquina não lava as roupas direito."
Joe assentiu, compreensivo.
"De qualquer forma", prosseguiu ele. "Estou aqui porque hoje é seu aniversário. É tradição que o Alfa conceda sua bênção e ore para que o espírito de Aeryna a acompanhe na transformação de humana para fera."
Atônita, pisquei. O Alfa se lembrava do meu aniversário, mas meus próprios pais, não.
"Obrigada, Alfa", sussurrei.
"Venha, sente-se. Você deve estar faminta", chamou Ema.
Hesitei, surpresa com aquela súbita demonstração de gentileza. Por fim, deixei as sacolas próximas à porta e me sentei na cadeira vazia ao lado de Levon. Nem conseguia lembrar quando havia me sentado ali pela última vez.
A mesa estava farta: torradas, frango, camarão, panquecas, macarrão e frutas. Servi-me de apenas uma colherada de macarrão.
"Ah, vamos lá, querida", disse Ema, com uma voz melosa. "Não seja tímida. Joe não se importa com um pouco de gula."
Joe riu, e forcei um sorriso rígido, fazendo o possível para não reagir ao insulto velado.
"Faltam menos de oito horas", lembrei a mim mesma. Depois de suportar mais esse tempo, eu enfiaria meus dedos no rosto presunçoso dela.
"Você sempre teve essa marca na testa?", Joe perguntou de repente.
Confusa, levei a mão à testa. "Que marca?"
"Há uma pequena marca vermelha bem aí."
"Ah, devo ter batido em uma árvore no caminho de volta", respondi.
Joe assentiu, aceitando a explicação.
A conversa seguiu por outro rumo. Vargos e Joe discutiam assuntos da matilha, enquanto Levon mexia no celular e Ema intervinha ocasionalmente.
O jantar terminou sem incidentes.
Recolhi os pratos e fui lavá-los. Fora da janela, o céu se abria, revelando uma lua cheia, tingida de um vermelho intenso.
De repente, um calor explosivo irrompeu sob minha pele, fazendo com que me curvasse, ofegante.
"Começou", murmurou Joe.
"Vá para o pátio", ordenou Vargos. Sua voz era fria e distante, como se estivesse dando instruções a uma estranha. "Tire as roupas e lembre-se de respirar durante a dor."
Ele jamais me maltratara diretamente, mas também nunca fizera nada para impedir. Sua indiferença o tornava tão culpado quanto os demais.
Ainda assim, obedeci e saí cambaleando, com os outros me seguindo.
Mal havia alcançado o centro do pátio quando o primeiro grito rasgou minha garganta. O vento se intensificou, uivando ao redor, nuvens carregadas se formaram, e relâmpagos cortaram o céu. Meus próprios gritos foram engolidos pelo rugido da tempestade enquanto a agonia me consumia.
Logo depois, a chuva desabou. Meus ossos estalaram e se alongaram de forma lenta e dolorosa. Senti minha coluna se retorcer em ângulos impossíveis. A dor era tão extrema que tudo o que consegui fazer foi permanecer ali, impotente, enquanto as lágrimas escorriam.
Após o que pareceu uma eternidade de gritos, a dor finalmente cedeu, e fiquei ali, arfante.
Ergui-me sobre pernas que já não reconhecia e contemplei, maravilhada, meu pelo dourado cintilar sob a chuva, com nuances de champanhe dançando sobre a pelagem lisa. As pontas ardiam em um vermelho acobreado, criando um contraste intenso com o tom dourado predominante.
Eu podia sentir, ver, ouvir e cheirar com uma clareza que jamais experimentara — tudo se tornara mais aguçado.
Sons distantes, cada folha, cada gota de água…
Tudo estava ao meu alcance. Uivei descontroladamente para a lua vermelha e, então, voltei-me para os outros, transbordando de uma felicidade quase eufórica.
Porém, eles permaneciam imóveis, encarando-me como se eu fosse uma criatura impossível, algo que não deveria existir.
"Monstro", Ema sussurrou.
Levon mantinha a boca aberta, incapaz de reagir. Joe e Vargos avançaram com cautela, como se estivessem se aproximando de um animal selvagem.
Tentei dar um passo à frente, e todos recuaram de imediato.
"Que aberração é essa?", murmurou Vargos.
"Aeryna te abandonou, criança", sussurrou Joe.
O pânico me invadiu com violência. O que havia de errado? Por que eles me olhavam daquela forma?
Virei-me e vi meu reflexo em uma poça de água.
O sangue gelou em minhas veias.
Eu era enorme, superando até mesmo a altura de Vargos, mas não foi isso que me aterrorizou.
Em minha testa, havia um terceiro olho. A órbita era negra como o vazio absoluto, a íris brilhava como ouro derretido, enquanto meus olhos principais ardiam em um vermelho incandescente.
Mal tive tempo de assimilar aquela visão antes que a escuridão me engolisse por completo.
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