
A Lista dos Feios
Capítulo 3
No dia seguinte, a atmosfera no escritório estava carregada. As pessoas me olhavam de soslaio, cochichando. A história do carro de luxo já tinha se espalhado como fogo.
Paula tentou se aproximar da minha mesa pela manhã, um sorriso forçado nos lábios.
"João, sobre ontem..."
Eu nem levantei a cabeça. Continuei digitando no meu teclado, o som das teclas sendo a única resposta que ela recebeu. Fingi que ela não existia.
Depois de um momento de silêncio constrangedor, ela bufou e se afastou. A rejeição a atingiu mais do que qualquer insulto.
No final do expediente, caminhei até a mesa de Mariana. Ela já estava de pé, arrumando suas coisas, visivelmente nervosa.
"Pronta?", perguntei.
Ela assentiu, um pequeno e tímido "sim" escapando de seus lábios. Sua aceitação era cautelosa, como a de um animal assustado que não está acostumado com a gentileza.
Enquanto caminhávamos para a saída, passamos por Paula. Ela estava nos observando, seu rosto uma máscara de fúria contida. Ao nos ver passar, ela não conseguiu se controlar. Com um gesto brusco, varreu uma pilha de papéis de sua mesa para o chão. O som ecoou pelo escritório silencioso, mas nós não paramos.
Dentro do carro, o silêncio era denso. Mariana olhava pela janela, suas mãos apertando a alça de sua bolsa.
Finalmente, ela se virou para mim.
"Por que você está fazendo isso?", ela perguntou, sua voz baixa, quase um sussurro. "Por que está me ajudando?"
Eu olhei para a estrada à frente, minhas mãos firmes no volante.
"Porque eu cansei de ver pessoas como eles ganhando sempre", eu disse. "E porque ninguém merece passar pelo que você passou ontem."
Ela não disse mais nada, mas senti uma pequena mudança na sua postura. Um pouco menos de tensão.
"De agora em diante, eu te levo e te busco todos os dias", eu acrescentei. "Não se preocupe com eles."
Era uma promessa.
A semana passou nesse novo ritmo. Eu a buscava, a levava para casa. No escritório, eu a tratava com uma normalidade que ela nunca havia recebido de ninguém. Trocávamos e-mails de trabalho, eu pedia sua opinião sobre projetos. Aos poucos, ela começou a relaxar na minha presença.
Mas a paz não durou.
Na sexta-feira, eu me atrasei um pouco para sair. Quando cheguei ao andar de baixo, vi a cena.
Pedro e dois de seus amigos tinham encurralado Mariana perto da saída.
"Olha só, a Cinderela está esperando a carruagem?", Pedro zombava, com seu sorriso arrogante. "Você realmente acha que esse cara se importa com você? Ele só está te usando para me atingir, sua feia."
"Me deixem em paz", disse Mariana, tentando passar por eles.
Um dos amigos de Pedro a empurrou de leve, fazendo-a tropeçar. Sua bolsa caiu no chão, espalhando seu conteúdo pelo piso de mármore. Uma carteira, chaves, um batom... e um pequeno caderno de desenho.
O caderno caiu aberto.
Nele, havia um desenho. Um retrato a lápis, incrivelmente detalhado e sensível.
Era um retrato meu.
Não era o "João feio" do escritório. Era eu, concentrado no meu trabalho, com uma expressão séria que ela capturou com uma precisão assustadora. Havia um respeito, uma admiração no traço que me deixou sem ar.
Pedro viu o desenho. Seu sorriso de escárnio se alargou ainda mais.
"Mas o que temos aqui? A feia é uma perseguidora também? Que patético."
Ele se abaixou para pegar o caderno.
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