
A jovem inocente e o milionário
Capítulo 2
— Consegui minha aptidão. — Chelsea disse sem a
menor empolgação.
Eu lhe mostro a minha, insatisfeita.
— Vejo que você também não está nada feliz. —
comentou.
— A Mag fica feliz com isso, mas eu não consigo ficar
contente com algo tão ridículo. Não somos mercadorias.
Como mal toquei no café da manhã, estou me sentindo
um pouco fraca, com uma pequena fraqueza nas pernas.
— Você parece muito mais pálida do que o normal.
— Não me alimentei bem.
— Conheço você. Está com medo de ser escolhida por
algum homem. — Não consigo esconder minha
insatisfação em meu olhar. — Vamos para o nosso quarto!
Eu consegui algo delicioso para comermos: uma barra de
chocolate.
Nós parecemos duas crianças correndo felizes pelos
corredores, como se ninguém pudesse reclamar conosco.
Por sorte, não está muito lotado por onde passamos. Eu e
ela rimos alto enquanto corremos, pois chocolate move
nossas vidas. Quando conseguimos roubar alguma coisa
doce, é como uma festa para nós.
Estamos passando próximas à sala da diretoria,
quando ouço a voz da senhora Cloe me chamar. Paro
imediatamente. Com certeza tomarei bronca porque estava
correndo. Além disso, meu cabelo deve estar muito
bagunçado.
— Laiza Nayara! — seu tom de voz foi sério.
Ouvindo passos atrás de mim e o barulho dos seus
saltos altos, sinto calafrios. Chelsea também está
assustada, com uma expressão horrível, como se tivesse
visto um fantasma. Ela é covarde, e só não me abandonou
porque eu a segurei pelo braço.
— Laiza e Chelsea! — esbravejou.
— Olá, senhora Cloe. Como vai? — minha amiga
perguntou sem jeito.
Ela continua séria, sem esboçar nenhuma reação
diante da situação.
— O que fazem pelos corredores feito duas loucas sem
educação alguma? Não viram que estamos com visita?
Não havia prestado muita atenção na face do homem
de terno preto e postura alta que está na minha frente.
— Perdão! Prometo que isso não irá se repetir. — falei.
— Acredito que sim, Laiza.
— Madame, quem é o homem que não tira os olhos da
Iza? — Se tem algo que Chelsea sabe fazer como
ninguém, é ser inconveniente.
Mas ela tem razão: o homem não tira os olhos de mim.
É muito bonito, atraente, e algo nele me causa calafrios de
um jeito que nunca havia sentido antes.
Dou uma cotovelada na ruiva, que sorri, disfarçando a
dor.
— Aquele senhor é um grande empresário. Não
conheço seus motivos para ter vindo aqui, mas não devo
satisfação a vocês, meninas. Vão para o quarto e se
comportem!
— Sim, madame! — Chelsea e eu respondemos ao
mesmo tempo.
Como ela parece bastante chateada, não iremos
desobedecê-la. Não queremos sofrer nenhuma punição. A
mulher ainda olha para o papel em nossas mãos, feliz por
nós e um pouco... Não sei descrever seus sentimentos, por
sempre tentar não demonstrar muitas emoções.
— Vejo que as duas estão aptas para amanhã à noite.
Quero que estejam lindas e perfumadas! Principalmente
você, Laiza. — Quase sorri. Nunca havia lhe visto assim
antes.
Saímos caminhando em passos lentos e calmos, sem
fazer barulho algum. Ao fechar a porta do nosso quarto,
deparo-me com uma Chelsea divertida e, ao mesmo
tempo, chateada.
— “Principalmente você, Laiza”. — imitou a madame.
— Ela nem sabe disfarçar que você é a preferida dela.
— Não tem essa de preferida. Isso é coisa da sua
imaginação.
— Você sabe que ela sempre está te protegendo e
nunca te deixa faltar nada. Além disso, é a única que tem
permissão para ir até a sala dela sem ser chamada. É
bonito ver que a diretora nutre sentimentos por você. —
Sorri. — Tem sorte por ter a proteção dela. — Coloca uma
mão sobre meu ombro.
— E você tem a minha proteção. Sei que isso não é lá
essas coisas todas, mas nunca irei permitir que alguém te
faça mal.
— Promete para mim que nunca iremos nos separar?
— Seremos amigas e irmãs para sempre.
Nós dividimos a barra de chocolate que ela conseguiu
roubar da cozinha hoje mais cedo. Definitivamente, essa é
a melhor coisa que o homem já inventou. É saboroso e dá
aquela sensação de prazer inexplicável. Não me importo se
ficarei com dor de barriga ou se ganharei algumas gramas,
pois só penso em comer a barra inteira.
— Tenho até medo da madame resolver vim ao nosso
quarto para ter certeza de que não estamos correndo por
aí. — confessei.
— Ela não virá agora. Está falando com o bonitão que
não tirava os olhos de você.
— Tem certeza que ele estava olhando para mim, em
vez de ser para você ou para a senhora Cloe?
— Claro que sim. Olhava para você assim. — Faz uma
imitação.
Ela é tão ótima nisso. Eu rolo de rir quando imita a
madame e o Rodolfo. Além de fazer umas caretas
engracadas, suas sarnas são o efeito especial de tudo.
Agora, está fazendo uma expressão boba, com os
olhos arregalados e a boca aberta de uma maneira
exagerada. Tenho certeza que aquele homem não estava
me olhando dessa forma.
— Sua boba! — Sorrio sem jeito.
— Iza, será que ele veio aqui atrás de você?
— De mim?
— Isso se você não for escolhida no leilão de amanhã.
E se ele estiver lá?
— Provavelmente, não. — Dou de ombros. Faço isso
quando estou nervosa. — Não se preocupe! Ninguém vai
olhar para mim.
— Como não? Você é linda! Tudo bem que eu sou
desprovida de beleza, mas você é a garota mais bonita
daqui. É por isso que a Mag morre de inveja de você.
— Chelsea!
— Se o bonitão te comprar... Ai, meu Deus! E se ele te
comprar, Iza? Ele é lindo! — Está empolgada.
— Falando assim, até parece que deseja que eu vá
embora.
— Claro que não. Você não pode me abandonar,
nunca.
— Eu preciso tomar um pouco de ar.
Costumo ficar ansiosa quando minha menstruação está
perto de chegar e me sinto mais sensível. Às vezes sinto
cólicas leves.
(...)
À noite, durante o jantar, Rodolfo sobe ao palco para
fazer um comunicado.
— Boa noite, vadias! — Não perde uma oportunidade
de falar isso. — Quero aproveitar para dizer que todas
devem dormir cedo para estarem descansadas amanhã à
noite. Durante o dia, irão provar lingeries sexies e essas
coisas básicas de mulheres. Eu tenho aqui, em mãos, o
nome de cinco garotas que serão selecionadas para uma
avaliação especial. Um comprador anônimo analisou todas
vocês virtualmente, por fotos, e escolheram as cinco. Irão
fazer mais algumas fotos amanhã, para ele poder escolher
uma para ser dele. — Começa a chamar o nome das
garotas. Elas se levantam da mesa e caminham até ele.
— Aposto que foi o bonitão de hoje cedo. — Chelsea
opinou baixinho.
— Por último e não menos importante, Laiza Nayara.
Meu corpo congelou quando ele falou o meu nome.
Estou completamente estática e sem reação alguma.
— Iza! Vá lá, antes que o Rodolfo venha buscar você!
— Eu...
— Você vai voltar. Somos inseparáveis.
Caminho até onde ele está com as demais garotas.
Encontro-me em estado de choque. O que será de mim?
A vista daqui de cima é fora do comum e parece que
todas olham para mim neste momento.
Rodolfo dá mais alguns avisos e, por fim, diz que
devemos segui-los. As meninas estão atentas e algumas
parecem felizes por terem sido escolhidas.
Respiro fundo para não acabar desmaiando e sinto
medo do que pode acontecer.
Não sei dizer o que é pior: ter que ir ao leilão ou
precisar fazer as fotos para um cliente as analisar. Tudo
que eu sei é que não quero me separar de Chelsea.
Capítulo Dois
A PORTA DE madeira se abre, fazendo um barulho um
pouco desagradável. Fones de ouvidos seriam bem-vindos
nesse exato momento.
Nós entramos em uma sala, encontrando um lugar
amplo e elegante. Eu nunca tinha vindo aqui antes, porque,
pelo que me lembro, repetiram para nós inúmeras vezes
que essa área era proibida.
Rodolfo nos manda sentar. Aqui tem um sofá, algumas
poltronas de couro no centro e uma grande mesa de
escritório no canto, além dos muitos quadros, dos vasos
sofisticados e do tapete que cobre quase todo o chão.
Não demora muito e a senhora Cloe entra na sala,
elegante como sempre. Ela caminha até a cadeira de
escritório e se senta.
— Bem-vindas, meninas, à ala proibida! Creio que
estejam bastante curiosas para saberem o porquê de terem
sido chamadas aqui.
— Muito, senhora Cloe. Eu fiquei um tanto surpresa
com essa convocação. Espero ser últil para alguma coisa.
— uma das garotas disse, muito empolgada.
— Não se preocupe! Logo irei revelar o motivo. Mas
antes, quero dizer que vocês cinco foram selecionadas por
serem as mais bonitas, segundo um cliente muito
importante para nós.
— E quem seria esse tal cliente? — a mesma garota
perguntou, ainda mais empolgada.
— Isso é o de menos, menina. Vocês irão fazer uma
sessão de fotos que serão enviadas a ele, que irá escolher
uma de vocês para ser sua esposa.
Todas comemoram a possibilidade, menos eu. É claro
que eu sonho em me casar e poder formar uma família,
mas na situação em que vivo, casar com um desconhecido
após ele me comprar como se eu fosse uma mercadoria,
não me parece nada romântico. Porém, tenho certeza de
que não serei escolhida. As meninas que estão ao meu
lado são muito bonitas, então, se o tal homem tiver que
escolher alguém, será alguma delas. Para a minha sorte,
não serei eu.
— Todas são lindas e cada uma tem sua beleza. O
cliente gostou muito das cinco, então espero que se
comportem bem para que ele possa analisá-las e perceber
o quanto são ainda mais bonitas do que aparentam.
— Ouviram bem, vadias? Essa é uma ótima
oportunidade de vazarem daqui. — Rodolfo disse sério. —
Agora, prestem atenção: se alguém abrir a boca para falar
qualquer coisa que seja, sofrerá as consequências. E não
pensem que teremos pena de vocês! Porque não teremos.
— Ele me olha de uma maneira estranha, como se seu
olhar gritasse algo muito ruim para mim. Até sinto um
calafrio com sua aproximação. — Pode até parecer sorte,
mas não será. — Sorri diabolicamente.
Se isso foi alguma espécie de aviso, não entendi bem o
que ele falou. Na maioria das vezes, gosta de nos causar
medo.
— E, sobre o leilão de amanhã? Eu fui apta a ir. — a
garota questionou.
— Nenhuma de vocês irá participar e ficarão em seus
quartos. — a madame avisou séria. — Agora, saiam daqui
e relaxem bem para as fotos de amanhã!
— Só mais uma pergunta, madame: o tal cliente virá
conversar conosco?
— Provavelmente, não. Ele é um homem muito
ocupado. As fotos serão enviadas para ele as analisar e
escolher uma de vocês para ser sua esposa.
Nós começamos a sair da sala, quando ouço a voz
dela novamente.
— Laiza! — Viro-me. — Fique! Quero conversar com
você.
— Sim, senhora Cloe.
— Sente-se! O Rodolfo já está de saída. — Olha para
ele, que sorri de um jeito maldoso e se retira, fechando a
porta.
Eu me sento, como ela pediu, e fico a esperando se
pronunciar. Ela termina de organizar alguns papéis em
cima da mesa e vem até o sofá, caminhando lentamente,
senta-se e cruza as pernas com elegância.
— Postura, Laiza Nayara! — ordenou.
Eu tenho estado meio desengonçada nos últimos dias,
mas ela jamais permite que eu perca a postura, já que não
admite que eu esteja feia ou algo do tipo. Devo estar
perfeita o tempo todo, diante de seus olhos.
— Diga-me: o que está achando de tudo isso? —
perguntou curiosa.
— Eu não sei o que dizer. — Ela me conhece muito
bem, portanto sabe que estou mentindo. Por isso, resolvo
lhe dizer a verdade sobre meus pensamentos. — Estou
assustada.
— Por que, minha querida?
— Eu tenho medo de sair daqui, pois não conheço o
mundo lá fora. E a Chelsea...
— Quanto a isso, querida, é apenas um detalhe. Se for
escolhida... E eu sei que será... Poderá ter uma família,
como sempre desejou. Por acaso, esse não é o seu maior
sonho?
— É sim, madame, mas ainda tenho bastante medo.
— Você é linda, Laiza Nayara, e uma menina
encantadora. Quando o cliente bateu os olhos em você,
não pensou duas vezes antes de escolhê-la.
Diferentemente das demais meninas, as quais ele precisou
olhar um pouco mais. Tenho certeza que será escolhida, e
farei o possível para que isso aconteça.
— Obrigada por se importar comigo!
— Sabe que tenho um carinho muito especial por você.
Se sair dessa academia, quero que tenha um futuro
brilhante e muito feliz.
— Obrigada, madame!
Em seguida, vou descansar em meu quarto.
Assim que Chelsea volta do jantar, eu lhe conto tudo
que aconteceu. Não sei descrever sua reação, porque ao
mesmo tempo que ela está demonstrando medo,
demonstra felicidade. É um misto de emoções em uma
única face.
Se a conheço bem, ela está com medo de que eu
possa ser escolhida. Assim, não restaria mais argumentos:
eu deixaria este lugar e ficaria longe dela de uma vez por
todas. E sua felicidade é por saber que poderei, finalmente,
ter a chance de realizar meu sonho de formar uma família e
ter filhos incríveis.
— Isso significa que irei perder você? — Uma lágrima
brota do seu rosto angelical. Ela é a imagem perfeita de um
anjo.
— Você não me perdeu. Eu ainda estou aqui e nem sei
se serei escolhida.
— Eu vi as demais meninas, Iza. Elas nem chegam aos
seus pés.
— Não vamos pensar em separação agora. Eu tenho
certeza que não serei escolhida. — Sinto uma grande
necessidade de abraçá-la.
Ela me retribui um abraço singelo e cheio de
sentimentos amorosos. Nós temos uma conexão
inexplicável e sempre sabemos o momento certo de nos
abraçar.
A noite se torna longa para mim. Viro-me de um lado a
outro da cama, sentindo-me nervosa. Não consigo
controlar minha ansiedade. O que esperar de amanhã?
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