
A Loba Branca Rejeitada do Alfa
Capítulo 2
AYLA POV:
Na manhã seguinte, entrei no monolito de vidro e aço da Menezes Tech pela última vez. O documento de Rejeição assinado estava dentro de um envelope pardo em minhas mãos, pesando como uma lápide.
O ar vibrava com poder e os cheiros misturados de centenas de lobisomens, uma sinfonia de ambição. Era um lugar ao qual eu nunca pertenci.
A Beta de Caio, Clara, estava em sua mesa, sua expressão uma mistura de pena e distância profissional.
"Ele está em uma reunião, Ayla", disse ela, com a voz suave. "Com a Alfa Chaves."
"Eu sei", respondi, minha voz firme. "Isso vai levar só um momento."
Não esperei por permissão. Fui direto para as pesadas portas de carvalho de seu escritório e as abri.
A cena lá dentro era exatamente como eu havia imaginado. Caio e Kátia estavam debruçados sobre um mapa holográfico de territórios globais, suas cabeças próximas. A energia Alfa combinada deles era uma força palpável na sala, uma pressão esmagadora que deixava o ar rarefeito. Era uma atmosfera de conspiração, de poder, um mundo no qual eu, como sua companheira Ômega, nunca fui convidada a entrar.
Caio ergueu o olhar, seus olhos dourados faiscando de fúria pela interrupção. Seu Lobo Interior soltou um rosnado baixo e gutural. Não havia desculpa em seu olhar pela noite anterior, nenhum sinal de suavidade por sua companheira. Apenas a irritação de um rei cujo conselho de guerra havia sido perturbado por uma serva.
"Ayla. Estou ocupado", ele disse, ríspido.
Kátia recostou-se na cadeira, um sorriso lento e triunfante brincando em seus lábios. Ela cheirava a vitória.
*Estamos no meio de algo vital, Alfa,* ela enviou a ele em um Link Mental privado, mas deixou vazar o suficiente para que eu ouvisse. *A fusão territorial está em uma fase crítica.* A mensagem dela era clara: isso é importante. Você não é.
Desliguei meu próprio Link Mental, erguendo uma parede de silêncio puro e frio em minha cabeça. Era um truque que minha avó, outra Loba Branca, havia me ensinado. Uma maneira de encontrar paz em um mundo de ruído.
"Não vou demorar", eu disse, minha voz desprovida de emoção. Coloquei o envelope em sua mesa. "A galeria precisa da sua assinatura em um formulário de liberação de PI. Para o catálogo digital da exposição."
Minha mentira era simples, crível. Ela se encaixava perfeitamente em sua campanha deliberada para me diminuir e à minha arte.
Ele encarou o envelope, depois a mim. Por um segundo, sua intuição de Alfa vacilou. Um predador sentindo uma armadilha que não conseguia ver. Ele se inclinou para frente, suas narinas se dilatando levemente, tentando captar meu cheiro. Ele estava procurando pelo cheiro familiar e submisso de lilás que sempre me envolvia, o cheiro que lhe dizia que eu era sua.
Mas não havia nada.
Eu havia envolvido meu cheiro em uma mortalha de gelo, outro dom da minha linhagem. Encarei seu olhar sem vacilar, meus olhos prateados sustentando os dourados dele. Eu era uma página em branco, uma sala vazia.
Ele estendeu a mão para o envelope, a testa franzida em suspeita. Ele estava prestes a abri-lo, a ler as palavras que o destruiriam.
Mas Kátia escolheu aquele exato momento para intervir.
"Caio", disse ela, sua voz um ronronar sedoso. "Os Anciões estão esperando na chamada de conferência. Sua decisão é necessária."
A atenção dele voltou-se para ela, para os negócios "importantes" de seu império. O destino das alcateias. A movimentação de bilhões de reais.
Ele grunhiu de frustração, seu foco agora inteiramente nos assuntos urgentes de seus deveres de Alfa. Aquilo era apenas uma tarefa de uma Ômega, uma distração.
Com um último olhar desdenhoso para mim, ele rasgou o envelope, puxou a única folha de papel e a virou direto para a última página. Ele não leu uma única palavra, porque fazer isso seria admitir que meu "hobby" tinha alguma validade legal. Seu ego não permitiria.
Sua caneta, um instrumento pesado e caro que havia assinado acordos que valiam fortunas, moveu-se pela linha de assinatura em um rabisco rápido e raivoso.
Observei a tinta penetrar no papel, soletrando seu nome sob a sentença condenatória.
"Eu, Caio Menezes, rejeito você, Ayla Matos, como minha companheira."
Peguei calmamente o documento de sua mesa, meus dedos se fechando ao redor do papel. Estava feito.
"Obrigada, Alfa", eu disse, o título honorífico com gosto de cinzas na minha boca.
Virei-me e saí do escritório, de costas retas, deixando-o lá com sua nova aliada e seu império em ruínas. Ele só não sabia ainda que estava em ruínas.
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