
A Lista dos Feios
Capítulo 2
A humilhação no escritório começou com uma lista.
Não uma lista qualquer, mas a "Lista dos Mais Feios", uma tradição cruel e infantil que a minha chefe, Paula, fazia questão de organizar todos os anos para "animar" a equipe.
Naquele dia, eu era o alvo principal.
Paula, com seu sorriso perfeito e roupas de grife, subiu em uma cadeira no meio do escritório, segurando uma folha de papel como se fosse um troféu. O silêncio se instalou, pesado e expectante.
"Atenção, pessoal! Chegou a hora mais esperada do ano! A votação foi acirrada, mas temos nossos campeões!"
A voz dela era melódica, mas carregada de veneno. Pedro, o queridinho do escritório e seu cúmplice leal, estava ao lado dela, rindo como um idiota.
"E o prêmio de 'Mais Feio' do nosso escritório vai para... João!"
As risadas explodiram, ecoando pelas paredes brancas do escritório. Senti o calor subir pelo meu pescoço, minhas mãos suando frio debaixo da mesa. Eu tentei me encolher na minha cadeira, desejando desaparecer.
Mas Paula não tinha terminado.
"E tem mais!", ela continuou, com um brilho malicioso nos olhos. "Parece que nosso campeão é um romântico! Recebemos algumas... contribuições anônimas."
Ela desdobrou outra folha de papel. Meu coração parou. Eram as cartas que eu tinha escrito para ela. Cartas ingênuas, cheias de uma admiração que agora me parecia patética. E junto com elas, o convite que eu tinha deixado em sua mesa mais cedo, convidando-a para a festa da empresa.
Pedro pegou uma das cartas e começou a ler em voz alta, imitando uma voz chorosa e dramática.
"Oh, Paula, sua beleza ilumina meus dias cinzentos..."
Cada palavra era uma facada. O escritório inteiro gargalhava. Alguns colegas desviavam o olhar, constrangidos, mas a maioria se juntou ao coro de zombarias. Eu era o palhaço do circo, e Paula era a mestra de cerimônias.
"Que perdedor", Pedro zombou, amassando a carta e jogando-a na minha direção. "Ele realmente achou que tinha alguma chance com você, Paula."
Paula desceu da cadeira, caminhou até minha mesa e me olhou de cima a baixo com desprezo.
"João, João... Você é um bom funcionário, talentoso até. Mas precisa se olhar no espelho. Eu? Com você? Nunca."
Ela pegou o convite para a festa que eu havia feito, rasgou-o lentamente em pedaços e deixou os confetes de papel caírem sobre minha cabeça. A humilhação era completa, pública e esmagadora.
"Ah, e não podemos esquecer da nossa campeã feminina!", anunciou Paula, voltando para o centro das atenções. "A 'Mais Feia' deste ano é... Mariana!"
Um murmúrio percorreu o escritório. Mariana era a garota quieta do canto, a que nunca falava com ninguém, sempre de cabeça baixa e com roupas simples. Ela se encolheu ainda mais, se possível, seu rosto pálido ficando vermelho.
A festa de humilhação continuou por mais alguns minutos, e então, aos poucos, as pessoas começaram a arrumar suas coisas para ir embora, ainda rindo e comentando.
Eu fiquei ali, paralisado, os pedaços do meu convite espalhados na minha mesa como as ruínas da minha dignidade.
Então, algo dentro de mim mudou. Uma raiva fria e clara substituiu a vergonha.
Levantei-me. Ignorei os olhares curiosos. Ignorei Paula e Pedro, que me observavam com sorrisos de escárnio.
Caminhei em linha reta até a mesa de Mariana.
Ela estava de cabeça baixa, seus ombros tremendo silenciosamente. Ela não percebeu minha aproximação até que eu parei bem na sua frente.
Ela ergueu o olhar, seus olhos cheios de lágrimas e surpresa.
"Eu te levo para casa", eu disse, minha voz firme.
Paula, que observava a cena, soltou uma risada alta e debochada.
"Olhem só! Os dois patinhos feios vão embora juntos! Que comovente!"
Ignorei-a completamente. Mantive meu olhar fixo em Mariana, oferecendo-lhe uma mão. Ela hesitou por um segundo, então, timidamente, aceitou.
Enquanto a guiava para fora do escritório, passei pela mesa de Paula. Sobre ela, havia uma pequena caixa de presente. Eram os chocolates belgas caríssimos que eu tinha comprado para lhe dar na festa. Sem parar de andar, peguei a caixa.
"O que você está fazendo?", ela perguntou, surpresa.
Eu não respondi. Continuei andando com Mariana ao meu lado. Quando chegamos à porta, me virei para Mariana e estendi a caixa de chocolates para ela.
"Para você."
O queixo de Paula caiu. Seus olhos se arregalaram, uma mistura de choque e algo que eu não conseguia decifrar tomou conta de seu rosto. Ela esperava que eu ficasse arrasado, rastejando. Ela não esperava esse ato de desafio, essa transferência de afeto.
Mariana olhou para os chocolates, depois para mim, confusa e grata.
Saímos do prédio e caminhamos em silêncio até o estacionamento. A humilhação ainda ardia, mas agora havia algo mais. Uma resolução.
Eu parei em frente a um carro preto, elegante e absurdamente caro. Uma Maserati. Pressionei o botão na chave e as luzes piscaram.
Abri a porta do passageiro para Mariana. Ela olhou para o carro, depois para mim, completamente atônita.
Naquele momento, enquanto eu olhava para a crueldade superficial de Paula e para a dor silenciosa de Mariana, eu entendi tudo. Eu tinha sido um tolo, cego pela beleza exterior, incapaz de ver o veneno que se escondia por trás de um rosto bonito.
A humilhação que sofri não foi o fim. Foi o começo.
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